Opinião

Um Governo desorientado, que já não sabe o que fazer

Ninguém ignora ou subestima a complexidade da situação, mas a falta de foco, de direcção e até de motivação do Governo não é mais disfarçável.

1. É verdade que a crise sanitária e a crise económica que ela gerou são graves e sérias; mesmo muito graves e muito sérias. Nos momentos difíceis da vida dos povos, é fundamental que as lideranças políticas e, em especial, aquelas que assumem funções governativas, estejam à altura das responsabilidades. Infelizmente, desde o início do Verão, e a cada semana que passa, torna-se patente que o Governo e o primeiro-ministro estão profundamente desorientados, sem norte e sem rumo, sem verdadeiramente saberem o que fazer ou, até pior, o que lhes compete fazer. O PS e o seu líder António Costa mostram-se claramente esgotados, em pura e simples navegação à vista, sem qualquer capacidade para responder aos enormes reptos que lhes lança a difícil situação do país. Basta olhar para o modo como têm “gerido” a crise sanitária ou têm lidado com a matéria orçamental para nos apercebermos do estado de desagregação a que a governação do país chegou.

2. Comecemos pela crise sanitária. Logo em Junho e em Julho, tornaram-se amplamente visíveis os sinais de desorientação. Primeiro, a euforia despropositada com a organização das finais da Champions em Lisboa. Independentemente do acerto da decisão, o modo como o Governo quis “capitalizar” a iniciativa era já altamente revelador da falta de consciência e de noção dos tempos que atravessávamos e dos riscos associados. Depois, e seguramente mais séria, foi a desvalorização durante semanas sucessivas de Junho dos aumentos de casos então verificados à volta de Lisboa. Quis-se ignorar, depois relativizar, até finalmente ter de se reconhecer que havia mesmo um problema e que era preciso enfrentá-lo. Pelo meio, ficou também o coro “patriótico” sobre o fecho injusto de corredores turísticos e a perseguição a Portugal, que, valha a verdade, não tinha nenhuma razão de ser. Finalmente, houve um relaxe total quanto à preparação do Outono e da segunda vaga que muitos prognosticavam já como francamente provável. Atente-se na preparação tardia da reabertura imprescindível do ano lectivo em regime presencial. Atente-se ainda na forma como se desconsiderou a necessidade de organizar equipas para de rastreio dos surtos e das cadeias de transmissão. Nada se fez durante meses a esse respeito, quando essa precaução teria sido decisiva para evitar ou, ao menos, tentar evitar a reprodução exponencial de casos a que estamos a assistir. Já para não falar nas medidas – incluindo de recrutamento de pessoal – que as instâncias representativas dos profissionais de saúde se fartaram de recomendar. É suficiente a menção à carta dos bastonários da Ordem dos Médicos para perceber o alcance do que estava em jogo.

3. Como se isto não bastasse, o Governo e a Direcção-Geral de Saúde usaram e abusaram dos duplos critérios e dos paradoxos em que já tinham sido useiros e vezeiros na primeira vaga. Eventos de grande envergadura, em pleno crescimento do número de infecções, são generosamente permitidos; as regras ditadas ao cidadão comum são francamente restritivas. As celebrações de Fátima de 13 de Outubro e agora, muito mais escandalosamente, o Grande Prémio de Fórmula Um são exemplos claros de mensagens ambivalentes. Insisto no que aqui disse para a Festa do Avante!: mesmo que toda a segurança estivesse garantida, há uma questão de coerência da mensagem e de respeito pelo sacrifício de todos que deve prevalecer. Desde o início que defendo a abertura e o funcionamento gradualmente mais activo com regras de bom senso e de prudência. Mas é indispensável não enviar sinais equívocos ou errados. Uma coisa é garantir, até ao limite do possível, o normal funcionamento do ano escolar; outra, é incentivar grandes eventos desportivos. Uma coisa é a abertura cautelosa, muito comedida e com todas as garantias de segurança de espectáculos culturais e desportivos; outra é a autorização de grandes casamentos e festas privadas, em que a possibilidade de fiscalização e até de auto-controlo é diminuta. Também neste domínio, que é crucial para a redução do crescimento das infecções e igualmente decisivo no plano simbólico, o Governo tem falhado repetidamente e sem emenda.

Por mais conferências de imprensa que organize a ministra da Saúde e por mais entrevistas diárias a que se entregue o primeiro-ministro, torna-se cada vez mais claro que o Governo está perdido, que não sabe como actuar. Ninguém ignora ou subestima a complexidade da situação, mas a falta de foco, de direcção e até de motivação do Governo não é mais disfarçável.

4. A degradação da capacidade de liderança e de resposta do Governo documenta-se ainda na rábula que tem encenado em torno do Orçamento. A troca de acusações entre o Governo e o Bloco de Esquerda, numa altura como aquela que estamos a viver, é da ordem do lamentável. As manobras tácticas e as constantes declarações, incluindo do primeiro-ministro, de passa-culpas revelam uma forte “descolagem” da realidade. Enquanto os portugueses olham com grande apreensão para a situação económica, com o aumento do desemprego, o fecho de empresas e uma redução generalizada da actividade, Governo e Bloco entretêm-se em guerras de alecrim e manjerona. Não haja dúvidas de que o Governo e Costa escolheram muito consciente e até arrogantemente o seu caminho. Mas essa escolha e o modo como a levam avante traduzem também o grau de desgaste, de cansaço e de exaustão a que chegou a solução política protagonizada por António Costa. Quem o viu no domingo a comentar os resultados eleitorais nos Açores não pode ter ilusões: mesmo que não tenha disso viva consciência, o Governo já lançou a toalha ao chão.

5. Ora, um país, numa hora tão grave como esta, carece de uma liderança firme, de um projecto consistente, de uma entrega mobilizada. Não de conformismo gasto, não de falta de paciência e de determinação, não de ausência de motivação e de abnegação. Os sinos dobram; para grandes males, só grandes remédios.

SIM. José Manuel Bolieiro. Na liderança do PSD, foi o grande vencedor das eleições nos Açores. Credível, firme na oposição, sereno contra a demagogia, resistiu ao “abafamento socialista” e a ataques ignóbeis de carácter. É a voz e o rosto do futuro.

SIM.  Papa Francisco. As palavras sobre a aspiração familiar dos homossexuais têm o sentido profético de denúncia do sofrimento e de reconhecimento. Mais do que magistério, tradição ou doutrina, privilegia, na linha cristã das origens, a profecia da palavra e do exemplo.

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