Torne-se perito Opinião

O problema não está na ausência de comunicação

Sem um investimento numa abordagem de Comunicação de Risco em Saúde não se poderá afirmar que tudo foi feito para travar a pandemia covid-19 em Portugal.

Ao contrário do que tem sido amplamente afirmado o problema da DGS e do Governo na gestão da pandemia da covid-19 não está na ausência de comunicação.

Uma gestão eficaz de uma nova doença infecciosa numa fase em que ainda não existe nenhum tratamento ou vacinação depende, em grande medida, do comportamento ajustado de prevenção da população. Infelizmente, na gestão da pandemia VIH/SIDA não foi possível desenvolver nem um tratamento eficaz nem uma vacina. A sua propagação foi travada graças a medidas educativas e comportamentais focadas na gestão do risco de infeção e de desenvolvimento da doença.

Para que as pessoas se envolvam voluntariamente em ações de prevenção, elas precisam, em primeiro lugar, de estar cientes do risco que correm. E sim, para isso a Comunicação de Risco em Saúde é importante.

Contudo, não devemos confundir os meios com os fins.

A comunicação é um meio para um fim. Tanto a DGS como o Governo têm comunicado. Não creio que o problema seja a ausência de comunicação, antes a incapacidade, que ambos têm demonstrado, de compreender o fim a que esta comunicação se destina.

A Comunicação de Risco em Saúde não se destina a manter a confiança da população, nem nas autoridades de saúde nem no governo. A Comunicação de Risco em Saúde precisa que essa confiança exista, mas esse não é o seu fim.

A Comunicação de Risco em Saúde não se destina a informar a população sobre o aumento do número de casos ou de camas disponíveis para internamentos. A Comunicação de Risco em Saúde precisa de saber partilhar esses números de forma credível, mas esse não é o seu fim.

A Comunicação de Risco em Saúde não se destina a explicar a bondade das medidas restritivas que são impostas. A Comunicação de Risco em Saúde precisa de ser clara sobre essas medidas, mas esse não é o seu fim.

Para que serve então Comunicação de Risco em Saúde? A Comunicação de Risco em Saúde serve para que as pessoas possam conhecer, perceber e gerir o risco de dano à saúde, tanto individual como colectivamente. Dito de outra forma, serve para ajudar as pessoas a mudar comportamentos e legitima-se eticamente na salvaguarda da proteção da saúde pública e, consequentemente, da sociedade tanto no plano social como económico. 

Em Comunicação de Risco em Saúde sabemos que a mensagem certa, no momento certo, pela pessoa ou entidade certa, pode salvar vidas. Infelizmente, na hora certa faltou recorrentemente a mensagem certa, pelas pessoas e entidades certas.

Não basta ter um plano de comunicação. Como diz o pugilista Mike Tyson, temos um plano até levar com o primeiro soco na cara. É preciso adaptar. Infelizmente, há quem leve socos e não perceba a necessidade de corrigir e adaptar. A comunicação numa situação de emergência não pode ser feita da mesma forma que se faz quando não há uma emergência. Durante uma emergência as pessoas não reagem todas da mesma forma. Muitas não acreditam no que está a acontecer, outras ficam assustadas e perdem a esperança de que seja possível fazer algo.

Mais do que listar fatos, sobre números, as pessoas precisam de ser capazes de identificar quem está em maior risco e de saber como agir. Quem é responsável pela comunicação precisa de ser capaz de identificar as mensagens mais importantes e definir estratégias adequadas para as transmitir de forma a orientar a mudança de comportamento. É preciso comunicar ‘com’ e não ‘para’ as pessoas.

Para tal, é fundamental conhecer a(s) audiência(s). Saber como é que as pessoas estão a ser afetadas e como recebem e compreendem a comunicação. As necessidades de comunicação também variam com o evoluir da situação de emergência. As preocupações e expectativas das pessoas são diferentes e isso não pode ser ignorado.

A título de exemplo, várias pessoas manifestaram incompreensão sobre o encerramento de restaurantes e não de supermercados. Parece não estar clara a noção de que ao comer, sem a contenção das gotículas expelidas pela boca que a máscara propicia, o risco de transmissão do vírus aumenta significativamente; enquanto no supermercado se pode deslocar com máscara e com a boca fechada, o que reduz grandemente o risco de contágio, salvaguardando a higienização das mãos.

Tem sido dito que as pessoas podem sair, desde que o façam em segurança. O que entendem as pessoas sobre “sair em segurança"? Como apoiar e reforçar esse entendimento? Como assegurar que as pessoas têm os recursos necessários para que a mudança comportamental ocorra? Estas são questões que se colocam a quem é responsável por Comunicação de Risco em Saúde.

A intuição humana é baseada em narrativas, histórias e percepção limitada da realidade e não na visão global (números). A ciência cognitiva demonstra que produzimos generalizações a partir de episódios pontuais, raciocinamos a partir de estereótipos, tendemos a procurar evidências que confirmem as nossas crenças e a ignorar evidências que as contrariam, e temos excesso de confiança no nosso conhecimento e comportamento ético. Para compensar esses enviesamentos cognitivos precisamos de um contexto onde haja liberdade de expressão, abertura ao debate e à crítica, valorização da análise lógica e da verificação de factos. O problema não é apenas a ignorância é também a ilusão do conhecimento.

As pessoas avaliam a comunicação em função do que é dito, de quem o diz e de quais os canais utilizados para o transmitir. As pessoas também avaliam os comportamentos de quem comunica e qualquer incongruência entre a mensagem transmitida e as suas ações têm sempre graves consequências. O problema da comunicação é, muitas vezes, a ilusão de que aconteceu.

O problema é que sem um investimento numa abordagem de Comunicação de Risco em Saúde, para os fins a que esta se destina, com o envolvimento das comunidades não se poderá afirmar que tudo foi feito para travar a pandemia covid-19 em Portugal.

O autor escreve segundo o novo acordo ortográfico

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