Azeredo Lopes diz que incêndios o fizeram desvalorizar Tancos

Ex-ministro da Defesa continua a negar ter sido informado de alegado acordo com ladrões. Diz que nem sabia quem era João Paulino e que assinou detenção de director-geral da Judiciária Militar de cruz.

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“Vivíamos um momento de emergência nacional”, recordou Azeredo Lopes sobre os incêndios de Outubro de 2017 Daniel Rocha

“Então eu ia chegar ao conselho de ministros convocado para debater os incêndios e começar a falar do Fechaduras?”. É desta forma que o ex-ministro da Defesa Azeredo Lopes, arguido do caso de Tancos, justifica o facto de não ter, alegadamente, informado sequer o primeiro-ministro António Costa e muito menos os colegas do Governo de que a versão oficial da descoberta do armamento roubado dos paióis, em 18 de Outubro de 2017, não era fiel ao que realmente se tinha passado. 

Mas até muito tarde, disse e repetiu, nunca soube que a actuação da Polícia Judiciária Militar configurava a prática de crimes – nomeadamente do putativo acordo para ilibar de responsabilidades os ladrões, João Paulino e os seus comparsas, em troca da devolução do material bélico. Segundo o Ministério Público, porém, foi posto a par de tudo pelos militares, tendo dado o seu consentimento ao negócio ilícito e à encenação da descoberta das armas na Chamusca.

“Vivíamos um momento de emergência nacional”, recordou Azeredo Lopes sobre os incêndios de Outubro de 2017. Se as armas tinham sido encontradas através das revelações do informador alcunhado como Fechaduras, conforme tinha ficado a saber, ou se tinha sido através de uma chamada anónima, a versão transmitida ao país pela Judiciária Militar, era para si na altura um pormenor despiciendo, num momento em que tinha o país a arder.

Dois dias depois do achamento o seu chefe de gabinete havia recebido das mãos de dois responsáveis da Judiciária Militar um memorando a detalhar alguns aspectos daquilo que se tinha passado, e cujo conteúdo lhes foi transmitido. “Mas nunca poderia imaginar que tinha existido uma investigação paralela”, garantiu aos juízes do Tribunal de Santarém Azeredo Lopes. Que quiseram saber quando tinha então descoberto quem era João Paulino e que o achamento não passava de uma encenação combinada entre os ladrões e os militares.

O ex-ministro respondeu que nem no próprio dia em que o Ministério Público lhe pôs à frente para assinar o mandado de detenção do director-geral da Judiciária Militar, no final de Setembro de 2018, percebeu bem o que tinha passado afinal. Diz que assinou de cruz, perante o volumoso dossier que a procuradora-geral da República Joana Marques Vidal e o director do Departamento Central de Investigação e Acção Penal Amadeu Guerra lhe entregaram para justificar a necessidade de prender o oficial: não era humanamente possível ler tudo de um momento para o outro. “Não tinha sequer consciência daquilo que justificava a detenção”, declarou, acrescentando que até esse dia só sabia do envolvimento de Fechaduras, uma vez que os militares nunca lhe tinham falado de mais ninguém.

Major aponta baterias a oficiais que não são arguidos

Ouvido esta quinta-feira à tarde no Tribunal de Santarém, o major Roberto Pinto da Costa, da Judiciária Militar, que responde também por vários crimes, incluindo associação criminosa, tráfico e mediação de armas, falsificação de documento, denegação de justiça e prevaricação, apontou baterias a dois superiores hierárquicos que não foram constituídos arguidos: o coronel da Força Aérea Manuel Estalagem e o capitão João Bengalinha.

Na sua versão dos factos, foram estes dois oficiais a dar-lhe ordens para prosseguir a investigação ao roubo do material de Tancos, mesmo após a procuradora-geral da República ter delegado as diligências na Judiciária civil, retirando assim competências à Judiciária Militar. “Cumpri ordens do coronel Estalagem, que não é arguido neste processo”, declarou Pinto da Costa, acabando por admitir ter mentido aos procuradores titulares do inquérito ao desaparecimento do material bélico, ao não lhes mencionar as circunstâncias em que o armamento reapareceu. “Foi por dever de obediência”, justificou-se. “Um militar não põe em causa uma ordem”.