Recolher obrigatório às 13h, dia 1: “Já estamos no poço e vamos lá ficar”

Na manhã deste sábado, os lisboetas saíram à rua com aparente normalidade. Empresários da restauração, da hotelaria e alojamento local, de bares e discotecas, e do turismo, manifestaram-se no Rossio e pediram mais apoios ao Estado. Por volta das 14h30, já para lá do recolher obrigatório, a baixa da cidade serenou.

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Nuno Ferreira Santos

Quando 2020 começou, as perspectivas de Carlos Prada não podiam ser mais animadoras. A agência de eventos que criara há dois anos estava a crescer, a sua Roda de Samba ia actuar no Rock in Rio e já tinha eventos marcados no Algarve. Entretanto, a pandemia virou tudo do avesso: “Passámos de uma expansão tremenda para um encerramento. É surreal.” A 021 Agency encerrou no mês passado. Foram dispensados 15 funcionários — alguns trabalhadores-estudantes.

O jovem de 27 anos, assim como as pessoas que empregava, são vítimas colaterais da pandemia e foi nessa condição que Carlos decidiu aparecer à manifestação que juntou, segundo o Comando Metropolitano da PSP de Lisboa, entre 700 e 800 pessoas na praça do Rossio, em Lisboa. “Vim à manifestação por uma questão de empatia para com todos os meus colegas que estão a passar pelo mesmo e para se fazer ouvir uma voz. Estamos a ser ignorados.”

À semelhança de outros relatos que foram sendo contados ao longo da hora e meia que durou a manifestação, Carlos diz que resistiu enquanto pôde: “Ainda tive apoio por ser sócio-gerente, mas, de qualquer forma, não chegou para pagar os impostos que vinham de trás. Fiz eventos que não cheguei a receber e tive de entregar o IVA porque os facturei. Fomos sangrando todos os meses, até que chegou a uma altura em que não havia nenhuma forma de fazer eventos porque as regras estão sempre a mudar”, lamenta. 

Sem conseguir “reinventar-se” no ramo dos eventos, sem noite e sem eventos corporativos, não restou outra hipótese senão fechar: “Tinha uma roda de samba e só ali estavam sete músicos brasileiros a quem dava trabalho todas as semanas. Era um dinheiro ao fim do mês que lhes pagava a renda. Alguns estão a trabalhar em lavagens de carros”, conta. 

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Carlos Prada, de 27 anos, teve de encerrar a sua agência de eventos

Para Carlos, apesar de não pôr em causa a gravidade da covid-19, as medidas mais musculadas impostas pelo Governo, como o recolher obrigatório aos fins-de-semana a partir das 13h, são “excessivas”. “Vocês viram a aflição destas pessoas. São muitas famílias. E é também a destruição de sonhos de jovens”. Uma aflição sintetizada nas palavras de uma faixa empunhada por manifestantes: “A fome também mata.”

Empresários da restauração, da hotelaria e alojamento local, de bares e discotecas, e do turismo foram subindo ao palco improvisado num camião, instalado em plena praça. Cá em baixo, muitos trabalhadores vestidos com jalecas, com casacos ou camisolas que mostram o nome dos seus estabelecimentos, vão ouvindo o manifesto, dirigido ao Governo, que é lido por um dos promotores da manifestação: pedem que o IVA seja reduzido, a isenção de pagamento da TSU até 31 de Dezembro de 2021, o layoff para sócios-gerentes, apoio ao pagamento das rendas, apoios a fundo perdido, reforço das linhas de crédito, prolongamento de apoios aos trabalhadores independentes. 

“Somos nós que aguentamos este país, que contribuímos para a economia deste país”, diz Ljubomir Stanisic, chef de cozinha, um dos líderes da manifestação. Mais tarde, em declarações aos jornalistas, frisou que o protesto não queria “entrar em politiquices” — André Ventura, líder do Chega, esteve presente.

“Só estamos a apelar à paz neste país. São 43 mil pessoas que estão na rua. Somos obrigados a despedir pessoas e não queremos”, diz. 
Questionado sobre o apoio anunciado pelo Governo para minimizar os danos nos restaurantes que estarão fechados depois das 13h neste e no próximo fim-de-semana (que corresponde a 20% da quebra de facturação registada nesses dois fins-de-semana, tendo em conta a média da receita das empresas nos 44 fins-de-semana desde o início do ano e o final de Outubro), o chef  considera-os insuficientes: “Desde Janeiro até Outubro vamos fazer um rácio de 20% do que facturámos. Não podemos esquecer que fomos limitados a 50% de capacidade. E dessas 44 semanas, 11 delas estivemos fechados”, nota. 

Depois dos confrontos entre manifestantes e polícia, na sexta-feira, no Porto, os pedidos de “violência não” eram recorrentes, assim como o de manter o distanciamento social de dois metros e o uso da máscara. Ainda assim, foram vários os insultos ouvidos ao Governo, à classe política e também aos jornalistas. 

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A polícia esteve sempre presente, com vários agentes de trânsito, mas também do corpo de intervenção. Não foi precisa a intervenção, tirando um momento em que um dos promotores da manifestação lamentou ao microfone o facto de o Observador ter publicado uma notícia dando conta da presença de 200 manifestantes, quando esse número, com o passar do tempo, já tinha sido ultrapassado. Alguns manifestantes avançaram para junto de dois jornalistas, mas a PSP interveio, afastando-os em breves minutos. “Estamos aqui pela paz”, gritaram depois outros manifestantes. 

Uma manhã de vida normal 

Neste primeiro dia de recolher obrigatório às 13h — medida decretada pelo Governo para evitar ajuntamentos familiares que, segundo as autoridades de saúde, têm contribuído para o aumento de casos de infecção pelo SARS-CoV-2 — poderia pensar-se numa corrida às lojas ou supermercados, já que à tarde, seriam muitos os estabelecimentos encerrados. No entanto, pela freguesia de Benfica, a vida seguiu com aparente normalidade e sem grandes enchentes. 

Por volta das 10h30, no Centro Colombo, além da já rotineira fila para entrar na Primark, tudo fluía sem grandes confusões. Rogério e Rita Rodrigues mantiveram a rotina de todos os sábados: sair de casa em Odivelas para ir fazer as compras ao Continente do centro comercial. “Vimos sempre a este porque não temos de estar na fila”, diz Rogério, que não encontrou confusão no interior. 

Já de compras aviadas saía Carla Ribeiro, uma administrativa de contabilidade de Alverca, que aproveitou a viagem para abastecer a despensa. Ela até contava que fosse encontrar mais gente e alguma espera, mas não. “Entrei logo.” Dali, seguiria para casa para cumprir o recolher obrigatório. Um mal necessário, diz. “Se interfere com a minha vida? Vai interferir é com a minha saúde, se andarmos todos juntos.”

No centro da freguesia de Benfica, os cabeleireiros e barbeiros vão atendendo clientes, mesmo que o penteado seja para passear em casa. As pastelarias vão servindo pequenos-almoços, as mercearias aviando os fregueses. À porta do Mercado de Benfica, mesmo com os pingos grossos que escorrem dos guarda-chuvas, forma-se fila. Arlindo e Ana Sampaio também quiseram manter a rotina, apesar das restrições. 

Ao sábado, é costume saírem da Moita, onde vivem, para ir dar uma volta ao mercado. “É para passear”, diz a auxiliar de geriatria. Depois do passeio, o almoço é sempre por ali. Hoje, mais cedo, devido ao encerramento dos restaurantes às 13h — uma medida que Arlindo não entende muito bem: “Estão a prejudicar pessoas que vivem exclusivamente daquilo.”

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No comércio, apesar de se ver muita gente nas ruas, os proprietários vão apontando uma quebra na clientela. A chuva não terá ajudado, é certo. Mas, por ali, a expectativa também não era de grande corrida às lojas.

O olhar de desolação sai, sobretudo, de quem desespera por servir clientes nos restaurantes. De braços cruzados à espera que o trabalho acelere como noutros tempos, Alexandre Aires não augura dias melhores.

Durante o primeiro estado de emergência teve a casa fechada e os sete empregados em layoff. Desde então, para sustentar a empresa, já teve de recorrer a empréstimos para fazer face às despesas. Alexandre ri-se de nervoso: “Quebras muito grandes? Mais de 75%.” Ainda não dispensou ninguém, mas a partir de Janeiro isso será uma inevitabilidade. “Já estamos no poço e vamos lá ficar.” 

Por volta das 12h20, tinha servido apenas um almoço. “Estamos prontos desde as 10h para servir, mas é claro que as pessoas não vêm almoçar a essa hora”, diz o gerente da cervejaria Violino. Ainda fez um apelo na Internet para que os fregueses encomendassem, mas não teve grande adesão. Depois das 13h, era para fechar e, face ao cenário deste sábado, o mais certo é nem sequer abrir as portas na próxima semana. 

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Na Tradicional de Benfica, porém, faz-se fila para ir buscar o almoço. Anabela Graça não se pode queixar do movimento: o cozido já foi, mas há ainda pitéu de chocos e grelhados. “O take-away tem corrido bem.”

Na sala, estavam cinco mesas ocupadas. Eram quase 12h30 e ainda chegavam pessoas para almoçar. “Eu acho que as pessoas ainda não se aperceberam bem que às 13h têm de sair. Estão a chegar já um bocadinho em cima da hora”, repara a proprietária deste restaurante, que nunca parou de servir durante a pandemia. 

Apesar de o negócio estar mais vocacionado para o take-away, Anabela gostava que a hora de recolher obrigatório tivesse sido mais atrasada, para dar, pelo menos, a possibilidade de se almoçar fora. “Não acho que os restaurantes tivessem de ter esta medida tão drástica porque acho que aqui é onde há menos perigo. As pessoas já estão mais espaçadas, seis por mesa. Pelo menos até às 15h poderiam estar abertos.”

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Cidade serena

Num salto até à baixa de Lisboa, já depois das 14h, com a manifestação dispersa, mas já para lá do horário de recolher obrigatório, aquele é um território vazio. Grades corridas abaixo, muitas lojas forradas a jornais, à espera de novo dono — casos há em que será já uma consequência desta crise sem fim à vista. O Rei do Bacalhau ainda tem as portas abertas, já depois do recolher obrigatório. “Mas para quê mantê-las abertas se não há pessoas?”, ouvimos do outro lado. 

Depois de uma angústia partilhada por centenas que perderam o emprego ou não sabem como pagar salários, a cidade serenou. Como o senhor alemão, surdo, que resiste num dos bancos da Praça da Figueira. E que, vagarosamente, puxa de um cigarro e de um monóculo para mirar no silêncio o Castelo de São Jorge. 

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