Um Ford, não um Lincoln

Tal com Ford, Biden é um homem simples. Por isso pode mesmo ser a pessoa certa para ajudar a sarar as feridas da América.

“Um Ford, não um Lincoln”. Começa assim o terceiro volume das memórias de Henry Kissinger, intitulado Years of Renewal. E continua do seguinte modo: Ford “era um homem nada dado a complicações, a quem couberam em sorte algumas das tarefas mais complicadas da história norte-americana. (...) viu-se encarregado de sarar as feridas de uma década na qual a guerra do Vietname e o Watergate tinham conduzido às mais graves divisões internas desde a Guerra Civil. (...) Gerald Ford devolveu calma e confiança a uma nação a transbordar de problemas, ultrapassou uma série de crises internacionais e criou as condições para um período de renovação na sociedade americana.”

Não é possível fazer um trocadilho com o nome de Joe Biden, muito menos recorrendo a marcas famosas de carros norte-americanos, mas o exemplo de Ford assenta-lhe que nem uma luva. Ele não é um político excepcional, é um homem normal, com uma história de vida feita de superação de tragédias e dificuldades, como a de muitas pessoas nos EUA, e por isso mesmo tem tudo para ser o Presidente capaz de sarar as feridas de uma América radicalmente polarizada.

Que fique claro. Como já escrevi aqui, as divisões no país são profundas, dão-se a vários níveis - económico, social, cultural, identitário -, e estarão lá todas nos próximos (muitos) anos. É quase infantil pensar que um indivíduo pode mudar fenómenos sociais profundos. Mas este homem comum, com a experiência e a serenidade dos 78 anos de vida (faz no próximo dia 20) pode ajudar muito. E já tivemos até agora vários sinais promissores.

Durante a campanha eleitoral repetiu várias vezes que não existe uma América Azul e outra Vermelha, só existem os Estados Unidos da América. Disse várias vezes que, se eleito, seria o Presidente de todos os americanos. O discurso de vitória não foi propriamente uma bela peça literária, nem de oratória, mas falou um ser humano que se percebe que sente do fundo do seu coração amor pelo seu país e que se preocupa com todos os seus concidadãos, independentemente da raça, credo, género, idade e nacionalidade de origem. No dia seguinte a ser declarado vencedor, criou uma nova conta no Twitter com esta frase, significativa, em destaque: “We stand together as one America. We will rise stronger then we were before”.

Mas, como o próprio também referiu, a tarefa árdua começa agora. E ela tem de começar por dar voz e dignidade aos muitos milhões que votaram em Donald Trump. Não, eles não são deploráveis. São na sua esmagadora maioria pessoas decentes, trabalhadoras, dignas, patriotas, que só querem cuidar da sua família, e viram as suas vidas destruídas pelos efeitos da globalização, dos acordos de comércio livre, da transferência de empresas e empregos para o exterior, do colapso financeiro de 2007 e subsequente “grande recessão”, de cerca de 30 anos de estagnação de rendimentos, de crescentes desigualdades e, em muitos casos, desemprego de longa duração com a humilhação (para os americanos) de terem de viver de subsídios do estado. Em rigor, são hoje uma grande parte das classes médias americanas, do Ohio, da Pensilvânia, do Wisconsin, do Michigan, das cinturas industriais, dos campos, de muitos outros estados, condados, cidades e localidades. 

Joe Biden está bem consciente disto. Ou, pelo menos olhando para o programa político com que se apresentou a estas eleições, assim parece. Promete ajudar a fixar empresas e empregos nos EUA com incentivos fiscais e políticas como o “compre americano”; pretende aumentar os rendimentos mais baixos e médios, a começar pela subida do ordenado mínimo; compromete-se a rever partes da reforma fiscal de 2017, aumentando os impostos sobre as grandes empresas de 21% para 28%, assim como para os mais ricos, ao mesmo tempo que quer “injetar dinheiro nos pequenos negócios”; propõe um amplo programa de reconstrução de infraestruturas, como estradas, autoestradas, pontes, portos, aeroportos, caminhos-de-ferro; quer perdoar os empréstimos para pagamento de propinas aos estudantes; e ainda diz que vai aumentar os reformados e criar uma espécie de Obamacare 2.0. Só não ficou muito claro como vai pagar tudo isto, sobretudo se tivemos em conta que o país tem um défice e uma dívida muito elevados.

Mas o Presidente-eleito quer ir mais longe. Sem deixar ninguém para trás, pretende colocar o país na liderança da economia do futuro, ou seja, na transição energética, na digital, na robotizacão, na inteligência artificial, etc. Na área do ambiente, tem o que alguns chamaram “o mais ambicioso programa alguma vez apresentado por um candidato presidencial norte-americano”. Inclui um investimento de 400 biliões para pesquisa em energias renováveis; regulamentação mais rígida para a indústria automóvel em matéria de poluição; a construção de 500,000 áreas de carregamento para veículos eléctricos. E, como é sabido, anunciou que no próprio dia 20 de janeiro de 2021 regressa ao Acordo de Paris.

A propósito de Acordo de Paris, uma última nota sobre a dimensão externa. Joe Biden prometeu que os Estados Unidos voltarão a liderar o mundo. Diz ele que o farão pela “força do exemplo” (o que só servirá de alguma coisa se for acompanhada pelo “exemplo da força”, sempre que necessário) e que serão os campeões do multilateralismo, das organizações e regimes internacionais, das “alianças permanentes”, do comércio livre (eventualmente sem guerras de tarifas). Tudo certo. Mas tem que ter cuidado. Os excessos do internacionalismo liberal do pós-Guerra Fria levaram à deriva estratégica do país, a um declínio relativo e à fadiga dos norte-americanos com o mundo.

Tal como Ford, Biden é um homem simples. Por isso pode mesmo ser a pessoa certa para ajudar a sarar as feridas da América.