Brasil: “O Presidente é racista e o vice-presidente Mourão nega o racismo”

Reacções à morte de negro espancado por seguranças em Porto Alegre mostra a divisão do Brasil: no Governo lamenta-se, mas falam num caso de excepção. Presidente do PT diz que Bolsonaro tem estimulado “ódio e preconceito”.

Protesto em São Paulo no dia da Consciência Negra pela morte de Beto Freitas
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Protesto em São Paulo no dia da Consciência Negra pela morte de Beto Freitas AMANDA PEROBELLI/Reuters

João Alberto Silveira Freitas, conhecido por Beto Freitas, foi a enterrar este sábado com a aliança do casamento que estava marcado para o início de Dezembro. Foi a viúva que lha colocou no dedo durante o velório. Espancado até à morte, na quinta-feira, por seguranças do supermercado Carrefour de Porto Alegre, ficou como triste exemplo, na véspera do Dia da Consciência Negra, de como os negros continuam a ser os maiores alvos da violência no Brasil.

O vice-presidente brasileiro, Hamilton Mourão, lamentou a morte, mas atribuiu-a apenas ao despreparo dos seguranças e não à questão de a vítima ser negro, até porque, como ele próprio sublinha, não há racismo no Brasil. “Eu digo para você com toda a tranquilidade: não tem racismo aqui”, sublinhou o general em declarações à imprensa brasileira.

Uma declaração que mereceu a réplica acintosa da presidente do Partido dos Trabalhadores (PT), o maior partido da oposição: “Quando o Presidente é racista e o vice-presidente Mourão nega o racismo no Brasil e fala em pessoa de cor, nós vemos o nível a que chegamos. Crimes como o assassinato de João Alberto no Carrefour não são factos isolados. Tem racismo e tem Bolsonaro estimulando ódio e preconceito”, disse, por sua vez, a presidente do Partido dos Trabalhadores (PT), a senadora Gleisi Hoffmann

Depois de muito tempo em silêncio sobre um caso que teve repercussão internacional, Jair Bolsonaro acabou por se pronunciar na noite de sexta-feira sem se referir directamente ao caso. Numa publicação no Facebook defendeu que “o Brasil tem uma cultura diversa”, um “povo miscigenado”, “uma única família”, mas “há quem queira destruí-la e colocar em seu lugar o conflito, o ressentimento, o ódio e a divisão entre classes”.

Para o chefe de Estado brasileiro, “problemas como o da violência são vivenciados por todos, de todas as formas” e quem pretende dividir “o sofrimento do povo brasileiro” com questões de raça, apenas quer jogar uns contra os outros, porque “um povo vulnerável é mais fácil de ser controlado”.

“Como homem e como Presidente, sou daltónico: todos têm a mesma cor. Não existe uma cor de pele melhor do que as outras. Existem homens bons e homens maus”, garantiu.

Afirmações que contrastam com a realidade apresentada pelos números. De acordo com os dados do Atlas da Violência 2020, os assassínios de negros no Brasil aumentaram 11,5% nos últimos dez anos, enquanto as de não negros caíram 12,9%. Em 2018, 75,7% das pessoas assassinadas no Brasil eram negras.

Guilherme Boulos, que disputa a prefeitura de São Paulo nas eleições municipais de São Paulo, depois de ter sido candidato presidencial pelo Partido Socialismo e Liberdade (PSOL) em 2018, comentou no Twitter as palavras do vice-presidente: “‘Não existe racismo no Brasil’, disse Mourão há pouco. O racismo não só existe, como é estrutural. O combate a ele está no centro do projecto de inversão de prioridades. Vamos transformar São Paulo na capital da resistência a esse governo genocida”.

Como escreveu Fernando Mena, colunista da Folha de S.Paulo, “os protestos anti-racistas marcados em algumas capitais do país indicam que, assim como muitos americanos diante do caso George Floyd, muitos brasileiros não estão mais dispostos a se calar sobre as violências que ceifam vidas negras no país”. Se os protestos de sexta-feira “são o início de uma onda, só o tempo o dirá, mas parece cada vez mais difícil fechar os olhos para o facto de que, tanto nos EUA quanto aqui, o racismo caminha para ser finalmente compreendido como um problema de todos.”

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