A filha morreu. E a mãe encontrou terapia a fazer máscaras na máquina de costura da adolescente

Quando se sentiu perdida, um mês depois da morte da filha, o surto de covid-19 impediu-a de procurar ajuda profissional. Então, uma norte-americana escolheu tratar-se a si própria, confeccionando máscaras de protecção e usando parte do lucro para o banco alimentar da sua comunidade.

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As máscaras, de camada dupla, vêm em vários tamanhos, variando tanto nos tecidos como nas estampagens DR/Medway Mask Makers
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Sharon instalou-se na sua garagem, que está aberta ao público todos os dias da semana DR/Medway Mask Makers
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O fabrico das máscaras tem sido um esforço colectivo que envolve toda a família DR/Medway Mask Makers

O mundo de Sharon Hebert, de Norfolk, Massachusetts (EUA), colapsou ainda antes do início da pandemia: em Fevereiro, encontrou a filha de 15 anos, Helen, morta. E os dias seguintes apenas agudizaram a dor, até se sentir absolutamente perdida. Mas, um mês depois, a mulher encontrou a terapia de que precisava na máquina de costura da filha, que começou a usar para confeccionar máscaras para a comunidade.

“Nunca tinha cosido nada na minha vida, mas a minha filha adorava costurar”, revela Sharon, de 53 anos. Quando olhou para o quarto vazio de Helen, a máquina, branca e velha, chamou a sua atenção. “Se [Helen] fosse viva, estaria na máquina de costura a fazer máscaras de protecção para toda a gente.” E, numa altura em que o mundo começou a assistir ao encerramento de vários serviços, a mulher percebeu que naquela máquina poderia estar uma espécie de terapia. “Não fui capaz de fazer terapia porque tudo fechou [devido ao surto de covid-19]. Tive de criar a minha própria terapia, e foi isto.”

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“Sempre que tento abrandar e digo ‘ok, estou farta’, emocionalmente sinto-me a cair de um penhasco”, desabafou Sharon Hebert DR/Medway Mask Makers

Sharon resgatou a máquina do quarto da filha, assistiu a tutoriais em vídeo, disponíveis online, e aprendeu sozinha a fazer máscaras de protecção individual. Mas, uma máscara multiplicou-se rapidamente em centenas, e, agora, oito meses mais tarde, Sharon já fez milhares.

Desde o fim de Março, Sharon Hebert tem confeccionado e vendido máscaras à sua comunidade de Medway, uma cidade com cerca de 13 mil habitantes. As máscaras, de camada dupla, têm vários tamanhos, variando tanto nos tecidos como nas estampagens – custam entre 5 e 8 dólares (entre 4,23 e 6,76 euros), sendo um dólar de cada máscara vendida entregue ao banco alimentar local. Até agora, Sharon já doou 16.500 dólares (quase 14 mil euros), mas o objectivo é atingir os redondos 20 mil até ao Natal (cerca de 17 mil euros).

Mãos ocupadas, mente distraída

Sharon Hebert vive com o filho, Walter, 20 anos, e com a sua mãe, que requer cuidados especiais e contínuos, depois ter sofrido um AVC há dois anos. “Ela deu uma reviravolta para pior depois da morte de Helen. Mas as máscaras ajudaram a reunir toda a família, e a minha mãe também conseguiu envolver-se”, relata Sharon, acrescentando que o fabrico das máscaras tem sido um esforço colectivo, com a ajuda da sua irmã, sobrinha, cunhada e outros membros da família.

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Durante os meses de Primavera e Verão, venderam as máscaras no relvado em frente à casa da família. Mas, à medida que o tempo arrefeceu, Sharon instalou-se na sua garagem, que está aberta todos os dias da semana, além de comercializar as máscaras através da sua página no Facebook. E os planos são para que este cenário se mantenha. É que, segundo a própria, manter as mãos ocupadas distrai a mente – e isso mantém longe a sua avassaladora tristeza.

“Sempre que tento abrandar e digo ‘ok, estou farta’, emocionalmente sinto-me a cair de um penhasco. Os meus jardins e os meus quintais estão todos cheios de gente, e a minha casa nunca foi uma confusão tão grande. Mas é muito reconfortante poder sentar-me aqui e coser o dia todo”, reconhece a mulher, acrescentando não conseguir deixar de se sentir triste por a filha não poder assistir a todo este processo. “É tão triste que Helen não esteja aqui porque isto era ela. Não há palavras para descrever a espantosa rapariga que a minha Helen era.”

Helen, que tinha síndrome de Asperger (uma perturbação do espectro autista), era uma costureira ávida e gostava especialmente de criar roupa para as suas bonecas. Também adorava cozinhar e jardinar e era versada em acontecimentos actuais. “Achei que Helen ia ser jornalista. Ela tinha o que era preciso, e sabia tudo sobre o mundo e governos estrangeiros”, recorda a mãe, que se recusa a dar detalhes sobre as causas da morte da rapariga, alegando que esses são demasiado dolorosos para os conseguir descrever. Mas revela que a filha estava profundamente perturbada com o clima político do país.

“Helen podia realmente sentir as hostilidades no mundo”, recorda a mãe. “Era uma criança muito inteligente, mas também sentia as coisas com demasiada intensidade.”

Uma rede de apoio

Perder Helen foi muitíssimo traumatizante. Mas fazer as máscaras, reforça, deu um novo sentido a toda a família e ajudou-a a funcionar. “Quando algo realmente devastador acontece na vida, a melhor coisa que se pode fazer para nos curarmos é ajudar alguém”, conclui a mulher que, antes, vendia antiguidades numa loja local, que fechou durante a pandemia. No entanto, a americana não parece sentir falta desses tempos. “Conheci pessoas verdadeiramente espantosas nos últimos oito meses, pessoas que apenas apareceram para oferecer apoio.”

Entre essas pessoas está Sharon Ross, de 58 anos, cujo filho era colega de turma de Helen. Quando soube que a mãe da rapariga estava a fazer máscaras, visitou-a com o seu filho para comprar algumas. “Ela transformou a sua tragédia em algo maravilhoso”, testemunha a nova amiga, que comprou repetidamente máscaras, exaltando a sua excepcional qualidade. “Adoro particularmente que ela o faça na máquina de costura de Helen. Penso que é reconfortante e, de certa forma, curativo para a própria.”

Em casos especiais, a costureira oferece máscaras personalizadas, adaptando as peças de vestuário às necessidades e desejos de um indivíduo.

Kerry McCarthy, 47 anos, por exemplo, vive no mesmo bairro que Sharon, com os seus dois filhos, ambos com necessidades especiais. E Sharon ofereceu-se para fazer máscaras personalizadas para os rapazes. “Ela é espantosa, mediu tudo e fez muitos testes”, conta Kerry. O filho de 5 anos, que tem uma desordem genética, tem características físicas que exigiam que a máscara tivesse proporções diferentes. Já o filho mais velho, de 10 anos, tem síndrome de Down, e Sharon tem estado a tentar criar uma máscara que seja fácil de usar. “A Sharon está a fazer o que a Helen teria feito. Ela está a viver o legado da filha”, sintetiza Kerry.

Ajudar em vez de conspirar

E como é que a história de Sharon chegou aos jornais? Tudo começou com a publicação de um artigo no The Washington Post sobre uma mulher cuja ansiedade e depressão, exponenciadas pela pandemia, conduziram-na a procurar conforto nas teorias da conspiração. Ao ponto de ter perdido o controlo e destruído um expositor de máscaras num supermercado da cadeia Target. As imagens em vídeo do incidente tornaram-se virais.

Num comentário ao artigo, Sharon citou a sua própria história: “Interessante ler sobre uma mulher que culpa o stress por destruir um expositor de máscaras. Em Fevereiro, encontrei a minha filha de 15 anos morta no seu quarto, a minha mãe teve um derrame e eu perdi o meu emprego”, escreveu. “Em vez de destruir um expositor de máscaras de protecção, sentei-me na máquina de costura da minha filha e comecei a coser máscaras.”

É certo que Sharon reconhece que o mundo atravessa um período sombrio e que todos estão a passar por vários graus de luto no meio da pandemia. Compreende que muitos se voltaram para teorias da conspiração e negacionistas, adoptando comportamentos perigosos para tentar dar sentido a tudo isto e encontrar uma forma de lidar com a situação, mas a mulher espera que a sua história, a sua decisão de encontrar um sentido no seu luto, inspire outros a fazer o mesmo.

“Toda a gente está concentrada no quadro geral, mas e a sua família, o seu vizinho do lado, a sua comunidade?”, questiona a mulher. “Tem de se começar por algo pequeno, e depois a coisa cresce por si própria. Conseguem imaginar quão melhor estaríamos se todas as pessoas que perdem tempo a investigar teorias da conspiração se concentrassem antes no bem-estar dos seus vizinhos?

Foi o que Sharon fez, e o impacto da sua decisão na sua comunidade é visível. “A contribuição de Sharon tem sido muito, muito significativa”, responde Paul Galante, director da Medway Food Pantry, o banco alimentar que tem recebido as doações. “Desde que nos começou a dar dinheiro, já alimentamos 1900 lares. São cerca de três meses de alimentos, e compramos ainda um congelador comercial novinho em folha.” Paul Galante, que sublinha o facto de a necessidade do banco alimentar ter aumentado durante a pandemia, acrescenta que Sharon o visita à terça-feira, dia em que lhe dá os cheques, fruto das suas vendas.

Mas, para Sharon Hebert, fazer as máscaras tem sido verdadeiramente a definição de um trabalho de amor. “A minha filha era uma pessoa de dar, e era isto que ela teria feito”, repete, sentada à máquina de costura de Helen. “Ela está mesmo aqui. Comigo.”           

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