Miguel Castanho

Estão a criar-se tantas expectativas com as vacinas da covid-19 que as pessoas podem sentir-se defraudadas

Os anúncios de altíssimas taxas de sucesso feitos por comunicado de imprensa transmitem uma falsa ideia de optimismo, e podem alimentar os movimentos anti-vacinação, diz o investigador Miguel Castanho.

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Vacinas da Pfizer, da Moderna, da Rússia - sabe-se pouco ou quase nada sobre elas, só se ouviu dizer que têm taxas de sucesso astronómicas, na casa dos 90%. O cientista Miguel Castanho, do Instituto de Medicina Molecular da Faculdade de Medicina da Universidade de Lisboa, explica porque é que isto é até perigoso.

Que comentário faz a estes anúncios sucessivos sobre as vacinas para a covid-19 em desenvolvimento, tudo só através de comunicados de imprensa?
Primeiro foi a Pfizer-BioNtech, depois vieram logo os responsáveis da vacina russa dizer que a deles tinha 92% de eficácia, agora a Moderna a dizer que tem 95% e tudo isto sem dados. Não é que estejam todos a acelerar o processo de demonstração da eficácia da sua vacina. Estão simplesmente a precipitar-se a dar alguma informação, mas ainda sem resultados finais, sem terem todos os dados, o que do ponto de vista científico não tem consistência. 

É mais um ambiente de competição comercial, em que não se revelam dados concretos. Do ponto de vista do mundo científico, esperar-se-ia algum recato, que se olhasse para os resultados finais - porque não importam só os resultados, é também como foram obtidos, como se planearam os estudos e quais os critérios usados. Isso também conta e tem de ser alvo de escrutínio. 

Mas então os ensaios clínicos terão sido mal concebidos? 
Não, não. O que estou a dizer é que provavelmente os critérios de exigência foram mais aligeirados. Aquilo que seria a precisão e robustez estatística dos resultados poderia eventualmente exigir mais dados e, abdicando dessa robustez estatística, podem obter-se resultados mais rapidamente. Menos testes chegam para alcançar o ponto que se pretendia. É isso que estou a dizer, e é algo que já vem sendo discutido na comunidade científica.

Este ambiente não é propício a uma análise muito correcta, porque não há dados. Mas começa-se a lançar na população a ideia de que tudo está a correr espectacularmente bem e que tudo será fácil com as vacinas, tudo será rápido, e não será assim. Enfim, por muito boa que venha a ser a vacina para a covid-19, nunca será fácil, devido à quantidade de gente que será preciso vacinar para ter um efeito prático. Portanto, este ambiente tem um efeito pernicioso e que não tem nada a ver com ciência.

E a ideia de que há aqui uma corrida ao lucro pode alimentar os movimentos antivacinas?
Pode. Pode ser usado como indício de que a corrida à vacina é na verdade uma corrida comercial e não pela saúde pública. Mas também se criam expectativas muito elevadas que poderão não ser cumpridas por alguma razão: tanto pode ser porque a eficácia não é tão elevada como se esperava, ou porque afinal há problemas de segurança em alguns grupos ou subgrupos populacionais ou porque a distribuição afinal é problemática ou porque nas condições de armazenamento há uma degradação da vacina. Pode haver um problema qualquer em algum dos pontos críticos para além do desenvolvimento da vacina, e haver um defraudar de expectativas. Os movimentos antivacinação alimentam-se disso, da frustração das pessoas.

Mas a frustração pode ser só fruto das promessas, das ilusões que foram criadas. Até pode ser criada uma vacina que é boa, dentro do que é humanamente possível alcançar. Só que está a ser criada uma expectativa imensa, e pode não corresponder. E nessa altura, em vez de um enorme sucesso, vai ser percepcionada como um falhanço, ou um mini-sucesso. Isso não será bom, em circunstâncias nenhumas.

Por isso se devia ter algum recato agora. Depois de termos os resultados e sabermos o que são as vacinas, quer do ponto de vista da eficácia, quer da segurança, quer das condições de distribuição, aí sim, aí já temos muita matéria para falar, e aí teremos de ter uma discussão colectiva sobre como vamos lidar com a pandemia. Por ora, como diz o povo, é muita parra e pouca uva.

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