O governo criou um confinamento com os defeitos e sem as vantagens

Tem de se insistir em que a resposta do governo de António Costa é tardia e puramente reactiva. E pior do que chegar tarde, é o carácter errático e incongruente das soluções adoptadas.

1. Oxalá se confirmem as melhores novas sobre a vacina para a covid-19 ontem anunciada. Neste quadro de agravamento substancial da pandemia, a perspectiva de uma vacina eficaz é a única forma de dar às pessoas, às empresas e às instituições um módico de esperança e de optimismo. Essa notícia, porém, não constitui uma solução imediata para pandemia, cujo número de vítimas mortais e de infectados não cessa de aumentar. Não podemos, por isso, descansar.

2. A situação actual e a evolução previsível são muito sérias e graves. Tanto mais que a resposta do Governo português tem sido errática e sofrível, não suscitando nem confiança nem mobilização. Quanto mais tardia, mais tíbia e menos efectiva for a resposta do Governo, maiores são as chances de a situação se deteriorar e de o sistema de saúde claudicar. O amadorismo e as falhas são tais que só tendo uma consciência aguda deles se pode corrigir o rumo e enveredar por um trilho que possa inverter o crescimento da pandemia entre nós.

3. Antes do mais, tem de se insistir em que a resposta do governo de António Costa é tardia e puramente reactiva. O atraso do governo não surpreende. Desde o início, António Costa foi sempre relutante e hesitante, tentou adiar a tomada de medidas e contrariar uma resposta mais robusta. Há uma linha constante na “gestão Costa” da pandemia: actuar tardiamente. Foi assim logo em Março, em que, aliás, resistiu publicamente ao estado de emergência. Não se notou o atraso, porque houve um confinamento generalizado espontâneo que precedeu as medidas governativas. Mas foi assim – e dessa vez, notou-se bem – em Junho e Julho com os surtos na área da grande Lisboa, que tanto prejudicaram a época turística. António Costa e o Governo estiveram largas semanas em simples negação. E voltou a ser assim agora. Basta olhar para a actuação da Irlanda, da Alemanha, da Áustria ou até da Grécia, entre vários outros, para ver que estamos a responder tarde e a más horas, quando tudo já era evidente para todos menos para as autoridades portuguesas.

4. Pior do que chegar tarde, é o carácter errático e incongruente das soluções adoptadas, das medidas concretas e da sua comunicação. A conferência de imprensa do primeiro-ministro, a 31 de Outubro, para anunciar medidas foi confusa, nada esclarecedora e longa. Não se percebeu se haveria estado de emergência e negou-se terminantemente qualquer recolher obrigatório. Ficou no ar a hipótese inacreditável de um confinamento ao retardador (1-15 de Dezembro), que, de resto, não parece excluído. Tal confinamento teria o propósito infantil de salvar o Natal a escassos 10 dias do mesmo; ainda assim atente-se na contradição: se é necessário um novo confinamento, que sentido faz deixá-lo para as vésperas do Natal? A 2 de Novembro, Costa garantiu a pés juntos que afinal haveria estado de emergência, mas nunca recolher obrigatório. Agora, numa comunicação feita à meia-noite, sobre as medidas que dariam execução ao estado de emergência, anunciou um recolher obrigatório especialmente exigente. Mais uma vez, numa longa conferência de imprensa, pesada e enfadonha, que, horas depois, seria de novo corrigida pelo seu gabinete (pelo menos, ao nível das excepções às restrições). Como é possível fazer uma apresentação destas a desoras, quando se afigura óbvio que a efectiva comunicação com os cidadãos é uma parte essencial do sucesso? É quase caso para dizer que Costa quis “implementar” o estado de emergência pela calada da noite.

5. Se se entrar no conteúdo das provisões, o recolher obrigatório aos fins-de-semana é a mais relevante. E também ela suscita apreensão. Com o início fixado às 13h, é evidente que o grande propósito da medida é impedir a actividade dos restaurantes, que não poderão servir nem almoços nem jantares. Se é esse o resultado óbvio da fixação da hora 13, tem de se perguntar: não seria mais leal e mais honesto proibir de todo a abertura dos restaurantes? O que pode levar o Governo a este jogo de “esconde-esconde” em que na prática obriga os restaurantes a fechar, dizendo que eles podem abrir? Não será justamente para se esquivar a ter o ónus de pagar qualquer compensação? E, por outro lado, o que leva o Governo a concentrar todo o movimento do pequeno comércio e dos centros comerciais numas poucas horas da manhã? Em termos de oportunidades de contágio, não poderá afinal ser contraproducente? Para muitos comerciantes, não será maior o custo de uma abertura intermitente do que o encerramento? Mais uma vez, o Governo diz uma coisa, mas, na verdade, parece querer outra. Já agora, diante da actual situação do país, em que 70% da população é abrangida por estas medidas, não seria mais simples e mais eficaz estendê-las a todo o território ou, ao menos, estendê-las à totalidade das regiões mais afectadas?

6.  Muito mais haveria a dizer, mas ainda merece a pena dar nota de um sinal inquietante: o modo como António Costa está a lidar com esta declaração do estado de emergência. Primeiro, faltou inexplicavelmente ao debate parlamentar em que está em causa um dos actos constitucionais de maior gravidade. Mas não lhe mingua o tempo para se desmultiplicar em entrevistas televisivas por tudo o que é canal. Segundo, fala como se o prolongamento sucessivo dos estados de excepção fosse um dado adquirido, num tique à “Sanchez-Podemos” que nenhum dos partidos que deram o seu aval à emergência deve aceitar acriticamente. Tudo tem de ser visto e revisto a cada quinze dias.  

7. Olhando para a actual resposta do Governo, fica-se com a sensação de que, tirando o caso (para mim) intocável das escolas básicas, o Governo construiu uma solução em que temos todas as desvantagens e todos os prejuízos de um confinamento total, sem termos, no plano sanitário, nenhum dos seus possíveis proveitos e vantagens.

SIM. Joe Biden. Teve o melhor resultado de sempre e trouxe a primeira mulher para a vice-presidência. A sua experiência e moderação criam a expectativa fundada de promoverá a reconciliação interna e um novo alento externo.

NÃO. Donald Trump. São muitos os danos e os estragos do seu legado político, que, de resto, não se sabe se terminou. Mas um dos maiores é decerto a recusa de aceitar com fair-play a sua derrota. É uma atitude inconcebível em democracia.