A mãe imperfeita Carmen Garcia tem um livro que é Uma Lição de Amor

Começou, há mais de dois anos, a pôr a nu as imperfeições da maternidade nas redes sociais. Mas o que Carmen Garcia mais quer é lutar pela “normalização da diferença” – e, para isso, lança este sábado Uma Lição de Amor.

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Carmen Garcia começou o blogue A Mãe Imperfeita no início de 2018 Miguel Manso

Quando era criança, Carmen Garcia recorda-se de ler de forma compulsiva — “chegava a levar dois livros da [colecção] Uma Aventura: um para ler de manhã e outro à tarde”. Ao ponto de ser repreendida pela mãe, que a apanhou uma vez a ler às quatro e tal da manhã, debaixo dos cobertores, com uma lanterna.

Mas, o medo do desemprego levou-a a virar costas à literatura e a entrar na enfermagem. “Não estou nada arrependida dessa decisão: trabalhei como enfermeira 11 anos nos cuidados intensivos, cinco nos coronários e o restante nos polivalentes” — o que explica o facto de, por vezes, usar as suas plataformas para passar informação sobre a actual pandemia. É que, reforça, sem covid-19 “nós já trabalhávamos muitas vezes fora do rácio de segurança”.

A dedicação à saúde não a fez, no entanto, esquecer o bichinho das letras. E quando deu por si de repouso absoluto, com uma gravidez não planeada, ainda a encaixar o facto de ter um filho surdo — “soube que estava grávida do João dois dias depois de saber que o Pedro nunca iria ouvir” —, teve tempo para observar que “nas redes sociais só existiam vidas perfeitas”. “Senti que era preciso alguém ir contra a corrente; que alguém mostrasse o reverso da medalha, e comecei a escrever o que achava que só seria lido pelas minhas amigas e pela minha irmã.”

Actualmente, a página de Facebook tem mais de 90 mil seguidores e é comum a caixa de comentários das publicações somarem centenas de utilizadores. “A coisa fugiu um bocado ao meu controlo”, constata, ao mesmo tempo que foi aumentando o chamado engagement, tão cobiçado pelas marcas que a contactam para que faça publicidade. “De início recusava; agora, aceito coisas de que gosto e o dinheiro uso para ajudar.” E mesmo quando gosta de um determinado produto, não aceita que lhe exijam uma mudança de linguagem: “Há uns tempos uma marca (que uso) queria que falasse sobre ela sem escrever asneiras, o que me levou a concluir que não me queriam a mim, mas a outra pessoa qualquer”, brinca.

Aliás, uma coisa que Carmen Garcia deixa claro é não ponderar mudar o registo. “No dia em que eu achar que este registo não funciona, apago a página.” Nem as mensagens de ódio, que também recebe às centenas, a desmotivam. “De início magoavam, a injustiça magoa; hoje, por vezes, irritam-me, mas a maioria das vezes nem isso”, sublinha.

Uma lição de amor

No meio desta aventura, as letras foram sendo uma presença cada vez mais constante e, do blogue e da página de Facebook, acabaram por nascer livros, nascidos do mesmo projecto, como Os 10 Mandamentos de Uma Mãe Imperfeita, ou em forma de romance, com A Anos-Luz, além de escrever crónicas com regularidade para o PÚBLICO, no âmbito da iniciativa Pares do Ímpar e, a partir deste domingo, passará a sair na edição impressa no caderno P2.

Mas provavelmente o que lhe será mais querido entre todos é o que apresenta, este sábado, na Casa das Letras - Bed & Books, em Cabrela, Montemor-o-Novo: Uma Lição de Amor (Ego Editora), que reflecte a luta que decidiu abraçar, da “normalização da diferença”. “É preciso falar disto, pôr a diferença na rua”, diz.

“No dia em que fiquei a saber que o Pedro era surdo, depois de uma noite inteira a chorar”, recorda ao PÚBLICO, “fiz-lhe a promessa de que iria fazer tudo o que podia por ele e por crianças como ele”. É deste compromisso que nasce este livro, dirigido aos mais novos e com uma parte dos lucros a ser dirigida à associação Crescer Bem, sobre um menino que, ao chegar à sua nova escola, constata que mais ninguém tem uma cadeira de rodas como ele. Depois, a seu tempo, descobre, “com a ajuda da Leonor, que rima com Amor”, que todos os meninos são diferentes à sua maneira.

“Não se trata de vitimizar, mas é preciso ter consciência de que há muitas coisas que o Pedro [de 4 anos] nunca irá fazer, mas que há outras em que pode conseguir se tiver desde cedo o apoio necessário”, considera, defendendo que o ideal seria a inexistência de quotas, como acontece, por exemplo, no acesso ao ensino superior. “Eu não quero que ele fique com uma vaga só porque é surdo; quero que ele tenha condições para disputar a mesma vaga como outro miúdo qualquer.”

O filho mais velho de Carmen Garcia tem 4 anos e, desde Março de 2019, tem um implante coclear. “Não tem uma oralidade de uma criança de quatro anos”, informa – afinal, só começou a falar após o implante –, “mas diz tudo e canta tudo”. No fundo, “é uma criança muito feliz”.

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