O Diogo, o tabaco e a disfunção eréctil

Se a tentação existe, sempre presente ao virar da esquina, na rua, na paragem do autocarro, ao sair de casa e ao chegar a casa, a vontade está há muito refém da principal, e desde sempre a única razão, para o Diogo não voltar a fumar: a disfunção eréctil. Hoje é Dia Mundial do Não Fumador.

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Mathew MacQuarrie/Unsplash

Por uma questão de confidencialidade, Diogo é um nome fictício. É um amigo meu. Mas se o nome é fictício, o problema é bem real. O Diogo deixou de fumar há dez anos. Como muitos ex-fumadores, ainda hoje, e não obstante os dez anos passados, o Diogo pensa em fumar todos os dias. Todos os dias, sem excepção.

Não por lhe apetecer. Quer dizer, às vezes apetece, mas a maior parte do tempo é um misto de saudade dispersa no tempo, saudade do prazer, o cheiro adocicado, o vício de mãos ainda hoje por entreter, a pausa, os dois dedos de conversa com um amigo, a cerveja sempre ao lado.

O vício de mãos, ainda hoje por entreter, é também o vício de boca, ainda hoje entretida com não menos de três pastilhas elásticas de cada vez, ao melhor estilo de um treinador de futebol. O pai do Diogo, do alto dos seus 60 anos, já o avisou, “Não há pior vício do que a pastilha elástica!”, mas, como o pior vício ainda é o tabaco, o Diogo continua a mascar. E a mascar. E a mascar. De caminho, já perdeu dois pré-molares, prontamente substituídos por coroas, mas, como o pior mesmo é voltar a fumar, o Diogo continua a mascar.

Não por uma questão de força de vontade. Se a tentação existe, sempre presente ao virar da esquina, na rua, na paragem do autocarro, ao sair de casa e ao chegar a casa, a vontade está há muito refém da principal, e desde sempre a única razão, para o Diogo não voltar a fumar: a disfunção eréctil.

A verdade? A verdade era o Diogo ainda não ter 30 anos e não conseguir. Não conseguir encher os corpos cavernosos de sangue, não conseguir manter uma erecção, não conseguir levar uma relação sexual até ao fim. Incapaz de dar e ter prazer, incapaz de amar na verdadeira acepção da palavra, o Diogo vivia uma vida sem sentido e Freud tinha mesmo razão: sem a pulsão sexual, sem prazer, não sabemos muito bem o porquê do nosso ser. 

Sem vergonha, o Diogo nunca se escusou a partilhar com os amigos e à mesa do café, para quem quisesse ouvir, o seu problema. Independentemente das gargalhadas em resposta. Independentemente das bocas dos amigos, dos comentários jocosos no trabalho ou em casa dos pais, principalmente do pai.

Independentemente dos comentários das amigas da namorada. Dos pais da namorada, não só do pai, mas também da mãe.

Independentemente da namorada que já não era namorada nem estava para ouvir sempre a mesma conversa mais o exemplo do Diogo para todos os fumadores, ergo, o tabaco como causa para a disfunção eréctil ou como a vida sexual e sentimental dos dois rapidamente encontrou o fim de onde nunca mais saiu.

Poder-se-ia escrever todo um compêndio de anedotas em português. Para não dizer insultos. O Diogo nunca se importou. Porquê? Porque o seu problema era real: ainda jovem e a sofrer de um problema associado ao envelhecimento. 

Aterosclerose, disse-lhe o médico. Deposição de placas de ateroma, ou gordura, cálcio e outras substâncias nas artérias. Por causa do tabaco, acrescentou o médico, ou não fosse este responsável pelo endurecimento das artérias mais a contracção dos vasos sanguíneos, os quais — e por sua vez — acabam por impedir a circulação das gorduras, fatalmente acumuladas em grandes placas de ateroma à entrada dos corpos cavernosos do Diogo.

Afinal, o Diogo tinha razão. A solução? Deixar de fumar, e o Diogo deixou. Prontamente. Não queria continuar a viver o mesmo, a viver assim, sem vida, sem sabor nem amor e, ao invés, uma pilha de complexos no seu lugar. No caso do Diogo, o fim da disfunção eréctil foi uma questão de semanas. Parar de fumar foi o suficiente. O suficiente para refazer a vida e voltar a amar.

Entretanto passaram dez anos. Como muitos ex-fumadores, o Diogo pensa em fumar todos os dias. Nesses momentos, basta-lhe pensar na disfunção eréctil. Tudo isto, uma vida comprometida por inteiro por causa de um cigarro? Não vale a pena. E a vontade passa-lhe logo.