Com as livrarias fechadas em França, Shakespeare and Company pede ajuda para sobreviver

Icónica livraria parisiense com 69 anos de história, cujas vendas caíram quase 80% desde Março, pediu a leitores que a apoiem com compras online. Sector livreiro diz que encerramento de quatro semanas decretado por Emmanuel Macron surge, tragicamente, na altura em que as livrarias registariam mais lucro.

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A Shakespeare and Company, uma das livrarias mais emblemáticas do mundo, está a pedir aos seus clientes habituais que apoiem a casa com compras e encomendas através do site, contanto que tenham “os meios e o interesse” para o fazer. Situado no alinhamento da Catedral de Notre-Dame, o histórico espaço parisiense – cujas vendas, revelou a administração na quarta-feira, caíram quase 80% desde Março – está a passar por uma situação de grave sufoco financeiro, cujas proporções podem crescer ainda mais com o novo confinamento parcial em França, que entrou esta sexta-feira em vigor.

“Como muitas empresas independentes, estamos a passar por dificuldades, a tentar encontrar um caminho neste tempo em que temos vindo a trabalhar com prejuízo”, assinala a Shakespeare and Company na newsletter enviada aos leitores. Sylvia Whitman, filha de George Whitman, proprietário que abriu a “versão actual” da Shakespeare and Company em 1951 – o norte-americano deu ao seu espaço o nome Shakespeare and Company em homenagem à livraria homónima que Sylvia Beach fundou em 1919, noutra rua de Paris, e que viria a fechar em 1941, durante a Segunda Guerra Mundial –, disse ao jornal britânico The Guardian que a casa já usou “todas as suas poupanças” e que nesta fase está a fazer uso dos “apoios governamentais” a que tem podido recorrer. “Mas isso não cobre as dívidas todas, já tivemos de atrasar uma grande parte da nossa renda”, assinala.

Quando abriu a actual Shakespeare and Company, que celebrará 70 anos em 2021, George Whitman quis imprimir ao espaço a mesma dimensão acolhedora da loja de Sylvia Beach, por onde passaram escritores como James Joyce, Ezra Pound, Ernest Hemingway, Scott Fitzgerald ou Gertrude Stein. A “nova” livraria recebeu (e, nalguns casos, chegou a hospedar) nomes incontornáveis da Geração Beat: Allen Ginsberg, Gregory Corso, William Burroughs e Lawrence Ferlinghetti eram visitas regulares, sendo que Ferlinghetti acabou por traçar uma amizade particularmente forte com Whitman, falecido em Dezembro de 2011.

O primeiro confinamento em França manteve a loja fechada cerca de dois meses, período durante o qual, sustenta o The Guardian, a administração não apostou nas vendas online. Agora, com o novo encerramento de todos os serviços considerados não-essenciais e de espaços culturais até 1 de Dezembro, a Shakespeare and Company não tem outra possibilidade senão tentar investir na remodelação do site e no incentivo às compras digitais.

Para já, confirma Sylvia Whitman, a estratégia tem surtido efeito. Desde o envio da newsletter, diz a responsável, a livraria tem recebido várias doações e encomendas – um cliente terá gasto mil euros no âmbito da oferta especial Year of Reading, através da qual a Shakespeare and Company enviará, a partir de 2021, um livro por mês aos subscritores.​ “Não tínhamos dito nada publicamente no passado porque temos a noção de que toda a gente está em situações difíceis. Só queremos pedir às pessoas que nos ajudem a fazer o que fazemos, que é vender livros. Não queremos simplesmente dizer: ‘OK, abram as vossas carteiras e dêem-nos dinheiro.’ É mais do tipo: ‘Olhem, é isto que temos nas prateleiras. Aqui estão alguns dos lindos livros raros que temos. E seria incrível se conseguissem comprar um deles agora.’”

Sector livreiro contesta encerramento

Após o anúncio de novo confinamento feito pelo Presidente francês Emmanuel Macron, a União Editorial Nacional (SNE), o Sindicato das Livrarias Francesas (SLF) e o Conselho Permanente de Escritores (CPE) publicaram um comunicado de imprensa conjunto apelando a que as livrarias possam permanecer de portas abertas. Anne Martel, do SLF, explicou posteriormente à rádio France Inter que este encerramento forçado não poderia ter chegado em pior hora para o sector livreiro, numa altura em que o Natal já espreita. “Um quarto dos livros vendidos em França é comprado entre Novembro e Dezembro. Ou seja, 25% da facturação de uma livraria, em média, vem no final do ano”, frisou.

François Hollande acabou por se juntar a este protesto, defendendo que as livrarias e bibliotecas devem poder funcionar “em condições que não causem qualquer problema de saúde”. “Eu estive numa livraria na quarta-feira. É um lugar onde as regras de segurança podem ser plenamente respeitadas”, disse o ex-Presidente francês à rádio Europe 1. “Quando já não temos liberdade de movimento, devemos pelo menos ter liberdade de ler e pensar”, acrescentou.

Em “solidariedade” para com as livrarias, o Prémio Goncourt e o Prémio Renaudot, duas das mais importantes distinções literárias francesas, adiaram por tempo indeterminado as cerimónias protocolares de anúncio dos vencedores, ambas inicialmente calendarizadas para 10 de Novembro. O Prémio Interallié, que teria sido entregue no dia 18, seguiu o mesmo exemplo, bem como o Grande Prémio de Romance da Academia Francesa.

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