Análise

Precisa-se de videoárbitros exclusivos

Tem vindo a crescer por todo o mundo o rol de criticas às actuações do videoárbitro (VAR) e Portugal também não é excepção. Muito porque o protocolo limita, e de que maneira, a forma e o nível de intervenção, mas também porque quem faz de VAR se autolimita na sua própria actuação, escudando-se, sistematicamente, na questão do eventual erro cometido pelo árbitro em campo não ser “claro e óbvio”. Ora, isto continuará a ser assim enquanto forem árbitros no activo a fazerem de VAR, pois sabem que agora estão na sala, mas duas ou três semanas depois estão no terreno, cara a cara, com essas mesmas equipas, e também porque esta função exige uma especialização, uma formação e, sobretudo, uma exclusividade de função. Perante tudo isto, quanto mais se ficar em silêncio e menos se souber como é que o VAR comunica e intervém, maior será sempre o ruído e maior será a suspeição que recai em torno do sector de arbitragem, já por si tradicionalmente marcado pelo manto da dúvida, da suspeição e da obscuridade.

É por isso que uma das federações mais fortes, poderosas e inteligentes ao nível da organização e funcionamento, a federação alemã de futebol (DFB), criou uma conta no Twitter, que explica lance a lance as decisões do VAR na Bundesliga. Em situações cuja decisão demore mais tempo, a DFB publica em directo as imagens da sala do VAR com o som da comunicação entre árbitro e videoárbitro. Simples, fácil, eficaz, aberto, sem nada a esconder, elucidativo e, sobretudo, honesto, uma medida que defendo desde a criação do VAR. Assim haja coragem, bom senso e, sobretudo, visão e proactividade para que em Portugal se faça o mesmo, ou seja, agir e não reagir.

E, a propósito de VAR, nesta jornada o grande caso de jogo chega do Algarve. No primeiro minuto do Farense-Rio Ave, Ryan Gauld, chega claramente primeiro à bola, rematando e obtendo golo. O árbitro apitou antes do esférico entrar na baliza por considerar falta atacante sobre o guarda-redes vila-condense. Ora, as imagens são claras: não só não houve falta do jogador algarvio como foi o guardião dos forasteiros que, saindo em tesoura, fez, claramente, penálti.

Se no terreno de jogo e em movimento normal é fácil o árbitro errar na análise do lance – sei por experiência própria –, ter interrompido o jogo não esperando o finalizar do remate é um erro de palmatória, pois assim invalidou a possível intervenção do VAR a posteriori. Por coincidência, até houve um penálti claro e óbvio, o que dava uma “segunda vida” à intervenção do VAR, que, mesmo assim, não reverteu a falta atacante e o respectivo livre directo contra o Farense, naquilo que foi um muito claro e muito óbvio penálti a favor dos algarvios – o que seria um mal menor para evitar o que foi um golo limpo e legal.

No FC Porto-Gil Vicente, minuto 56, penálti bem assinalado a favor dos “dragões”, após intervenção do VAR. Aquando do remate de Baró, Nogueira, ao fazer uma rotação em torno de si próprio, abriu o braço direito de forma indevida, ganhando volumetria e interceptando a trajectória da bola. Minuto 26 e minuto 73, duas infracções cometidas por Zaidu que levaram à sua expulsão por acumulação de cartões amarelos: a primeira infracção sobre Lawrence e a segunda sobre Joel Pereira, tendo em comum o facto de ambas terem sido entradas negligentes e que cortaram ataques prometedores no corredor direito do ataque dos gilistas.

No Benfica-Belenenses SAD, foi legal o golo de Seferovic, pois o avançado “encarnado” saltou na vertical e o contacto da mão nas costas de Rúben Lima não foi faltoso, ou seja, não o empurrou nem tirou da possibilidade de disputar a bola. Ao minuto 35, golo bem anulado a Varela por estar adiantado em relação ao penúltimo adversário, assim como também ao minuto 65, por fora-de-jogo de 16cm, foi anulado o golo a Darwin.

No Santa Clara-Sporting foram pedidos três penáltis a favor dos “leões”, mas em todas as situações não houve motivo para tal, validando assim as boas decisões em campo do árbitro. Minuto 31, o contacto do braço de Mansur nas costas de Matheus Nunes, não foi suficiente nem teve a intensidade para impedir que o jogador “leonino” disputasse a bola. No mesmo minuto, é Nuno Santos que choca contra Cristian González, que, estando no coração da sua área, tinha a posição ganha por antecipação e não se movimentou para obstruir a passagem do seu adversário. Ao minuto 76, clara situação de bola que vai ao braço de Rafael Ramos, vinda de um ressalto do pé de Nuno Santos. Uma bola inesperada, de perto, que bateu no braço direito do jogador insular, que o tinha em posição normal e encostado ao corpo. Nos jogos que envolveram as ditas equipas grandes, os bons desempenhos das arbitragens foram mesmo a nota dominante.

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