PSD nega acordo com o Chega - houve apenas explicações sobre o que pretende rever na Constituição

André Coelho Lima, vice-presidente do PSD, critica PS e lembra que em 2015 os socialistas também governaram sem serem o partido mais votado. PAN reitera que nunca viabilizará um Governo que integre ou apoiado pelo Chega e Bloco diz que o PSD cedeu à extrema-direita.

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Nuno Ferreira Santos

Depois de o PS ter colado o PSD ao Chega por causa dos compromissos assumidos para que os sociais-democratas consigam chegar ao poder nos Açores, o PSD esclareceu que não tem qualquer acordo com o partido liderado por André Ventura. “Não há qualquer moeda de troca com a revisão constitucional, não há acordo nacional entre o Chega e o PSD”, garantiu o vice-presidente André Coelho Lima em declarações aos jornalistas no Parlamento.

“Aquilo que corresponde à verdade é ter havido a transmissão ao partido Chega de alguns dos princípios que poderão integrar um projecto de revisão constitucional do PSD. A medida em que esses princípios mereçam a concordância do Chega é, naturalmente, com o Chega”, insistiu o deputado do PSD. É o caso da redução de deputados, exemplificou, que poderá merecer a concordância “do Chega e de outros partidos”, já que a revisão da Constituição precisa do voto de dois terços dos deputados, lembrou Coelho Lima.

Sem querer especificar quem foram os interlocutores dos dois partidos - Ventura mencionou conversações com dirigentes nacionais do PSD -, André Coelho Lima vincou que o PSD-Açores tem autonomia para discutir estas questões com outros partidos e que o que se passa no arquipélago é a “reedição da Aliança Democrática do tempo de Sá Carneiro" - que inclui PSD, CDS e PPM. Mas, questionado sobre se o PSD admite, depois desta aproximação nos Açores, fazer acordos como os da esquerda em 2015, de incidência parlamentar, ou coligar-se com o Chega em futuras legislativas nacionais, o dirigente social-democrata recusou entrar em “futurologias”.

O vice-presidente social-democrata preferiu atacar o “topete” do PS por, realçou, agora dizer o contrário do que fez em 2015 e acusar o PSD de “vender a dignidade de um processo revisão constitucional para alcançar o poder” nos Açores. “É de lamentar o tom do secretário-geral-adjunto do PS, que é o mesmo partido que ignorou a sua história" e violou a “tradição histórica” para fazer os “entendimentos que entendeu necessários” para formar Governo em 2015 depois de ter ficado em segundo lugar nas eleições. “O PS foi o primeiro a ter essa iniciativa, por isso ficamos muito surpreendidos que tenha a coragem e o topete de fazer declarações” destas, acrescentou Lima Coelho, dizendo ser mais uma vez que os socialistas tentam “reescrever a história”. 

PAN e Bloco criticam PSD por “normalizar” partido anti-democrático

Pouco antes, o Bloco e o PAN fizeram questão de se demarcar do Chega e da opção do PSD quanto aos Açores. “A construção de um governo regional feita em cima de uma cedência à extrema-direita é a normalização para a democracia precisamente dos partidos que a querem destruir”, apontou o bloquista Pedro Filipe Soares, para quem o PSD “destruiu a barreira entre os democratas e os partidos que atacam a democracia” e está, por isso, a “construir um futuro perigoso para o país”. O Bloco manteve os dois deputados regionais nestas eleições.

O líder parlamentar do Bloco defendeu que “o poder não se alcança de qualquer modo” e acusou o PSD de “pensar muito mais no curto prazo e muito menos em princípios”. “Ao dar este passo [um acordo com o Chega] e ceder à extrema-direita, o PSD está a repetir os mesmos erros que, pela Europa fora, outros partidos também cometeram e que foram o princípio do seu fim”, avisou Pedro Filipe Soares.

André Silva, do PAN, seguiu uma argumentação parecida e garantiu que o partido, que elegeu pela primeira vez um deputado regional, garantiu que “não viabilizará, nunca, um governo que dependa de um partido que é do campo não democrático" e que “coloca em causa os valores democráticos” - garantia que já tinha sido dada pelo líder do PAN-Açores.

“O PAN está disponível, como sempre, para se encontrar uma solução de estabilidade parlamentar. Mas não contribuiria e jamais contribuirá para um cenário de eleições antecipadas nem se instabilidade”, garantiu André Silva em declarações aos jornalistas no Parlamento. E acrescentou que o Chega traz “valores anti-democráticos” para a política: “discriminação, intolerância, retirar direitos àqueles que menos podem.” A atitude dos partidos da direita nos Açores está a contribuir para a “normalização e a tolerância total” para com o campo político não democrático. “Não tem que ver com a formação de um governo daqueles três partidos [PSD, CDS, PPM], que são do campo democrático, (...) mas neste caso não podemos viabilizar uma solução cuja estabilidade depende de uma força anti-democrática”, insistiu.