Covid-19: Von der Leyen prepara os europeus para um “Natal diferente”

Em conferência de imprensa, Ursula von der Leyen alertou que a “situação é muito séria” e instou os Estados-membros a assumirem as suas responsabilidades, com uma série de recomendações para conter a pandemia do novo coronavírus.

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Ursula von der Leyen, presidente da Comissão Europeia, na conferência de imprensa virtual EPA/VIRGINIA MAYO / POOL

No “melhor cenário possível”, a União Europeia terá ao seu dispor entre 20 e 50 milhões de doses mensais da vacina contra o novo coronavírus a partir de Abril, informou nesta quarta-feira a presidente da Comissão Europeia. Mas, até lá, não restam outras alternativas para travar a pandemia e impedir os contágios do que aquelas que já se conhecem, avisou Ursula von der Leyen. “Precisamos de usar máscaras e lavar repetidamente as mãos, temos de evitar os contactos próximos, o convívio em espaços fechados e com pobre ventilação e as multidões”, enumerou.

Referindo-se à escalada dos casos em todos os países da UE, e ao cansaço das populações com as medidas e restrições em vigor para conter a pandemia e assegurar a capacidade de resposta dos serviços de saúde, a líder do executivo comunitário começou a preparar os europeus para um “Natal diferente”.

Ninguém sabe qual vai ser a situação em Dezembro, afirmou, mas no momento actual o cenário é “muito grave”. “Não podemos relaxar, temos de actuar rapidamente”, sublinhou. “A situação é muito séria, mas ainda vamos a tempo de a mudar e de travar mais uma vez a expansão do vírus, se todos assumirmos as nossas responsabilidades”, vincou, explicando, enfaticamente, que a mudança tem de começar ao nível individual antes de se estender aos restantes níveis: local, regional, nacional, europeu.

Como outros líderes europeus, Von der Leyen apelou ao cumprimento das normas e ao bom senso dos cidadãos. Estamos numa fase em que todos podem e devem contribuir, insistiu. Mas além da acção individual também é preciso fazer mais, declarou, pedindo aos líderes europeus — que nesta quinta-feira vão discutir a situação pandémica numa reunião informal do Conselho Europeu por videoconferência — para intensificarem os seus esforços para, mais uma vez, achatar a curva das infecções.

Se todos trabalharmos juntos, coordenarmos as nossas acções, e assumirmos as nossas responsabilidades, poderemos combater o vírus, proteger as nossas sociedades e, passo a passo, reavivar a economia, afirmou.

Antecipando-se à reunião dos chefes de Estado e Governo, a Comissão anunciou um conjunto de recomendações para os Estados-membros no sentido de limitar a propagação do novo coronavírus, numa altura em que a maioria dos países da União Europeia vê o número de infecções bater recordes diários.

Entre as recomendações anunciadas está uma maior aposta nos testes rápidos e direccionados, particularmente nos testes de antigénio, que podem dar resultados em poucos minutos, apesar de serem menos precisos. “Estes testes, que estão a chegar agora ao mercado, têm a grande vantagem de ser rápidos e baratos”, salientou Von der Leyen, que recorrendo à sua formação em Medicina não deixou de chamar a atenção para o facto de “não serem tão fiáveis como os testes PCR para detectar uma infecção quando não há sintomas ou a carga viral é baixa”.

Apesar dos constrangimentos, a Comissão recomenda que os Estados-membros comecem a adoptar a utilização destes testes rápidos. Para tal, manifestou disponibilidade de mobilizar imediatamente cem milhões de euros do Instrumento de Apoio de Emergência para a compra de 22 milhões de testes, incentivando os países a comprarem ainda mais testes recorrendo aos futuros concursos de aquisição conjunta. 

Ursula von der Leyen anunciou um novo concurso para a aquisição de equipamentos médicos para a vacinação, como seringas e desinfectantes, e manifestou disponibilidade para prolongar a suspensão das taxas alfandegárias e os impostos sobre as importações de equipamento médico.

Mas a presidente da Comissão foi muito cautelosa ao referir-se às vacinas como solução mágica para a pandemia. “A vacina não vai ser o milagre que todos esperamos”, advertiu, num reparo que foi também repetido pelo seu conselheiro especial, o virologista belga, Peter Piot, que actualmente dirige a Escola de Higiene e Medicina Tropical da Universidade de Londres.

“A vacina não ficará imediatamente disponível, o que quer dizer que continuaremos a ter de aplicar as restantes medidas por muito mais tempo. Não vamos poder voltar ao normal imediatamente”, avisou este especialista, que não escondeu a sua preocupação com um outro dado. “Em estudos de opinião, 25% de inquiridos dizem que não confiam em vacinas e que não a vão tomar”, lamentou.

Mesmo assim, e no pressuposto de que o melhor cenário possível em termos da disponibilização de vacinas pela indústria farmacêutica vem a concretizar-se, a líder do executivo comunitário estima que cerca de 700 milhões de pessoas possam ser imunizadas contra o novo coronavírus já no próximo ano. 

“Sabemos que nem todas as candidatas que temos no nosso portfólio vão ser bem-sucedidas. Mas no melhor cenário possível, teremos ao longo de 2021 cerca de 1200 milhões de doses de vacina para distribuir pelos cidadãos da União Europeia e também para donativos para países em desenvolvimento”, revelou.

A Comissão está a negociar acordos com as farmacêuticas que estão a desenvolver vacinas contra o coronavírus, de forma a garantir que o princípio do acesso universal é respeitado. Bruxelas disponibilizará 2,5 mil milhões de euros para garantir potenciais vacinas da covid-19 que se comprovem seguras e eficazes. Mas os países terão de se preparar para a chegada das primeiras vacinas: “É preciso considerar todas as questões logísticas e também definir quem deve ser vacinado primeiro”, apontou Von der Leyen.

De resto, a líder do executivo pediu aos Estados-membros para melhorarem a partilha de informação no que diz respeito à testagem, ao rastreamento de contactos e à capacidade dos respectivos sistemas de saúde, de forma a permitir, por exemplo, que em caso de necessidade possa haver transferências de doentes para hospitais de países vizinhos.

Em relação a viagens entre países da UE, a Comissão Europeia defende o desenvolvimento de um protocolo de testagem comum, assim como de regras de quarentena coordenadas entre os Estados-membros. Entre as propostas, está a possibilidade de os europeus que não consigam fazer teste ao SARS-CoV-2 no país de origem o possam fazer à chegada.

Von der Leyen reconheceu que, na actual situação, não devem ser levantadas as restrições às viagens de países terceiros para a UE, mas encorajou os governos nacionais a “facilitar a reunião de casais e famílias” que permanecem separadas desde a declaração da pandemia.

A Comissão recomenda ainda aos 27 Estados-membros que apostem em campanhas para combater a desinformação que circula online sobre a pandemia de covid-19, e incentiva os países a apostarem nas aplicações de rastreio de contactos, como é o caso da StayWay Covid, em Portugal.

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