Douglas Stuart vence prémio Booker com o romance de estreia Shuggie Bain

A história de um rapaz gay com uma mãe alcoólica na dura Glasgow dos anos 80 saiu vencedora de uma edição do prémio marcada pela diversidade étnica e de género. O romance será publicado em Portugal, em 2021, pela Alfaguara.

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Gonzalo Marroquin/Patrick McMullan via Getty Images

Douglas Stuart, um escritor escocês radicado em Nova Iorque, tornou-se esta quinta-feira o vencedor do prémio Booker de 2020 com o seu romance de estreia, Shuggie Bain, relato fortemente autobiográfico da vida de um rapaz homossexual com uma mãe alcoólica na Glasgow da década de 80. O livro será publicado em Portugal, em 2021, pela Alfaguara.

Anunciado perto das 20h pela presidente do júri, a editora Margaret Busby, numa cerimónia transmitida em streaming a partir da sala de espectáculos Round House, em Londres, o vencedor desta 52.ª edição do prémio reagiu em directo, confessando o seu espanto por ter sido escolhido e agradecendo à mãe, que morreu quando era ainda criança: “Ela está em cada página deste livro, e sem ela nem eu nem o meu trabalho estaríamos aqui.”

E quando o apresentador lhe perguntou se já havia outro livro a caminho, depois desta fulgurante estreia, talvez não estivesse à espera da resposta: não está a caminho, está pronto a publicar, garantiu o autor, explicando que vinha trabalhando em ambos os livros há uma dúzia de anos.

Depois de o prémio, no valor de 50 mil libras (cerca de 56 mil euros), ter sido divido em 2019 entre duas escritoras, Margaret Atwood e Bernardine Evaristo, as surpresas deste ano começaram logo com a short list de seis romances destacados pelo júri, que deixou de fora a veterana Hilary Mantel e incluiu quatro livros de estreia. Entre os finalistas havia quatro mulheres, três das quais negras, e dois autores gay, um deles também negro. Uma diversidade muito comentada na imprensa, e que a presidente do júri saudou, mas acrescentando: “Quando a diversidade for uma coisa normal, deixará de ser discutida.”

Os restantes cinco finalistas eram três americanos – Diane Cook, Avni Doshi e Brandon Taylor –, a etíope Maaza Mengiste e Tsitsi Dangarembga, do Zimbabwe, que esta noite pôde participar na sessão de anúncio do prémio, por videoconferência, mas que ainda recentemente estava detida no seu país por ter participado em manifestações de protesto contra a corrupção do regime.

Uma estreia aos 43 anos

Pedindo aos espectadores que assistiam à sessão que não deixassem de ler as seis obras que chegaram à short list – “todas elas farão parte da minha vida para sempre” –, Margaret Busby descreveu Shuggie Bain como “um retrato comovente, imersivo e matizado de um universo social fechado e dos seus habitantes e respectivos valores”. Considerando-o “um livro difícil de esquecer”, a presidente do júri – que integrou ainda os escritores Lee Child, Sameer Rahim, Lemn Sissay e Emily Wilson – descreveu ainda a obra de estreia de Douglas Stuart como “uma história de partir o coração que conta o amor incondicional entre Agnes Bain, a mergulhar no alcoolismo por causa das duras circunstâncias que a vida lhe impôs, e o seu filho mais novo”.

Avisando que “esta não é um a história onde toda a gente vive feliz para sempre”, Busby também lhe encontra “esperança” e assegura que ninguém sairá incólume da sua leitura.

Mas não faltaram editores a quem a história de Douglas Stuart não terá causado particular impressão, e daí que o escritor tenha feito questão de agradecer à chancela Picador, do grupo MacMillan, que aceitou o seu romance depois de nada menos do que 30 recusas.

Radicado desde os 24 anos em Nova Iorque, onde trabalha na área da moda e vive com o seu marido, o curador de arte moderna Michael Cary, o novo prémio Booker, actualmente com 43 anos, admitiu que o sucesso desta estreia tardia lhe poderá eventualmente permitir realizar o desejo que tem há muito de se dedicar a tempo inteiro à escrita.

E diz que o facto de escrever em Nova Iorque o ajudou a olhar com mais clareza para a Glasgow que o seu livro descreve, mas também o levou a “apaixonar-se de novo” por essa cidade de “optimistas relutantes”. 

“Cresci em Glasgow nos anos 80 e foram tempos muito duros: a minha mãe era alcoólica e morreu quando eu era criança, e durante 30 anos carreguei essa perda, esse amor, esse sofrimento, e quis contar o que foi crescer como gay naquela cidade”, disse ainda o autor, acrescentando que, embora Shuggie Bain seja uma obra de ficção, “escrevê-la foi muito curativo”. E se “há no livro violência e dureza”, espera que “também haja humor, porque é esse o espírito de Glasgow”.

Convidados ilustres

A cerimónia do prémio começou pouco depois das 19h00, mas o suspense foi mantido durante quase uma hora, durante a qual intervieram por teleconferência os seis finalistas, de cujas obras foram lidos pequenos excertos, e apareceram ainda no ecrã montado na Round House alguns convidados especiais, a começar pelo autor anglo-japonês Kazuo Ishiguro, vencedor do Booker em 1989 com Os Despojos do Dia e premiado em 2017 com o Nobel da Literatura. “No Booker temos primeiro a long list, depois a short list e é tudo muito público, ao passo que no Nobel é tudo secreto”, comparou. “Às 11 da manhã, quando te preparas para lavar a cabeça, ligam-te a dizer que recebeste o Nobel e tens uma multidão de jornalistas à porta.”

A sessão contou ainda com a duquesa da Cornualha, Camilla Parker Bowles, que tem uma reputação de leitora compulsiva e, ao longo da história do Booker, apresentou mais do que uma vez o prémio. Lamentando que a covid-19 esteja a impedir-nos de ir ao cinema e ao teatro, a concertos ou exposições, regozijou-se porque “pelo menos podemos ler, e enquanto assim for podemos viajar, explorar, escapar, rir e chorar, e enfrentar os mistérios da vida”.

A lista de convidados ilustres inclui ainda o ex-presidente americano Barack Obama, que começou por dizer que sabia quão difícil era escrever um livro, mas logo deixou claro que não estava a comparar-se com “os escritores que conseguem criar grandes obras de ficção”. E concluiu: “Embora seja precisamente isso que os meus adversários chamam aos meus discursos”.

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