Covid-19: o factor K pode virar o rastreio ao contrário?

Depois do indicador R, sobre a média do número de contágios por uma pessoa infectada com SARS-CoV-2, os especialistas centram-se agora nas respostas que o factor de dispersão K pode dar sobre a pandemia e que podem mudar as regras do rastreio.

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Nelson Garrido

Há mais um conceito para juntarmos ao já longo vocabulário que fomos adquirindo com esta pandemia nos últimos meses. Há já algum tempo que alguns cientistas falam na importância do chamado “factor K”, que será capaz de reflectir de uma forma mais exacta o padrão heterógeneo da covid-19. O indicador K diz respeito ao factor de dispersão da infecção e está assente no princípio de que 80% das pessoas infectadas resultam de menos de 20% dos casos positivos. Se tivermos em conta este indicador, o rastreio aos contactos poderá incluir uma busca retrospectiva para encontrar um momento “superdisseminador” que faz com que os tais 20% existam. Porém, há quem acredite que já pode ser demasiado tarde para seguir este rasto.

Um dos aspectos da covid-19 que mais tem intrigado os cientistas tem que ver com o padrão heterogéneo desta infecção que afecta as pessoas de uma forma muito diferente, sem conseguirmos explicar claramente os motivos para estas distinções. Na dinâmica da infecção, alguns modelos têm recorrido ao indicador R, que nos dá uma média dos contágios que uma pessoa infectada estará a causar. No entanto, “o R parte do princípio de que todos transmitem da mesma maneira e isso não é verdade, porque nós não somos todos iguais em nada, nem a transmitir o SARS-CoV-2”, refere o pneumologista Filipe Froes. E conclui: “Daí a importância do factor K.”

Os cálculos deste indicador são complexos, mas a ideia subjacente é encontrar a origem de um surto, partindo do tal princípio de que 20% dos casos são responsáveis por mais de 80% das cadeias de transmissão. 

É por isso que, para além de R, os cientistas usam um valor chamado “factor de dispersão” (k), que descreve o quanto uma doença se agrupa. Quanto mais baixo for o K, mais transmissão vem de um pequeno número de pessoas. Ainda em Maio, uma notícia da revista Science já referia a importância do factor K. Para contextualizar, o artigo refere que numa investigação publicada na revista Nature em 2005 se estimava que noutros vírus, como o que surgiu em 2003 (o SARS)a superdifusão também desempenhou um papel importante – e que tinha um K de 0,16”. O K estimado para o coronavírus que causou a síndrome respiratória do Médio Oriente (MERS), em 2012, é de cerca de 0,25, e “na pandemia de gripe de 1918, o valor era de cerca de um, indicando que os aglomerados desempenharam um papel menos importante”.

“As estimativas de K para a SARS-CoV-2 variam”, prossegue o mesmo artigo da Science, adiantando que os cálculos iniciais pareciam indicar que o K para  covid-19 seria um pouco mais elevado do que para a SARS (em 2003) e o MERS (que surgiu em 2012). No entanto, num outro trabalho publicado sobre o mesmo tema, Adam Kucharski, da Escola de Higiene e Medicina Tropical de Londres, estimou que o K para covid-19 é tão baixo quanto 0,1. “Provavelmente, cerca de 10% dos casos levam a 80% da propagação”, diz Adam Kucharski, citado na notícia.

Certo é que o factor K confirma a desigual dispersão do vírus. Alguns investigadores afirmam que esta disparidade poderá estar associada às características de um indivíduo infectado (por exemplo, uma pessoa assintomática, mas com uma elevada carga viral) ou às condições de um evento em que as pessoas estavam mais vulneráveis. Provavelmente, serão as duas questões combinadas.

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Manuel Roberto

 A verdade é que a questão não é encontrar um culpado, mas um momento em que tenha ocorrido uma superdisseminação do vírus. E esta só pode acontecer com as condições adequadas para isso. Filipe Froes, coordenador do gabinete de crise covid-19 da Ordem dos Médicos (OM) e consultor da Direcção-Geral da Saúde, também concorda que para existir um evento superdisseminador não basta existir uma pessoa com determinadas características. O risco só existe quando este indivíduo se encontra – provavelmente sem o saber, até porque muitas das vezes está assintomático – numa situação que permita o contágio. Se uma pessoa infectada estiver em determinadas condições mais propícias à dispersão do vírus – seja um jantar, um casamento ou um coro de igreja –, podemos ter aí os episódios de “supertransmissão”. 

O já conhecido indicador R serve para nos mostrar a reprodução de um agente patogénico, oferecendo-nos uma média do contágio instalado na população em determinado momento (quando este valor se encontra acima de 1, isso significa que a infecção se encontra numa curva ascendente). O factor K dá aos especialistas algumas pistas sobre a dispersão do vírus, revelando se este se está a espalhar de uma forma mais ou menos uniforme, ou se está associado a picos ou surtos de infecção que mostrem claramente que num determinado momento uma pessoa infectou muitas outras ao mesmo tempo. Os vários meses de pandemia já revelaram que este problema se manifesta muitas vezes em surtos, como terá acontecido, por exemplo, no Norte de Itália com uma grande parte dos casos concentrados em apenas três regiões durante a primeira vaga. Porém, não se sabe porquê.

Quando uma pessoa recebe um resultado positivo num teste para o SARS-CoV-2, colocam-se várias questões. Uma delas visa esclarecer quando (e como) aquela pessoa foi infectada; importa também rastrear os contactos que teve depois disso, que passam a ser classificados como contactos de risco. Mas e se, em vez de o rastreio de contactos se centrar nos momentos pós-infecção, se investisse mais em tentar perceber onde, como e através de quem essa pessoa foi infectada? Alguns cientistas defendem que esta poderá ser uma importante ferramenta para quebrar a cadeia de transmissão e reduzir o número de casos.

A partir daí – se fosse possível identificar esse ponto crítico de contágio – seria necessário identificar o momento em que várias pessoas foram infectadas pelo mesmo indivíduo. Para alguns cientistas, a identificação destes eventos concretos que mostram ter gerado um número elevado de casos pode ser decisiva.

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João Coelho/Lusa

“Já estamos no factor Z”

A análise deste indicador (factor K) sugere que o rastreio poderia ser feito ao contrário do que é actualmente feito – ou seja, não seguir os contactos que uma pessoa infectada terá tido após as suspeitas (ou confirmação de infecção), mas, em vez disso, olhar para os contactos que teve antes disso com o objectivo de detectar a pessoa que o infectou e que pode (ou não) ter infectado muitas outras. E será que uma forma de rastreio tem de invalidar a outra? E será exequível pensar em fazer as duas, sobretudo tendo em conta a dificuldade que já é cumprir a “tradicional” fórmula de procura dos contactos pós-infecção. Certo é que alguns cientistas defendem que o rastreio retrospectivo pode ser mais útil para quebrar as cadeias de transmissão.

“As pessoas devem ter várias ferramentas e devem adaptá-las às situações, ou seja, não precisamos de substituir uma pela outra, mas saber quando devemos optar por procurar este momento superdisseminador”, responde Filipe Froes. A decisão cabe assim às equipas de saúde pública que, com os dados que possuem sobre uma determinada situação de contágio, devem optar (ou não) por fazer este rastreio retrospectivo à procura da sua origem e de um eventual momento “superdisseminador”. Não precisamos de substituir um rastreio pelo outro, argumenta o especialista, acrescentando que o rastreio em situações de surto pode beneficiar actualmente do importante recurso dos testes rápidos de antigénio que permite fundamentar e tomar decisões mais cedo.

Mas “agora é difícil”, admite Filipe Froes, que reconhece que talvez já seja um pouco tarde. “Somos vítimas das circunstâncias que criámos. Devíamos ter optimizado tudo antes de chegarmos aqui para evitar a situação actual, ou, pelo menos, atrasá-la o máximo de tempo possível. Agora não temos pessoas para fazer inquérito epidemiológico. Quando as tínhamos, devíamos ter feito o máximo possível para identificar os eventos e os indivíduos superdisseminadores, para assim evitar a propagação na comunidade. Agora está fora do controlo”, refere o especialista.

Agora temos de regressar ao básico. Às mascaras, isolamento, confinamento, distância e regras de higiene. “Agora temos de usar as armas que temos”, diz o especialista, que sublinha que não pode haver espaço para o cansaço e para a “fadiga” da população. Não nos podemos cansar disto. Não ao ponto de nos magoar tanto. E é por isso que conclui em jeito de desabafo: “O factor K é interessante, mas neste momento já estamos no factor Z – Z de fim do alfabeto.”

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