PAN fecha porta à coligação de direita nos Açores: “A toda a solução com o Chega dizemos não”

PSD, CDS e PPM precisam agora do apoio do Chega e da Iniciativa Liberal para conseguir a maioria no parlamento. Continua tudo em aberto na véspera de os partidos serem recebidos pelo representante da República.

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PAN coloca-se fora da solução governativa de direita Nuno Ferreira Santos

O PAN fechou a porta a um governo da coligação de direita composta por PSD, CDS e PPM nos Açores. Tudo por causa do Chega. A coligação, uma versão regional da Aliança Democrática (AD) de Sá Carneiro, precisa sempre dos dois deputados do Chega e ainda de outro mais para ter a maioria no parlamento. Este outro ficou-se a saber que não será Pedro Neves, deputado eleito do PAN. Resta o parlamentar da Iniciativa Liberal.

“Mesmo com o risco do PAN perder o seu mandato com eleições antecipadas, a toda a solução com o partido Chega dizemos não”, atirou Pedro Neves, em conferência de imprensa, em Ponta Delgada. O porta-voz do partido no arquipélago deixou claro é que “contra qualquer solução governativa que inclua o populismo não democrático”, que considera uma “ameaça” à democracia nacional.

Admitindo que falou com a AD-Açores e com o PS, o responsável do PAN na região deixou claro que não irá viabilizar qualquer coligação que dependa do Chega, mesmo que o partido de André Ventura não entre para o governo regional. “Não podemos viabilizar Governos com o encosto de um partido que entende que a solução passa por colocar de lado as duras conquistas pela igualdade perante a lei”. “Seja qual for” o caderno reivindicativo do Chega, a decisão do PAN não vai ser alterada. Mais do que as medidas está em causa o “ideário dos partidos”.

Pedro Neves também criticou a interferência de André Ventura no processo negocial do futuro governo dos Açores, uma “intromissão centrada em ter palco para o seu ego” e “sem respeito nenhum pela autonomia açoriana”. “[Será] um governo que pedirá sempre como troca dois votos e meio do Chega, dois nos Açores e meio da República, que dependerá da ingerência dos interesses continentais deste partido na soberania açoriana”, disse.

Contudo, apesar de fechar à porta à direita, o PAN também não deu a mão à esquerda. O líder regional fez questão de apresentar as “linhas vermelhas” do partido. Segundo disse, o PAN “não alinhará com um Governo” que “não reforce o número de profissionais de saúde”, que não “implemente medidas para terminar com a precariedade dos professores”, que “não repense a posição sobre a mineração do mar profundo”, que “não termine com o abate de animais de companhia” e que “continue a subsidiar a tauromaquia”.

Questionado sobre se o partido poderá então viabilizar um governo socialista, Pedro Neves apenas disse que “neste momento só existe uma alternativa”, a AD-Açores, pelo que não irá “decidir sobre algo que ainda não existe”. Independentemente de quem governará os Açores no futuro, o porta-voz do PAN-Açores, que na campanha eleitoral criticou os “tiques ditatoriais” do PS, já vê frutos democráticos do impasse actual na política regional. “Neste momento temos um partido [PS] bem mais humilde e que fez aquilo que sempre quisemos: pontes com os partidos mais pequenos”, disse, concluindo que “está tudo em aberto”.

Na sexta-feira, PAN, Iniciativa Liberal, Chega, CDS e BE vão ser recebidos pelo representante da República, e no dia seguinte será a vez de PSD e PS. A coligação PSD-CDS-PPM representa 26 mandatos, mais um do que o PS. O Bloco, com dois deputados, já demonstrou disponibilidade para viabilizar um governo socialista. A maioria no parlamento regional consegue-se com 29 deputados.

Ao final desta quarta-feira, fonte oficial do Chega-Açores disse ao PÚBLICO que as negociações com PSD, CDS e PPM continuam a decorrer e o maior entrave não é regional, mas nacional: advém da posição de Rui Rio de não dar a mão a André Ventura no projecto de revisão constitucional. Já do lado liberal, o deputado eleito Nuno Barata disse esta semana ao PÚBLICO que o PSD “tem de dizer ao que vem”. “O PSD não pode mandar recados e não dizer ao que vem. Cabe ao PSD, no quadro de alternativa, a responsabilidade de juntar os apoios que lhe faltam”, afirmou. Entre soluções e equações parlamentares, por estes dias a política regional açoriana faz-se de calculadora na mão.

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