Alguns casos e muito ruído

Pobre do nosso futebol, que passou o fim-de-semana desportivo centrado em “bater e abater” os árbitros e as arbitragens. Os que não deviam falar gritaram alto e bom som, desde os presidentes dos clubes nas intervenções pós-jogo aos treinadores nos bancos, com palavras indignas, mal-educadas e ofensivas, até às televisões ávidas de audiências e protagonismo, expondo em tamanho gigante as fotografias do árbitro e do VAR, do jogo Paços Ferreira-FC Porto, num autêntico linchamento público.

Em sentido contrário, aqueles que mais deveriam ter-se chegado à frente e gritado bem alto em nome da defesa da honorabilidade e dignidade dos árbitros ficaram, como sempre, calados, surdos e mudos, de joelhos perante os poderes instituídos. Falo do Conselho de Arbitragem e da APAF.

Dentro das quatro linhas, eis os destaques da jornada. 

Boavista-Benfica

Minuto 11: golo bem anulado a Darwin por fora-de-jogo de 116cm, valendo a intervenção do VAR para corrigir o erro inicial do assistente.

Minuto 17: penálti bem assinalado a favor dos “axadrezados”, porque Everton, ao esticar o seu pé direito, tocou e rasteirou o pé esquerdo de Angel Gomes no interior da área.

Minuto 45: mais um golo anulado ao Benfica por fora-de-jogo (92cm) de Pizzi, com o assistente a deixar (e bem) finalizar a jogada, levantando a bandeirola só depois de a bola entrar na baliza, dando assim tempo e espaço para intervenção do VAR.

Minuto 76: mais uma boa decisão do assistente, no lance do terceiro golo do Boavista. Quando Hamache remata, o seu colega Elis está em fora-de-jogo posicional, mas não tem qualquer interferência na jogada nem impacto no seu adversário (guarda-redes), pelo que o golo foi bem validado.

Sporting-Tondela 

Minuto 34: João Pedro, ao saltar de forma negligente, toca com o cotovelo no rosto de Feddal, numa infracção passível de “apenas” cartão amarelo, pois, não obstante ter havido intencionalidade e malícia, o contacto não teve a intensidade, velocidade, amplitude e sobretudo consequência para pôr em risco a segurança e a integridade física do jogador leonino.

Minuto 54: golo bem anulado a Mário Gonzalez por fora-de-jogo de 11cm. Esteve bem o assistente, que conseguiu detectar o milimétrico adiantamento confirmado posteriormente pelo VAR.

Minuto 68: boa decisão no lance que seria o terceiro golo de Pedro Gonçalves, quando foi sancionado o momento anterior, em que Pedro Porro, adiantado 70cm, estava em posição de fora-de-jogo.

Paços de Ferreira-FC Porto

Foi neste jogo que se deram os casos maiores deste fim-de-semana, duas situações mal decididas com intervenção do VAR, que se impunha segura e assertiva, que falhou claramente.

Minuto 38: mal anulado o golo do Paços. Não há infracção atacante Dor Jan sobre Mbemba, porque o jogador israelita toca claramente na bola e, acto contínuo, encolhe o pé para evitar contacto com o defesa do FC Porto. O toque é inevitável, mas sem consequência, quer para a queda do jogador portista ou para a sua intervenção no lance, quer para a jogada e trajectória da bola.

Minuto 45+5': penálti mal assinalado contra o Paços. Se no campo é fácil assinalar a infracção por toque com o braço na bola, já com recurso às imagens televisivas se percebeu de forma imediata que se tratava de um erro inicial, óbvio e claro, que tinha de ter intervenção do VAR, de acordo com o protocolo. Quando Uribe cruza a bola de muito perto, esta vai de forma inesperada contra o braço de Eustáquio, que estava de joelhos de costas e a apoiar os braços no chão aquando da queda — num gesto natural, o médio tinha ambos os braços junto ao corpo e sem ganhar volumetria ou fazer qualquer gesto deliberado para interceptar a trajectória da bola.

Sp. Braga-Famalicão

Minuto 20: penálti por assinalar por derrube de Vaná a Paulinho no interior da área.

Minuto 74: golo bem validado aos bracarenses. Bruno Viana não está em posição de fora-de-jogo e o seu colega Iuri Medeiros, em fora-de-jogo posicional, não interfere na visibilidade nem tem qualquer impacto sobre o guarda-redes ou os defesas contrários.

Minuto 90+7: após terminar o jogo, o árbitro vai ao monitor para verificar se há penálti de João Novais. O lance ocorre sobre o limite da área, o que, a ser infracção, era passível de penálti, pois as linhas fazem parte das áreas que delimitam. Porém, verificou-se que a bola bateu na parte superior do braço, mais ombro do que braço, e nesta época ficou bem definido (figura da página 105) que o braço só começa a partir da parte inferior da axila, por isso, decisão final correcta.