5. O futuro: entre o oráculo e a distopia

O que precisamos é de alguma capacidade de prognose e de cenarização prospetiva que nos ajude a responder à questão: o que ambicionamos ser em 2030 ou em 2040? O que teremos de fazer para lá chegar?

Provavelmente nunca se terá falado tanto de futuro como nos tempos mais recentes. Diríamos mesmo que existe uma obsessão social em antecipar o futuro. Estranho, porque tudo aconselharia a sermos comedidos com essas representações: a angústia e insegurança perante a incerteza, a ilusão de que tudo muda, sem se saber muito bem para onde, a radicalização do presente pela eterna reconstrução do passado, seriam razões mais do que suficientes para sermos menos temerários nessa antecipação. Podemos ainda argumentar que a ilusão do futuro possa ser mais evidenciada pelas populações mais jovens em comparação com os seniores, dos menos informados face aos mais informados, dos mais ambiciosos face aos mais resignados. Contudo, fica ainda muito por explicar.

O fascínio pelas tecnologias poderá esclarecer um pouco mais essa obsessão. O ritmo das inovações e da sua obsolescência alimentam o sentimento de que o presente é cada vez mais efémero e as expectativas tendem a centrar-se sobre o que vem a seguir. Mesmo assim, sobra ainda uma parte significativa das populações que não são enquadráveis, ou estarão mesmo excluídas, desse contexto cultural que a revolução tecnológica despertou. O argumento não nos satisfaz.

Arrisco uma hipótese explicativa: a ideia de progresso – e a orientação para o futuro que lhe é inerente – está impregnada nas culturas ocidentais e continua a fazer o seu percurso na difusão à escala global dos seus princípios.

Dois séculos e meio nos separam das primeiras formulações dessa ideia que traduz a passagem progressiva da visão providencialista – “o futuro a Deus pertence” – para a conceção progressista – “o futuro está nas nossas mãos” – dessa marcha ininterrupta, mas nem sempre confirmada, do aperfeiçoamento da humanidade.

O século XIX europeu está cheio de “profetas”, “visionários” e “cientistas” que anunciam e enunciam os postulados de trajetórias de um futuro desenhado por uma convicção teleológica da evolução faseada das sociedades. Outros, por reação ao capitalismo industrial dominante, recuperam e constroem utopias, umas idealizando “o mundo que nós perdemos”, outras anunciando sociedades perfeitas construídas sobre os escombros do capitalismo.

Porém, a primeira metade do século XX, a era das catástrofes de Hobsbawm, remeteu para o silêncio essas antevisões idílicas, perante as atrocidades de duas guerras mundiais, uma recessão económica profunda e repleta de memórias da indignidade humana e o lastro negro despejado por regimes totalitários, um pouco por todo o mundo. A fé no progresso ruiu, a Humanidade pagou um preço muito elevado por acreditar que as utopias eram concretizáveis. A sanha purificadora dos nacionalismos, a propalada superioridade moral dos comunismos e a mobilização militar da ciência para processos de destruição massiva traduziram-se num retrocesso humanitário sem equivalente no passado.

Após um período de recuperação e de paz que o pós-guerra proporcionou, voltámos a recuperar, nas décadas mais recentes, aqueles postulados do progresso, reinventando novos futuros e novas esperanças para a Humanidade. Regressámos ao tempo dos profetas, mas as utopias cederam o lugar às distopias, às visões pessimistas do futuro onde o totalitarismo subjuga a democracia, a tecnologia elimina a liberdade individual e o desastre ambiental põe em causa a vida na Terra. À conceção idealista e otimista do progresso contrapõe-se a visão escatológica das suas consequências.

Na história da cultura portuguesa, nomeadamente na sua literatura, é difícil encontrar um esboço do que seja uma utopia. Eventualmente, a Ilha dos Amores nos Lusíadas aproxima-se dessa categoria. Encontramos, em alternativa, algumas distopias recentes: o Ensaio sobre a Cegueira de Saramago ou O Último Europeu 2284 de Miguel Real. O pendor decadentista – traço marcante da nossa cultura – evidencia a nossa fragilidade sofrida e a incapacidade de imaginar um futuro que nos questione sem nos apoucar.

Dificilmente alcançamos para além do imediato. Mas os futuristas pululam, particularmente na esfera política e dos media. A ilusão do futuro é vendida em cada ideia “inovadora” que é lançada na opinião pública, a cada programa eleitoral como qualquer produto que se pretende lançar no mercado ou mesmo a cada projeto para que se pretende obter financiamento, público ou privado. Por outras palavras, a ideia de futuro é cada vez mais um objeto de marketing e a ficção passou a confundir-se com a realidade virtual em que vivemos.

Depois temos os oráculos. Em tempos de crise lançam-se previsões, confrontam-se estimativas, e os mais distintos economistas da nossa praça dão-se ao espetáculo de vaticinar o que nenhum modelo econométrico consegue projetar. Mais valia que se reunissem em casas de apostas e dessem alguma consequência aos seus exercícios.

Entre nós, abundam as pitonisas, mas falta uma visão de longo prazo que seja mobilizadora. O exercício do Eng.º Costa Silva foi meritório e continua a ser uma boa base de trabalho, desde que se reúna um bom grupo de peritos que sem pressas construa as estratégias ajustadas aos recursos que dispomos e às oportunidades que saibamos criar. Mandem os “powerpoint” para Bruxelas e negoceiem o que houver para reivindicar. Em simultâneo, é necessário sistematizar medidas e identificar metas, mobilizar os diferentes setores da sociedade para a sua concretização, incorporar os contributos válidos que, entretanto, foram apresentados e construir um compromisso que reduza os efeitos da alternância partidária.

O que precisamos é de alguma capacidade de prognose e de cenarização prospetiva que nos ajude a responder à questão: o que ambicionamos ser em 2030 ou em 2040? O que teremos de fazer para lá chegar? Talvez assim nos possamos libertar dos oráculos e das distopias, construindo um propósito e definindo um rumo.

Quinto de uma série de dez textos de David Justino que publicaremos semanalmente, sempre às quintas-feiras, sobre os desafios que enfrentamos em várias áreas, em Portugal e no Mundo. Próximo artigo: “A Sociedade do Conhecimento”

O autor escreve segundo o novo acordo ortográfico