Que surpresa – nem parecia o Marcelo das selfies

Valha-nos a lição de Estado de Marcelo à RTP1. Nem parecia o Marcelinho das selfies.

Sim, é verdade, um vírus, algo que se não vê a olho nu, ameaça a Humanidade. Toda a fragilidade humana veio ao de cima. Bem podemos ir à Lua, ficar meses a fios no Espaço a desafiar a gravidade, descobrir vírus, que nem por isso deixamos de ser seres efémeros, que morremos e acabamos literalmente, ou seja, passamos a nada. Depois do nada já vai da crença de cada qual.

Sabe-se da importância da vida e da morte no caminhar da Humanidade. E do amor. Se repararmos bem, os grandes temas desde Homero a Shakespeare, de Goethe a Saramago, de Ovídio a Camus são sempre os mesmos retratados à luz das circunstâncias. A morte enche a vida. Há até uma televisão lusitana que tem correspondentes em todo os cantos para apanhar todas as mortes desde o trator que vira à mãe que mata o filho algures.

Os media descobriram que nos podiam ter ligados todo o tempo se nos falarem do vírus que se espalha e mata.

É o confronto entre o hedonismo de uma sociedade super individualista e a efemeridade de quase tudo, embora o vírus tenha escolhido atacar os mais frágeis, como em tempo de globalização em que os grandes engolem os pequenos.

Todos os animais “aceitam” a efemeridade porque dela não têm consciência, enquanto os humanos padecem desse mal/bem. E daí os seus Deuses, alguns que vieram para transformar a efemeridade em felicidade eterna nos paraísos diversos consoante os Deuses, suplantando a efemeridade terrena.

Quem sabe diz que se sabe um pouco mais do que no início do ano, mas que falta saber muito. Assim se pronunciam os sábios, os que se empenham até aos cabelos em descobrir o que falta. Porém, há quem, não sabendo o que os sábios sabem, saiba navegar entre os difíceis caminhos sinuosos e contraditórios próprios dos peregrinos da ciência.

E descobrem o que está descoberto – que neste caminho há contradições, suposições que se não verificam, erros, muitos, falta de planeamento. É verdade isso e muito mais. Que é difícil saber o que fazer que seja mais certo entre conter a pandemia e manter a economia para não se viver penúrias de bens e as suas consequências.

Na passada segunda-feira, António José Teixeira avançou para entrevistar Marcelo com uma planificação bem detalhada. Colocando Marcelo entre Sila e Caribe, bem lhe assobiou para o atrair ao ataque aos denominados erros crassos do Governo e, sobretudo, de Marta Temido. Marcelo regressou à faculdade e deu uma aula acerca da história do vírus e de outras pandemias. Só que não era essa a planificação da RTP1, apostada por via do entrevistador em mostrar as fraquezas da ministra, do SNS, do Governo e da própria comunicação das autoridades político-sanitárias, etc..

Marcelo, muito hábil, aproveitou para deixar os cânticos das sereias onde estavam e partiu explicando ao que ia, defender no essencial o que foi feito. Ele bem sabia porque o fazia, assumindo-se como o primeiro responsável por tudo quanto sucedeu.

António José Teixeira levou uma lição de estratégia bem planeada e logo ele, que ia todo lampeiro falar da falta de planeamento estratégico do Governo.

A pandemia está por todo o lado a colocar em cima da vida a nossa finitude, a morte que nos acompanha há milhares de anos. É essa consciência tão evidente que deprime e cansa. Ainda por cima sem fim à vista, como é próprio das vagas. Raramente se está preparado para a morte e muito menos está uma sociedade que esconde a velhice e atrai para a tona da vida o que brilha de jovem. É a sociedade do atira ao lixo o que não dá lucro. A efemeridade é a sua força de atração. Os velhos já deram lucro. Estão agora em contramão. Empacotados, morrem sem ninguém, que o vírus não deixa. 

Os que mais fizeram para que as coisas se encontrem neste pé, pois a iniciativa privada é fundamental para confinar os velhos face ao abandono do Estado, até no licenciamento, são agora os que mais zurzem e atacam a situação que também criaram.

Valha-nos a lição de Estado de Marcelo à RTP1. Nem parecia o Marcelinho das selfies.

O autor escreve segundo o novo acordo ortográfico