A Mulher como Campo de Batalha, a barbárie como método

Com texto de Matéi Visniec e encenação de Sofia Lobo, a nova criação da Escola da Noite estreia-se esta quinta-feira no Teatro da Cerca de São Bernardo, em Coimbra.

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Eduardo Pinto

Sarajevo ainda olhava com desconfiança para as montanhas que lhe serviram de prisão durante quatro anos quando, em 1996, Matéi Visniec se sentou a escrever sobre o conflito armado na Bósnia. Em A Mulher como Campo de Batalha, peça que a Escola da Noite estreia em palco esta quinta-feira, no Teatro da Cerca de São Bernardo, em Coimbra, o dramaturgo romeno desenhou o encontro entre Dorra, uma mulher jugoslava que passou pela violência da guerra, e Kate, uma norte-americana cuja relação com os Balcãs começou com a escavação de valas comuns.

O texto foi escolhido por Sofia Lobo, que encena a peça, por ter “boas personagens femininas, o que não é muito frequente”, explica ao PÚBLICO, mas também pela pertinência de um tema que mexe com a guerra e com o fardo, tantas vezes silencioso, que aquela coloca sobre os ombros das mulheres. O próprio título A Mulher como Campo de Batalha é eficiente a resumir o tema central: a violação sistemática de mulheres em conflitos armados como instrumento de guerra. Numa hora e meia, o texto do dramaturgo romeno chega a esse doloroso território, mas deambula igualmente pela complexa teia de que é feita a história, e pelos usos e costumes que contribuíram para a barbárie nos Balcãs.

Estão ali as especificidades de uma guerra travada entre vizinhos, colegas de escola e de trabalho, que conheciam as casas, os locais de culto e os hábitos uns dos outros. “Os Balcãs são assim, um barril de pólvora sentimental”, proclama uma das personagens.

Há não muito tempo, não muito longe

Visniec escreve com a propriedade de um vizinho. O dramaturgo radicado em Paris utilizou a proximidade da Roménia com a Jugoslávia e o seu trabalho de jornalista na Radio France Internationale como substrato de A Mulher como Campo de Batalha. Ao fim de quatro anos de cobertura jornalística diária para a rádio, sentia-se “completamente incrédulo e inútil, como uma espécie de voyeur”, contou em Avignon, em 2016. “Como poderia eu intervir de algum modo relativamente a esta barbárie?”, questionava. O jornalista que observa pode, enquanto escritor, “ir um pouco mais longe”, respondia.

De Dorra, sabemos que é jugoslava, nascida num país dissolvido pelas pulsões nacionalistas, abafadas enquanto Tito governou. De início não responde a Kate, que surge aqui como a representante do Ocidente, mas também como um meio para se perceber o percurso de Dorra. Entre essas “duas mulheres de contextos muito diferentes há uma aproximação, há um conhecimento”, refere Sofia Lobo. Esse processo é apresentado ao público numa sequência de breves cenas que ilustram o caminho que se vai estreitando.

A norte-americana detecta em Dorra uma neurose traumática, causada por uma violação, retirando daí uma hipótese freudiana que relaciona a frustração nacionalista com a frustração sexual. Para Sofia Lobo, esta é uma das forças do texto, que toca numa novidade (pelo menos na Europa), os “campos específicos de violação” de mulheres, usados como táctica militar de enfrentamento do inimigo étnico. “Muitas foram obrigadas a ter filhos dos seus agressores”, nota.

Olhando para os tempos difíceis que agora atravessamos, diz a encenadora, “é importante pensar que há sempre pessoas a viverem de forma muito pior”, o que ajuda a relativizar. Também o facto de esta guerra ter acontecido na Europa há tão pouco tempo é relevante. “Vermos crescer coisas tão horríveis e tão perto – como o fascismo, a xenofobia... Este cavalgar está a ser tão rápido que é importante lembrar, não esquecer.”

Este é o segundo texto consecutivo de Visniec que A Escola da Noite trabalha, depois de Palhaço Velho, Precisa-se, encenado por António Augusto BarrosA Mulher como Campo de Batalha sobe ao palco de 29 de Outubro a 1 de Novembro, de 12 a 15 e de 26 a 29 de Novembro e ainda de 3 a 6 de Dezembro. 

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