Biden e Kamala

Como sempre, nos EUA também se joga o futuro do planeta e para esse futuro os discursos de Biden e Kamala constituem uma esperança.

Estranho o silêncio de Trump nos últimos dias; os silêncios assustam-me nestas matérias, porque em regra pré-anunciam trovoadas. Poder-se-á dizer, em contrapartida, que tem batalhões na rua a gritar por ele, mas verdade seja dita isso não condiz com o feitio do homem.

Todos sabemos que se avizinham guerras judiciais, porque Trump não sabe perder e até pode ser que, numa ou outra contagem, possa vir a obter ganho de causa, porque numa eleição pode sempre haver uma irregularidade, em especial naqueles Estados onde o avanço inicial de Trump em votos que entraram diretamente na urna foram depois anulados por uma torrente de votos por correspondência em Biden. Todavia a verdade é que as votações, quer em números absolutos, quer para o Colégio Eleitoral – o que interessa - deixam Trump bem atrás de Biden, sem qualquer hipótese da reviravolta por ele tão confabulada.

É certo que Trump procurou controlar como ninguém as instâncias judiciais, mas se estas se mostrarem parciais correm o óbvio risco de deslegitimação, do não reconhecimento popular e quiçá do início de uma grave crise institucional e porventura de uma verdadeira guerra civil (não em termos tradicionais, mas uma guerra civil larvar, com alguns episódios à moda de guerrilha).

Bannon, o ideólogo trumpista, já veio falar de forma clara e despudorada de um “partido de guerra”, alegando mesmo, referindo-se à linha mais radical preconizada por Elisabeth Warren e Ocasio Cortez, que em breve “as forças socialistas” irão marchar pelas ruas de Washington. Pelos vistos o cansaço da Administração Trump não era, infelizmente, tão evidente e por isso pergunto-me como é que quase metade dos EUA votou nele.

Não me venham com a “América profunda”, porque por um lado esta não votou na sua totalidade em Trump e votos houve que não saíram da dita “América profunda”.

Trump não saiu nem sairá de cena: vai querer amaldiçoar o sistema eleitoral (por sinal uma estranha manta de retalhos) que o derrotou, rentabilizar o Senado que continuará a controlar e o Supremo Tribunal, onde é maioritário, e sobretudo mobilizar o seu crescimento em votos. O ponto coloca-se aí, perante a legião fanática que o segue. Teremos um conflito inevitável e volto a enfatizar que não estou a falar de uma guerra civil convencional, mas de uma guerra nas ruas e nas instituições: nada será poupado.

Biden ganhou as eleições presidenciais, mas infelizmente ainda não ganhou a América: terá de fazer um esforço hercúleo, com Kamala, e com a parcela da sociedade que os alcandorou ao poder, para desfazer mitos e narrativas que ainda calam fundo em muitos americanos.

O resultado desta eleição sugere que está em curso uma recomposição da paisagem política, em que o tradicional confronto direita/esquerda tende a ser substituído, nos EUA, por aqueles que aderem sem reservas à ideia de uma aldeia global e apoiam o multiculturalismo e aqueles que veem na mundialização uma ameaça e uma fonte de insegurança económica, social e cultural.

Trump perdeu, mas cresceu e essa nuvem negra não é fácil de desfazer, como não se auguram para os EUA tempos fáceis. Dito isto, Biden é sereno e tenaz, Kamala é idealista, inteligente e muito dura de roer.

Biden deverá procurar constituir um governo verdadeiramente centrista, deixando a Kamala as suas bandeiras de sempre, que defendeu com brilhantismo e sem extremismos. Ambos têm de se preparar para um longo combate em que terão que dar prova de uma enorme resiliência.

Trump e a sua legião não lhes darão tréguas: com os EUA praticamente divididos ao meio, o presidente ora eleito e a sua vice-presidente nunca poderão deixar de olhar em redor. Terão sempre sombras. Ou me engano muito ou ambos começarão por passar por uma campanha difamatória, que aliás já tinha sido movida contra Biden. O resto virá depois.

Esperemos que a Europa não se apresente titubeante nas várias políticas de cooperação transatlântica e aproveite esta oportunidade que emerge da eleição de Biden.

Como sempre, nos EUA também se joga o futuro do planeta e para esse futuro os discursos de Biden e Kamala constituem uma esperança.

A autora escreve segundo o novo acordo ortográfico