João Lourenço encena o apocalipse nos intervalos do chá

Só Eu Escapei é um texto da inglesa Caryl Churchill para quatro actrizes com mais de 70 anos. Catarina Avelar, Lídia Franco, Márcia Breia e Maria Emília Correia partilham um chá enquanto o mundo implode. A partir de 7 de Novembro, no Teatro Aberto.

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Maria Emília Correia, Catarina Avelar, Lídia Franco e Márcia Breia são as quatro actrizes em palco Cortesia: Teatro Aberto/Filipe Figueiredo

Parece um cenário banal de uma qualquer tarde soalheira de Verão. Um pequeno jardim, umas cadeiras dispostas para apanhar um pouco de sol, uma mesa de apoio com um bule e algumas chávenas de chá. Regina vai a passar pela rua, repara numa porta aberta na sebe daquele pequeno jardim e junta-se a outras três mulheres – todas com mais de 70 anos – com quem já se cruzou noutras ocasiões.

E aquilo que parece seguir-se é uma mera troca de impressões soltas entre amigas que falam das compras, das memórias dos lugares do seu bairro – o que aconteceu à loja dos frangos, à loja de ferragens –, de histórias comuns no seu passado, das séries que vão acompanhando na televisão, dos animais domésticos, das anedotas que se contavam noutros tempos e a que já não é de bom-tom dar voz (devido às minorias visadas pelas graçolas), das aves e das suas características, de tudo o que possam lembrar-se. 

Pelo meio desta conversa de circunstância, lá emergem umas curtas (mas incisivas) tiradas que revelam uma atenção ao mundo lá fora. A propósito das águias, e destas como símbolos nacionais, Vi diz que “as águias são fascistas”. “A América tem uma águia”, acrescenta Lena. “Pois tem”, confirma Vi.

O comentário poderia ser não mais do que uma frase avulsa, não tivesse Caryl Churchill, “a maior dramaturga viva”, na opinião do encenador João Lourenço, escrito Só Eu Escapei (a partir de 7 de Novembro no Teatro Aberto, Lisboa, com sessões de quarta a sábado às 19h, domingo às 16h) em 2016 – ano da eleição presidencial de Donald Trump. Talvez por isso, este ambiente de comentários soltos sobre as vidas destas quatro mulheres, é entrecortado por vários momentos em que Regina (Márcia Breia) rompe com aquela leveza estival para detalhar várias visões apocalípticas do futuro.

Enquanto o tempo fica suspenso no jardim onde estão as outras três mulheres (Catarina Avelar, Lídia Franco e Maria Emília Correia), Regina transporta-se para um futuro em que aldeias ficaram soterradas e “aqueles que ainda tinham aparelho digestivo comeram ratazanas”, ao mesmo tempo que várias seitas “tanto pregavam a tolerância com o rancor e o ódio”. Um futuro em que inundações engoliram localidades inteiras e “houve cidades que se realojaram nos telhados das casas”; em que produtos químicos se soltavam através de “fissuras no dinheiro”, causando irritabilidade e náusea; a violência doméstica escalou e “o Serviço Nacional de Saúde disponibilizou máscaras de gás com uma lista de espera de três meses e nos privados estas existiam em grande número e numa variedade de cores”.

Devido a estas visões, João Lourenço – que confessa estar a trabalhar com “a história do teatro português do século XX até aos nossos dias”, graças a estas quatro actrizes – pensa em Regina como “uma Cassandra”, uma profetisa do apocalipse. Só Eu Escapei, aliás, deve o seu título a uma citação bíblica do Livro de Jó, repetida também no Moby Dick de Herman Melville – “só eu escapei para contar”. Uma profetisa acompanhada por imagens destas catástrofes de um futuro encomendado, projectadas na tela do Teatro Aberto, nestes intervalos que cortam a calma da tarde daquelas mulheres.

É como se Caryl Churchill nos colocasse diante de um espelho e nos dissesse que enquanto estamos todos a tomar chá e a fingir que ignoramos o destino do mundo que habitamos o planeta está em avançado processo de implosão. “E nós continuamos a tomar chá”, comenta João Lourenço, “continuamos a pôr paninhos quentes e ninguém pára isto”.

Regina chega-se à boca de cena para nos alertar, para tornar claro que estas imagens nos dizem respeito, que não são ficção científica respeitante a seres de paragens longínquas, distantes do nosso quotidiano. Regina, com um semblante sempre mais carregado do que as outras, a que chega e parte deixando aquela bolha de amigas intocada, carrega esse peso de quem tem o desconforto e a culpa instalados no corpo. Porque mesmo depois dos momentos de brincadeira pueril em que dançam ao som dos Beatles ou jogam à macaca, é ela quem não consegue entregar-se por inteiro a esses rasgos de diversão. É ela a única consciente de que apesar dos dramas pessoais e das histórias de cada uma, há uma outra tragédia a cozinhar em lume brando. E que não se apaga nem arrefece, ao contrário do chá da tarde.