Editorial

A “clarificação” da instabilidade política

Por muitas artimanhas que o PS tenha engendrado nos últimos anos, por muito que houvesse (e houve) falsas promessas, este era o momento em que os deputados do Bloco se deviam comportar como estadistas e não como líderes de uma associação de estudantes.

Logo a abrir o debate desta terça-feira sobre o Orçamento do Estado, o primeiro-ministro falou numa “votação da clarificação política”. Fez-se de facto luz sobre o momento político que o país vive e o que se iluminou está longe de ser auspicioso. Como se sabia desde que o Bloco anunciou o chumbo ao Orçamento na generalidade, o equilíbrio precário que sustenta o Governo de António Costa acabou. Como se suspeitava, o Governo perdeu a capacidade de manobrar à esquerda e, sem essa força, revela menos autoridade e capacidade de liderança. E, para sublinhar toda esta situação de fragilidade, o Orçamento vai passar nesta fase pelo milagre da abstenção de duas deputadas não inscritas. Se houve uma clarificação, foi uma clarificação do terreno minado que a instabilidade política prenuncia. No momento mais dramático da vida do país em décadas, o Parlamento pareceu uma associação recreativa.

Mas, se a imagem que os deputados estão a dar colectivamente raia a arrogância e a irresponsabilidade, há uns mais irresponsáveis do que outros. O Bloco de Esquerda é neste episódio campeão. O partido que andou anos a aprovar orçamentos do PS depois de tentar mudar a legislação laboral sem conseguir, depois de tentar travar financiamentos ao Novo Banco sem conseguir, decide partir a corda num momento crítico por não lhe darem o que nunca obteve. Se, apesar de todas as hipocrisias, tacticismos cínicos, operações de propaganda e acordos só em papel o Bloco aprovou cinco orçamentos à esquerda, ninguém consegue entender como é que vai chumbar o de 2021. Por muitas artimanhas que o PS tenha engendrado nos últimos anos, por muito que houvesse (e houve) falsas promessas, este era o momento em que os deputados do Bloco se deviam comportar como estadistas e não como líderes de uma associação de estudantes.

A clarificação destes dias não está por isso exposta no oportunismo predador do PSD, que esperou o momento mais frágil da sua presa para atacar, não está nem nos votos da direita, nem no calculismo inteligente e frio do PCP, nem sequer no esgotamento dos malabarismos negociais do primeiro-ministro: está na frivolidade do Bloco. Em poucas semanas, o melhor que a “geringonça” tinha para oferecer ao país e à Europa – o sentido de responsabilidade, o espírito de compromisso, o objectivo da estabilidade – desfez-se. O Bloco fragilizou-se ao querer impor a sua ideologia minoritária ao país e, por arrasto, acentuou a fragilidade do Governo. Um ciclo político está a chegar ao fim e tudo fica mais incerto, instável e inquietante – no momento em que o país mais precisava de fôlego para olhar para lá do que aí vem.

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