Um ciclo de actuações e DJ sets para pôr o dedo nas feridas das salas de concertos

O Ferro Bar, no Porto, recebe a partir desta terça-feira mais de 20 artistas da cidade. Uma “chamada de atenção” para as dificuldades do circuito musical.

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Em Outubro, manifestações em vários pontos do país chamaram a atenção para as perdas no sector da música ao vivo Paulo Pimenta

Mais de 20 artistas do Porto actuam, a partir desta terça-feira, no Ferro Bar, no âmbito do Pré-Juízo Final, uma “chamada de atenção” para as dificuldades que vivem as salas de programação musical.

O Pré-Juízo Final, que inclui “ocupações artísticas e musicais” e envolve “mais de 20 artistas da cidade”, é, de acordo com a organização, “uma acção essencialmente de cariz social e de chamada de atenção para a situação que se vive, e visa defender e destacar a importância social e cultural de artistas de música e das salas de programação musical”.

Devido à pandemia da covid-19, recorda a organização, “diversas salas, discotecas e bares já fecharam e muitas outras correm sérios riscos de fechar também muito em breve.

“Assim, programadores, artistas, designers, DJ, técnicos, produtores, cozinheiros, entre outros, juntam-se para as sessões do Pré-Juízo Final, com a missão de manter viva a actividade cultural da cidade do Porto”, lê-se na página oficial da iniciativa, na rede social Facebook.

A primeira sessão, esta terça-feira, inclui DJ sets de Xico Ferrão, Rodas, ZZML e Frágil. Para quarta-feira, está marcado um DJ set dos Ornatos Violeta e uma atuação de Lorr No; na quinta-feira, actuam Ócio e Poesia Cócó, e para sexta-feira estão marcadas actuações dos DJ Faroha, Phephz e Clita.

Na próxima semana passarão pelo Ferro Bar Lonzdale's Fantasy e A Pacheco & Nomi (dia 24), Palmiers, Alexandre Soares e Karpet & Méziguel (dia 25), Solar Corona Elektrische Maschine, Tilinhos, Saraiva e Nuno Forte (dia 26), e DJ Farofa, DJ Tilulu, DJ Ugho, DJ Lola, Punga e H_Frasa (dia 27).

A organização do Pré-Juízo Final pede ao público “que adira aos donativos voluntários conscientes, sendo que parte do valor total angariado será para entregar à União Audiovisual [grupo de apoio a trabalhadores da Cultura, criado no âmbito da crise gerada pela pandemia da covid-19 no sector] e o restante será distribuído pelos artistas e outros profissionais envolvidos neste evento”.

No local haverá também um ponto de recolha da União Audiovisual, “que tem feito um trabalho valiosíssimo a recolher alimentos doados e distribuí-los por profissionais do sector do espetáculo que se encontram em sérias dificuldades, não tendo dinheiro sequer para garantir a sua alimentação e das suas famílias”.

A organização garante que as sessões “seguirão escrupulosamente as normas da Direcção-Geral de Saúde, respeitando as boas práticas vigentes”.

As portas do Ferro Bar abrem às 16h e as actuações começam pelas 17h30, terminando às 22h.

O Ferro Bar é uma das 27 salas de programação musical de todo o país integradas na recém-criada associação Circuito, que no dia 17 de Outubro promoveu um protesto sob o lema “ao vivo ou morto”.

Nesse dia, a Circuito apelou à comunidade artística e ao público a juntarem-se “numa fila/manifestação para sensibilizar para a importância destes locais para a cena musical nacional”.

Em Lisboa, a “fila” formou-se à porta do Lux-Frágil; no Porto, à porta do Maus Hábitos; em Viseu, junto ao Carmo 81; e, em Évora, na Sociedade Harmonia Eborense.

Além do Ferro Bar, as salas integradas no Circuito incluem o Hot Clube de Portugal, a Casa Independente, o Musicbox, e o RCA Club (em Lisboa), o Salão Brazil (Coimbra), o Hard Club, o Barracuda e o Passos Manuel (Porto), o Bang Venue (Torres Vedras), a Casa- Oficina os Infantes (Beja) e a Alma Danada (Almada).

Estas 27 salas, segundo a Circuito, promoveram no ano passado “7537 actuações musicais, envolvendo milhares de autores, intérpretes e outros profissionais do espectáculo, para uma audiência de 1.178.847 pessoas”.

“A sobrevivência destas salas está em risco iminente”, alerta a associação, apelando “à implementação urgente de medidas de apoio e estratégias públicas de proteção e valorização deste sector”.

A associação defende “a criação de um programa imediato de investimento nas salas do Circuito, válido até ser autorizada a retoma sustentável da actividade e que garanta a compensação do prejuízo mensal provocado pelos custos fixos de exploração das salas, os quais não foram suspensos ou comparticipados por outros programas”.

Além disso, pretende que sejam também criados “programas de apoio à criação, programação e circulação artística, envolvendo a rede do Circuito com o objetivo de reactivar a actividade do ecossistema da música ao vivo nacional, impulsionando a recuperação do Circuito”.

Salvaguardando que não defende a reabertura destes espaços, “até se decidir que estão reunidas as condições necessárias para retomar a actividade”, a Circuito defende “a abertura urgente do discurso político à valorização e reconhecimento formal e definitivo de todas as práticas artísticas, culturais e de socialização, como forma de combate à secundarização e estigmatização das práticas e dos agentes culturais enquanto actores sociais”.

A associação salienta que “as salas e clubes de programação de música distinguem-se por serem espaços de música e cultura com uma programação própria”, reforçando que “actividade cultural é a razão de ser destes espaços e a programação de música está no centro da sua linha de actuação”, sendo a “venda de álcool, alimentação ou outros subsidiária e dependente da actividade cultural”.

A Câmara Municipal de Lisboa anunciou a 11 de novembro que irá apoiar as salas e clubes com programação musical, no valor de 600 mil euros, no âmbito do plano de apoio às empresas, emprego, famílias e associações, criado na sequência do agravamento do contágio da covid-19 e do impacto económico e social das novas restrições à circulação.

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