Arte e comércio tradicional unem-se para celebrar 25 anos de prémio literário

Em Braga, há 25 obras de arte à mostra em 25 estabelecimentos comerciais. O roteiro “Arte, Literatura e Comércio Local” homenageia cada um dos livros premiados pelo Grande Prémio de Literatura dst, fundado em 1995.

Pedro Figueiredo
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Manuela Pimentel
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Manuela Pimentel

Mal se entra na livraria Centésima Página, há uma pintura que nos observa, entre as dezenas de volumes que repousam nas estantes. Sobre a tela, vêem-se letras dispostas em grelha, encobertas por manchas vermelhas e cinzentas. No fundo, há uma frase emoldurada por um azulejo: “Sabia que as palavras tinham ficado abandonadas, como se estivessem nas suas veias”. A autora do quadro, Manuela Pimentel, retirou essas palavras da obra de poesia contemplada com o Grande Prémio de Literatura dst neste ano: Junto à Pedra, de Fernando Guimarães. “Nesta peça, há uns rasgos vermelhos. É como se víssemos no microscópio o sangue a correr nas veias. E há letras fora do sítio, como se estivessem abandonadas”, descreve.

Esse é uma das 25 obras de arte visíveis em 25 lojas da malha urbana de Braga, para se assinalar cada um dos livros que venceu o prémio literário fundado pelo grupo empresarial principalmente ligado à construção civil, em 1995. À semelhança das restantes criações do roteiro, Silêncio, de Manuela Pimentel, é um quadro em exposição desde segunda-feira até 09 de Novembro. Habituada a inspirar-se em palavras, a artista pegou em cartazes de rua, e cobriu-os com acrílico, verniz e cimento para evocar a poesia do escritor portuense, que recebe o prémio no dia 04. “Todos os poemas do livro têm em comum o silêncio. Achei isso muito bonito no trabalho do Fernando Guimarães, que não conhecia. Reflecti sobre esta questão do pensamento virar silêncio”, descreve.

Para uma das proprietárias da livraria que acolhe o quadro, situada na Avenida Central, o roteiro é “interessante”, quer pela “imensa qualidade” das peças expostas, quer pela promoção do comércio tradicional da cidade – a arte está em livrarias, cafés e pastelarias, mas também em salões cabeleireiros, numa oculista, numa lavandaria e numa florista. “Isto leva a arte ao encontro das pessoas e surpreende-as. Quem entra num dos estabelecimentos vê, de repente, uma obra de arte num sítio inesperado”, frisa Helena Veloso.

A ideia de celebrar os 25 anos do prémio de literatura com 25 obras de arte tem “mais de um ano”, mas o Salão Nobre do Theatro Circo era o espaço inicialmente destinado à exposição, revela Helena Mendes Pereira, directora e curadora da zet gallery, entidade a cargo do roteiro. Foi a pandemia de covid-19 que motivou o uso das lojas como espaços expositivos. “Não sabíamos se teríamos eventos no Theatro Circo e começámos a pensar em formatos alternativos. Achámos que esse roteiro poderia reforçar o comércio local e democratizar o acesso à arte, mostrando que as obras podem estar em vários locais”, afirma, enaltecendo a “fácil” adesão dos comerciantes.

Para Helena Veloso, este projecto artístico ajuda os vários estabelecimentos da cidade a reagirem à perda de clientes, devido à pandemia, mas sobretudo a trabalharem em conjunto. “A pandemia criou um terreno propício a que os projectos conjuntos façam mais sentido”, realça.

Arte além dos premiados

O reforço da ligação entre o comércio local e a arte é um dos objectivos da iniciativa, mas reforço da memória do Grande Prémio de Literatura dst também o é, reconhece Helena Mendes Pereira. “Muitas pessoas desconhecem que a dst está associada a um prémio literário há 25 anos”, diz. Graças ao impulso dos ensaístas Vítor Aguiar e Silva, o mais recente vencedor do Prémio Camões, e Carlos Mendes de Sousa, e do escritor José Manuel Mendes, vencedor da primeira edição, em 1995, com Presságios do Sul, o prémio foi galardoando vários escritores portugueses, intercalando a escolha de um livro de prosa num ano, com um de poesia no seguinte. Maria Ondina Braga, Nuno Júdice, Maria Velho da Costa, Manuel Alegre, Daniel Jonas e Lídia Jorge são alguns dos autores premiados.

Todos estes autores mereceram a atenção de artistas plásticos. Um deles, porém, não teve de evocar nenhuma obra específica. Como o prémio não foi entregue em 2009 e em 2011, há até agora 24 livros agraciados. Coube ao escultor Pedro Figueiredo realizar a 25.ª obra do roteiro, a única tridimensional. Para homenagear a poesia, o artista inspirou-se em Calíope, a musa da poesia épica na mitologia grega. No tecto do Café Vianna, estabelecimento que funciona na Arcada desde 1871, vê-se uma figura feminina de livro na mão, em trajectória ligeiramente descendente. “Ela desce dos céus como mensageira dos mistérios da poesia, quase como a oferecer o livro aos bracarenses”, diz Pedro Figueiredo. Realizada entre Abril e Maio, durante o estado de emergência, a escultura é também uma representação da “vida em suspenso, com futuro incerto” que pauta estes dias, confessa o artista.

Já o Largo S. João do Souto, no centro histórico bracarense, vai acolher em permanência uma instalação artística em azulejos relativa aos 25 anos da iniciativa literária, da autoria de JAS (nome artístico de João Alexandrino). A obra vai ser inaugurada em 04 de Novembro, dia em que Fernando Guimarães recebe o prémio.