A cegueira de Deus: crítica feita em 1995 ao Ensaio Sobre a Cegueira de José Saramago

A cegueira propaga-se como uma epidemia e o poder — discricionário e autoritário - isola os infectados no espaço fechado de um manicómio, que funciona como um “labirinto racional” — em contraponto, o resto do mundo é um “labirinto dementado”. Trata-se de uma alegoria — a cegueira que domina os homens e os priva da centelha da luz da razão; uma alegoria significa dizer uma coisa para significar outra. Uma história do sofrimento, sendo o romancista o seu arauto?

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José Saramago LR LUIS RAMOS - PòBLICO

Estamos habituados a dissociar “romance” e “ensaio” e o intitular um romance Ensaio sobre a Cegueira introduz uma dissonância geradora de perplexidade. No caso em apreço, sendo o autor do dito romance José Saramago, a perplexidade nem chega a instalar-se: antes que o eventual leitor depare, em alguma livraria, com o insólito título já foi bombardeado com todo o tipo de informação sobre o livro e tem quase a impressão que o leu, podendo, se quiser, dispensar-se da sua leitura sem incorrer no risco de ter que se abster de dar palpites sobre o seu eventual valor.