O essencial é invisível aos olhos

Queremos continuar a mobilizar os psicólogos para as mudanças que contribuam para vencermos estes desafios sociais.

Quando nasci, poucos dias antes do 25 de Abril de 1974, o mundo tinha muitos defeitos, alguns como os de hoje, outros bem mais graves, outros que felizmente já resolvemos. Recordo-me da minha mãe contar-me o que o meu pai lhe disse, naquela manhã da revolução, que tinha esperança, que assim talvez eu pudesse viver com melhores condições do que aquelas que eles tinham tido na sua infância. Assim tem sido até hoje. Assim o é com os meus filhos. Todavia, hoje, os problemas com que eles e a sua geração terão que lidar não lhes permitem olhar para o seu futuro com a mesma esperança. Temos um planeta queixoso, uma economia instável, e tudo é cada vez menos certo e garantido.

No Portugal de hoje, ao contrário do que aconteceu comigo, são hoje demasiados os que demoram muito tempo para iniciar a sua carreira profissional. E já nem de segurança, quanto mais de vínculo laboral vale a pena falar. As crises de desenvolvimento são cada vez menos exclusivas da adolescência, e encontram outros momentos da vida como alturas sensíveis para as pessoas. Constituir família é definitivamente sentido como uma opção de risco e, também por isso, temos um país cada vez mais envelhecido. Paradoxalmente, ou talvez não, tem sido dada cada vez maior a atenção ao equilíbrio entre o trabalho e a vida pessoal. No mundo atual, é imperativo apostar na prevenção e no desenvolvimento das pessoas, promovendo o bem-estar, de modo a garantir que estas estão nas melhores condições para com o seu desempenho contribuir para a produtividade das suas organizações e do país. De facto, a sociedade começa a reconhecer, ainda que timidamente, que a promoção da saúde e do bem-estar deve ser uma prioridade, embora seja ainda pouco visível a atenção dada aos anónimos e estigmatizados migrantes ou aos sem abrigo. 

A educação é reconhecidamente essencial para melhorar os níveis de vida no país, mas ainda tarda em reduzir significativamente as iniquidades, nomeadamente daqueles mais vulneráveis, e não se constitui como um verdadeiro elevador social. A justiça continua sem aproveitar devidamente os recursos de que o país dispõe para melhorar a reintegração e reduzir a reincidência, bem como para prevenir a fraude ou apoiar os magistrados na sua acção, tanto tecnicamente como na redução dos riscos psicossociais a que estão sujeitos. A pobreza e a exclusão continuam a ser uma realidade para mais de 20% dos portugueses e um determinante para problemas de saúde mental. A atenção ao nosso planeta, como a nossa casa, que começava a ganhar mais força, foi em grande parte relegada para segundo plano com a crise pandémica.

Enquanto cidadão, mas particularmente enquanto psicólogo, julgo ter um imperativo cívico e ético de contribuir para inverter este cenário e estou convicto que os psicólogos e as psicólogas têm um papel específico nestes desafios sociais, um papel cada vez mais reconhecido é certo, mas ainda com necessidade de poder cumprir com as necessidades do país e do mundo global onde este se insere.

A psicologia tem uma visibilidade crescente, bem como um reconhecimento social cada vez maior. Desde 2018 temos o Dia Nacional do Psicólogo, e são cada vez mais as áreas onde a psicologia se vai assumindo como central. Cada vez mais há uma percepção da importância estratégica para o bem-estar das suas populações do contributo da psicologia e dos psicólogos. A sua presença tem crescido na maioria dos contextos da sua actuação e nestes 4 anos o reconhecimento do nosso trabalho é justo e notório face ao esforço, dedicação e sentido de missão de muitos psicólogos e psicólogas. Temos cada vez mais serviços autónomos de psicologia no SNS e um serviço de aconselhamento psicológico no SNS24, exemplar para todo o mundo. O número de psicólogos nas escolas portuguesas mais do que duplicou, passando de cerca de 700 há 5 anos para 1700, assim como a formação dos magistrados passou a receber, desde este ano, contributos da OPP. Depois de campanhas como “Encontre uma Saída”, onde também georreferenciámos mais de 6000 psicólogos/as, aproximando-nos de quem mais de nós precisa; depois de “Escola Saudavelmente”, com 161 escolas reconhecidas pelas suas práticas de promoção da saúde psicológica e do sucesso educativo; depois de “Locais de Trabalho Saudáveis”, fazendo do tema da prevenção dos riscos psicossociais e da promoção da saúde mental nos locais de trabalho um assunto na agenda mediática e crescentemente uma preocupação das pessoas em geral e dos empregadores em particular; depois de lançarmos uma “promoção do envelhecimento saudável e com bem-estar” com a atribuição do selo Comunidades Pró-Envelhecimento a cerca de 100 autarquias distinguindo-as pelas suas boas práticas; depois de, num país com 30 cursos de psicologia, acederem ao ano profissional júnior, através do seu primeiro trabalho, cerca de 1100 psicólogos e psicólogas por ano, muitos deles usufruindo do apoio dos serviços da própria Ordem para o desenvolvimento das suas competências de empregabilidade, ainda antes de serem membros, numa acção solidária de todos os seus membros. Aliás, numa atitude partilhada com as iniciativas de apoio à transição de carreira e reintegração profissional que a OPP tem disponibilizado aos seus membros que o solicitem.

Tudo isto tem sido feito como execução de uma estratégia persistente de promoção do papel do psicólogo, de modo a que se melhore o acesso dos cidadãos aos serviços prestados pelos nossos profissionais. Para além de determinantes sociais, como a pobreza, são a falta de literacia, problema para o qual tanto a OPP tem contribuído para a sua melhoria (como tem sido exemplo a acção que tem tido durante esta pandemia), e a acessibilidade aos serviços de saúde mental que são essenciais para a redução dos principais problemas neste âmbito, como os de depressão e de ansiedade.

Temos defendido insistente e persistentemente que o suposto estigma que paira sobre pedir a ajuda de um psicólogo desaparece com o acesso disponível e livre de obstáculos. Acontece cada vez mais, como por exemplo nas nossas escolas, comunidades e autarquias. Vivemos um momento em que muitas pessoas tomaram mais contacto consigo mesmo, com os seus sentimentos e emoções, que ganharam consciência da necessidade que têm de ter um controlo que não têm em tempos de incerteza. É como se, neste momento, as pessoas no global e muitos decisores em específico, percebessem que muitas vezes o essencial é invisível aos olhos. Queremos continuar a mobilizar os psicólogos para as mudanças que contribuam para vencermos estes desafios e para que a frase do meu pai continue a poder ser vaticínio para os seus netos. Este, é também o meu testemunho.