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Eles fartaram-se da seca de Cabo Verde e começaram a cultivar sem solo e água

Adilson Matias e Ederlindo Ribeiro começaram um projecto de forragem hidropónica com carácter social — que deu origem a uma empresa. Querem produzir em grande escala, sem depender da (escassa) chuva de Cabo Verde. Mas para isso precisam de mais produtores.

As secas têm fustigado Cabo Verde e a produção de pasto não é constante durante todo o ano. Uma lacuna que começa a ser preenchida por dois jovens com a produção hidropónica, em que o cultivo se desenvolve através de uma solução à base de água e nutrientes, não necessitando do solo como fonte de nutrientes.

A ideia é de Adilson Matias, formado em Biologia, e Ederlindo Ribeiro, licenciado em Relações Internacionais, que começaram em 2016 com o projecto de forragem hidropónica, integrado com pecuária leiteira, que tinha carácter social, destinando-se apenas a ensinar os pequenos agricultores e criadores a produzirem o pasto. 

Mas, com o tempo, passou a ser empresarial, tendo os jovens criado a empresa Carvalho Agropec, que produz também plantas ornamentais para venda, o que ajuda a sustentar o projecto do pasto, que continua ser oferecido aos criadores. 

“O projecto de pasto hidropónico é destinado a países que não conseguem produzir pasto durante todo o ano e onde há défice pecuário. Em Cabo Verde, temos chuva durante dois ou três meses, não temos produção durante o ano inteiro, trabalhamos basicamente com palha seca e temos uma produção pecuária deficitária”, disse à Lusa Adilson Matias, 30 anos, um dos sócios da empresa.

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Adilson Matias, formado em Biologia, trabalha no projeto que começou com Ederlindo Ribeiro (ausente da fotografia) em 2016. Lusa/Fernando de Pina

Depois de trabalhar durante cinco anos no Brasil analisando água, solo e ar, Adilson Matias, formando em Biologia na vertente ambiental, trouxe a ideia para Cabo Verde, onde constatou ainda deficiência na parte sanitária, em que muitos animais ainda comem muito papelão e outros lixos. “Essa é uma parte que queremos resolver, juntamente com a parte de nutrição animal”, afirmou o sócio da empresa, que produz cerca de 200 quilos de pasto por dia na ilha do Fogo e a mesma quantidade por semana na cidade da Praia.

A produção acontece em casa de Adilson Matias, depois é transferida para uma estrutura que está a ser montada em São Martinho Pequeno, mas neste momento decorre também numa estufa nas traseiras da Universidade de Cabo Verde (Uni-CV), juntamente com as plantas ornamentais, pelo menos para os próximos dois meses para maior divulgação da ideia e atrair mais criadores. 

“A parte mais trabalhosa que temos hoje é a divulgação e sensibilização das pessoas, para lhes dizer que, com chuva ou sem chuva, conseguimos produzir pasto hidropónico durante todo o ano, podes secá-lo e tens alimentação animal durante todo o ano”, prosseguiu o empresário.

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Estufa onde Adilson Matias e Ederlindo Ribeiro começaram, em 2016. Lusa/Fernando de Pina

Para Adilson Matias, o projecto vai ainda evitar que os criadores deixem os seus animais à solta nos campos e nas cidades, com o risco de comerem todo o tipo de detritos, bem como vender a carne ao desbarato, por falta de pasto. Neste momento, a Carvalho Agropec é um de três produtores de pasto hidropónico no país, os outros são no Fogo e em São Vicente, com Adilson Matias a avançar que a ideia é transmitir o conhecimento e dar resiliência aos pequenos criadores.

“A ideia não é sermos o único produtor de pasto, porque se formos o único produtor não conseguiremos resolver o problema a nível nacional. Mas se temos dez, 20 pessoas a produzir pasto em grande escala e outros pequenos produtores para a sua subsistência, conseguiremos produzir em grande escala em que a pecuária não terá falta de alimentos, chovendo ou não”, referiu.

E investindo no pasto como base, Adilson Matias disse que será uma parte da economia que visa não só melhorar a qualidade alimentar dos animais, como também dos humanos. Uma das maiores vantagens da produção do pasto hidropónico é a reutilização da água, disse o empresário, tornando-se ainda mais importante em Cabo Verde, arquipélago com um clima seco e onde a água evapora com maior facilidade.

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Na entrevista à Lusa, o sócio promotor da iniciativa deixou bem claro que não é contra a produção de pasto em campo aberto, mas sim dos seus problemas em comparação com a produção de hidropónicos, em que é possível ainda economizar terreno.

Depois de deitar as sementes em bandejas cobertas com plástico ou malha, o posto cresce a meia-luz e fico pronto entre sete e dez dias, dependendo do clima, segundo Adilson Matias, para depois ser oferecido, sendo que neste momento o foco são três criadores de São Lourenço dos Órgãos, concelho do interior da ilha de Santiago, de onde os pais são naturais.

“Assomada já é mais desenvolvido a nível da pecuária, mas gostaria que São Lourenço chegasse ao nível de Assomada no desenvolvimento da pecuária”, manifestou Matias, que no futuro almeja ver 20 grandes produtores com capacidade de produzir mais de 25 toneladas por dia e muitos pequenos produtores em Cabo Verde.

“A ideia é criar uma cadeia de valor na pecuária, sobretudo de leite e ovos”, salientou o sócio da empresa Carvalho Agropec, para quem é uma forma de o país diminuir a importação de leite, com aumento da produção desse “produto simples”, que é o pasto.

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