Vencer com “o mundo ao contrário”

A ausência de estratégia para um país com as características de Portugal pode ter um “efeito perverso”. Sem saber o papel que queremos ocupar, podemos ser mais prejudicados do que beneficiados pelas relações comerciais que são estabelecidas.

A pandemia que assola o mundo inteiro fez abater enormes dificuldades sobre todos os países. Fomos todos atingidos, ainda que nem todos o tenham sido da mesma forma.

O FMI apontou de maneira muito clara três problemas originados pela pandemia que afetam, com diferentes intensidades, as diferentes regiões do globo. Primeiro, a crise sanitária em si e os problemas de saúde subsequentes; em segundo, o impacto sobre os setores do turismo e aviação nos países onde estas atividades económicas têm maior peso; e, por último, a reduzida capacidade de reação por constrangimentos orçamentais. Não é fácil analisar o “mundo ao contrário”, como disse Kristalina Georgieva, directora-geral do FMI.

Portugal está claramente exposto à crise do turismo e aviação. Por outro lado, também tem pouca margem orçamental (face às economias europeias) e o embate da segunda vaga no nosso país assume contornos cada vez mais preocupantes.

A adaptação do mundo aos novos desafios erguidos pela covid-19 está em curso. É um repto que se junta aos conflitos tecnológico e comercial entre os EUA e China, às alterações climáticas e ao empobrecimento de muitas zonas do globo (provocado ou acelerado pelo choque pandémico).

Apesar das desvantagens que afetam Portugal no contexto internacional, o nosso país tem vantagens estruturais que melhoram a resiliência e recuperação dos diferentes efeitos provocados pela pandemia. Se, por um lado, a integração na União Europeia oferece resiliência, o potencial da nossa recuperação reside no facto de sermos um dos países mais globalizados do mundo (15.º lugar no ranking do Swiss Economic Institute em 2017).

Neste contexto, Portugal tem a vantagem de integrar um projeto europeu com uma moeda forte e com uma resposta financeira para a crise económica. Ainda que fosse desejável que esta resposta financeira fosse mais célere, a certeza da sua aplicação futura é um fator de estabilidade social. Quanto à moeda, o Euro é um alicerce para resistir à crise económica. Muitos outros países com economias enfraquecidas vêm as suas moedas desvalorizarem face ao “dólar americano”, aumentando ainda mais a dívida externa. Com a acrescida dificuldade dos EUA muito provavelmente virem a apostar em ter maior emissão da sua moeda para circular na economia doméstica e menos fora das suas fronteiras.

Num contexto tão difícil, e com um país intrinsecamente ligado à globalização, é fundamental perceber as vantagens e dificuldades de Portugal contextualizado no mundo, para que se defina com mais solidez o posicionamento estratégico do país. Não só porque Portugal é favorável a um mundo globalizado, mas essencialmente porque muitos dos desafios internos do nosso país encontram resposta fora das fronteiras nacionais.

Seriam inúmeros os exemplos que podiam ser dados. As exportações e o IDE equilibram as finanças públicas (as exportações representaram cerca de 44% do PIB em 2018) e são o mecanismo preferencial para mudar estruturalmente a nossa economia. O envelhecimento da população é contrabalançado pela imigração e a própria natalidade também –​ 10% dos bebés nascidos no ano de 2018 eram de mãe estrangeira. A própria iniciativa para a extensão da Plataforma Continental é a materialização de um país que faz a ligação atlântica do continente europeu. Sem esquecer que as comunidades portuguesas no estrangeiro representam cerca de 50% da população em Portugal, são cinco milhões, criando uma presença da cultura portuguesa difícil de obter para qualquer outro país com a nossa dimensão.

Contudo, a ausência de estratégia para um país com as características de Portugal pode ter um “efeito perverso”. Sem saber o papel que queremos ocupar, podemos ser mais prejudicados do que beneficiados pelas relações comerciais que são estabelecidas.

Uma eventual fragilidade produtiva da nossa economia poderá consagrar esse “efeito preservo”. É possível ver os efeitos históricos de situações como o ouro oriundo do Brasil que fez disparar as importações e anestesiou a produção de bens transacionáveis do país, com efeitos avassaladores a partir do século XVIII. Também no final do século passado, em 1999, a fragilidade do tecido produtivo português levou a que as importações atingissem quase o dobro das exportações já após a entrada no “mercado comum europeu”.

Mas é inegável a importância da globalização. A condição de Portugal como um país globalizado não é fruto de uma circunstância atual, mas antes o resultado de sermos um país que contribuí ativamente para um mundo globalizado.

Deste modo, com a inquestionável importância da política externa para o nosso país é verdadeiramente questionável não ver refletida essa importância no Ministério dos Negócios Estrangeiros.

O próprio Orçamento do Estado para o ano de 2021 neste ministério é demasiado igual aos anos anteriores. Este orçamento acaba por ser esdrúxulo para um mundo que mudou profundamente e para todas a oportunidades que um país tão globalizado como Portugal não está a aproveitar.

Quer no Ministério dos Negócios Estrangeiro, quer nos restantes, não se vêem sinais que sustentem uma estratégia que encontra soluções num país globalizado. Por isso, o que está escrito no papel do orçamento não “bate certo” com o discurso do Governo, porque se ignora tudo o que Portugal tem para vencer num “mundo ao contrário”.

O autor escreve segundo o novo acordo ortográfico