A República Checa foi vítima dos corredores seguros para turistas?

Este país da Europa Central esteve na lista dos destinos seguros de todos os países da UE. No fim do Verão, as infecções por coronavírus dispararam de forma assustadora.

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Protesto de proprietários de restaurantes em Praga, em Outubro, obrigados a encerrar por causa da covid-19 REUTERS/David W Cerny

Logo nos primeiros dias de Setembro, a República Checa, ou Espanha, já estavam a viver uma situação com notas de desespero por causa da covid-19. Com o fim do Verão e das férias, o número de infecções estava a disparar. “Na minha opinião, embora isto ainda seja uma hipótese, isto teve a ver com a gestão das fronteiras. Países e regiões que introduziram controlos mais estritos sobre entradas e saídas de pessoas não tiveram uma progressão tão rápida”, diz Tiago Correia, professor associado de Saúde Internacional e investigador do Instituto de Higiene e Medicina Tropical da Universidade Nova de Lisboa.

Os arquipélagos dos Açores e Madeira, por exemplo, que exerceram um controlo mais apertado das chegadas, ou então Austrália e Nova Zelândia, bem como os países asiáticos, serão exemplo dessa política que Tiago Correia diz não ser “necessariamente de fechamento de fronteiras, mas de controlo epidemiológico efectivo das pessoas que passam nas suas fronteiras.”

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TIago Correia DR

“A República Checa é o país paradigmático para explicar esta hipótese, que teve a ver com o descontrolo das fronteiras e a mobilidade dentro do espaço Schengen”, defende. “Esteve muito bem até ao Verão, com muito poucos casos, situação controlada" - fez parte da “aliança de países inteligentes” a lidar com a pandemia na Primavera, lançada pelo chanceler austríaco Sebastian Kurz. Mas entrou no corredor verde de todos os países europeus. Começou a receber um fluxo de turistas no Verão, Julho e Agosto, que foram desviados dos destinos habituais, do Sul da Europa. E foi o primeiro país a descontrolar”, exemplifica.

Até sábado, a República Checa contava 407.440 casos de infecção, 173 mil dos quais activos, e 4614 mortos, segundo o mapa da Universidade Johns Hopkins. E a sua taxa de mortalidade foi a pior na Europa nas últimas duas semanas, com 23,3 mortes por 100 mil pessoas, de acordo com dados do Centro Europeu de Controlo e Prevenção das Doenças.

Portugal viveu todo o Verão um drama a tentar entrar e depois permanecer no corredor verde para os turistas do Reino Unido. Londres deixou Portugal entrar a 20 de Agosto e retirou-o a 10 de Setembro, mantendo Açores e Madeira nos destinos seguros, “quando a situação epidemiológica já estava descontrolada no Reino Unido”, frisa Tiago Correia.

A União Europeia não quer encerrar fronteiras. “Continua a ter a posição de que são intocáveis. Mas o importante aqui não seria encerrar fronteiras, mas fazer um controlo epidemiológico”, defende Tiago Correia.

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