Nagorno-Karabakh: antes de entregar as aldeias ao Azerbaijão, arménios queimam as suas casas

O acordo de cessar-fogo assinado esta semana entre Arménia e Azerbaijão prevê a transferência de território habitado por arménios para o controlo azerbaijano.

Foto
Um homem assiste ao incêndio da sua casa numa das aldeias que irá passar para controlo azerbaijano Reuters

O último acto de Arsen antes de abandonar a aldeia pela qual lutou nas últimas semanas foi acender um fogo na sala de jantar da casa da irmã que em minutos consumiu o edifício. Tal como ele, outros habitantes das localidades do Nagorno-Karabakh que durante mais de 20 anos estiveram sob controlo arménio e que, dentro de alguns dias, passam para o Azerbaijão fizeram o mesmo com as suas casas.

“Amanhã de manhã já vão estar aqui. Que se lixem. Que vivam aqui, se conseguirem”, disse Arsen, citado pela reportagem da Reuters em Charektar.

O acordo que pôs fim aos combates entre a Arménia e o Azerbaijão, mediado pela Rússia, prevê a transferência para o Governo de Bacu de territórios na raia do Nagorno-Karabakh que desde os anos 1990 foram controlados pela Arménia. Os termos do entendimento foram encarados como uma vitória para o Azerbaijão e motivaram protestos na Arménia, que os viu como uma capitulação.

Até dia 20, a Arménia tem de entregar as regiões de Kalbajar e Aghdam, e a de Lachin até ao fim do mês.

A hora também é de fazer balanços. A Arménia diz ter perdido mais de 2300 soldados ao longo de seis semanas de combates. Já o Azerbaijão não comunicou as baixas entre as suas fileiras, contabilizando 93 mortes de civis. Os dois países têm trocado corpos de soldados mortos nos seus territórios nos últimos dias. O Governo russo, que tem mediado os esforços diplomáticos, calcula que os combates deixaram mais de quatro mil mortos e oito mil feridos, bem como dezenas de milhares de refugiados.

Os dois países disputam o controlo do enclave do Nagorno-Karabakh, internacionalmente reconhecido como parte do território azerbaijano, mas controlado por autoridades pró-arménias desde o fim da guerra civil entre ambos, em 1994. Desde então o conflito é retomado de forma esporádica, mas os combates das últimas semanas foram os mais violentos em quase 30 anos. O agravamento da tensão entre as duas antigas repúblicas soviéticas renovou os receios de um novo conflito no Cáucaso, com potencial de atrair outros países. Para além da Rússia, também a Turquia, aliada de Bacu, tem interesses na região.

Depois de ter conseguido mediar um acordo de cessar-fogo, a Rússia está agora a tentar garantir o envio de uma missão das Nações Unidas no terreno para fins humanitários. “A ONU está muito interessada em coordenar as suas acções com os nossos soldados de pacificação, com os nossos guardas fronteiriços e com aqueles que vão resolver problemas humanitários”, disse o ministro dos Negócios Estrangeiros russo, Serguei Lavrov.

A missão russa de manutenção de paz chegou a Stepanakert, a principal cidade do enclave, na sexta-feira e inclui cerca de dois mil soldados. Entre as suas tarefas está a supervisão do cumprimento das tréguas por ambos os lados.