Três meses após a infecção, observou-se uma redução nos anticorpos

Dois estudos britânicos sugerem que a resposta imunitária ao vírus SARS-CoV-2 diminui nos três meses seguintes à infecção. Ainda que haja muitas incógnitas sobre a resposta imunitária ao novo vírus, o reforço da futura vacina pode ser necessário para uma protecção duradoura.

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SARS-CoV-2 ao microscópio NIAID

Mais conhecimento sobre a longevidade da resposta imunitária após a infecção pelo novo coronavírus SARS-CoV-2 é vital para compreender o papel dos anticorpos neutralizantes na eliminação da doença e na protecção contra uma reinfecção. Agora dois estudos britânicos apontam que a resposta imunitária ao novo coronavírus apresenta sinais de diminuição nos três meses seguintes à infecção.

Um dos estudos é do Imperial College de Londres, que já fez mais de 365 mil testes serológicos (para medir os anticorpos) a pessoas em Inglaterra, no âmbito de um estudo designado por REACT-2. Os resultados desde estudo que seguiu este grupo de pessoas entre Março e Setembro deste ano foram agora divulgados como pré-publicação – o que significa, ressalve-se, que ainda não foram publicados numa revista com avaliação prévia pelos pares.

Feita esta ressalva, o estudo noticiado pela agência Reuters concluiu que os anticorpos ao novo coronavírus da população britânica caíram rapidamente, o que sugere que a protecção contra a infecção pode não ser duradoura e levar ao declínio da ambicionada imunidade de grupo. Entre Junho e Setembro, a equipa do Imperial College relata que o número de pessoas em que os testes serológicos detectaram a presença de anticorpos para o vírus caiu 26%, passando de 6% no final de Junho para 4,4% em Setembro – um intervalo de apenas três meses.

Embora a imunidade ao novo coronavírus seja um assunto complexo – e seja composta por linfócitos B e linfócitos T dirigida já especificamente a um determinado agente patogénico para impedir a infecção –, os investigadores pensam que esta imunidade pode não ser duradoura e existe o risco de se contrair o vírus mais do que uma vez. De resto, é o que mostra a experiência que temos com outros coronavírus, nomeadamente aquele que provoca as constipações comuns.

“Pudemos ver os anticorpos a diminuir e sabemos que estes, por si só, são bastante protectores”, disse à agência Reuters Wendy Barclay, autora do estudo e chefe do Departamento de Doenças Infecciosas do Imperial College de Londres. “Em termos de resultados, diria que, com o que sabemos para outros coronavírus, parece que a imunidade diminui ao mesmo ritmo que os anticorpos diminuem e que isto indica uma decadência da imunidade ao nível da população”, acrescentou a investigadora.

Entre os doentes de covid-19 – cuja doença foi confirmada por testes de PCR (reacção em cadeia da polimerase), que detectam a presença de material genético do vírus no nariz e na zona da garganta –, a equipa do Imperial College verificou também um declínio menos pronunciado nos anticorpos, em comparação com pessoas assintomáticas e que, por isso, não souberam da sua infecção.

Este estudo corrobora os resultados de outras investigações semelhantes. Por exemplo, na Alemanha, refere ainda a Reuters, os cientistas descobriram que a grande maioria das pessoas não tinha anticorpos contra a covid-19, mesmo em zonas com focos da doença. Além disso, nas pessoas que tinham anticorpos contra o SARS-CoV-2, estas moléculas produzidas também pelo sistema imunitário poderiam também desaparecer.

Casos mais graves, resposta mais forte

O segundo estudo, liderado pelo King’s College de Londres, sugere que as pessoas diagnosticadas com os casos mais graves de covid-19 podem, por um lado, ficar protegidas por períodos mais longos do que aquelas que apresentam sintomas mais leves, mas por outro lado, tal como se verificou no estudo anterior, a resposta imunitária ao novo coronavírus também apresenta sinais de redução nos três meses seguintes à infecção.

Neste estudo, publicado esta segunda-feira na revista Nature Microbiology, a equipa de investigadores analisou mais de 250 amostras de soro sanguíneo (à procura de anticorpos contra o novo coronavírus) colhidas até 94 dias após o início dos sintomas em 59 doentes e seis profissionais de saúde da Fundação Guy e St. Thomas (em Londres) do Serviço Nacional de Saúde britânico. A infecção por SARS-CoV-2 destes doentes tinha sido antes confirmada por testes de PCR.

Tal como avança o artigo científico, à amostra foi atribuída uma pontuação de gravidade da doença com base no nível de apoio respiratório necessário durante o período de hospitalização dos doentes (de 0 a 5). Esta pontuação incluiu toda a amplitude da gravidade da covid-19, desde infecções assintomáticas ou sem necessidade de oxigénio suplementar (0) até às que requerem oxigenação por membrana extracorporal (ECMO, na sigla em inglês) – técnica de suporte vital mecânico, que utiliza um tipo de pulmão artificial para oxigenar o sangue – por insuficiência respiratória grave (5).

“A resposta de anticorpos atingiu o seu pico cerca de um mês após o início dos sintomas, antes de começar a diminuir. As pessoas com doença grave [entre o nível 4, com necessidade de ventilação pulmonar invasivo, e o nível 5] geraram a resposta mais forte dos anticorpos, e embora esta resposta tenha diminuído, os anticorpos neutralizantes ainda eram detectáveis mais de 60 dias após o início dos sintomas. As pessoas com doenças mais leves [entre o nível 0 e 3] também geraram uma resposta imunitária, mas foi menor e declinou para níveis de base”, refere-se em comunicado de imprensa.

Para obter uma melhor compreensão das respostas de anticorpos na infecção por SARS-CoV-2, os cientistas analisaram também amostras de soro sanguíneo, recolhidas entre Abril e Maio de 2020, de 31 profissionais de saúde da Fundação Guy e St. Thomas que tiveram testes serológicos positivos ao novo coronavírus. Isto indicava que tinham tido contacto com o vírus. As respostas de anticorpos nestes indivíduos foram semelhantes às dos indivíduos da amostra inicial que tiveram uma expressão leve da doença e, por isso, apresentaram uma resposta imunitária mais fraca.

“Os autores do estudo observam que as vacinas terão de gerar uma resposta imunitária robusta e duradoura semelhante à [resposta] gerada em pacientes gravemente doentes, e que poderão ser necessários reforços [da vacina] para proporcionar uma protecção duradoura”, aponta-se no comunicado sobre este segundo estudo.

Também Paul Elliott, director do estudo REACT-2 e investigador do Imperial College, defende a mesma ideia à BBC online, ainda que seja cedo para tirar já grandes conclusões. “A resposta da vacina pode ter um comportamento diferente da resposta à infecção natural.” Wendy Barclay, também do estudo do Imperial College, afirmou à Reuters que a redução nos anticorpos contra o vírus poderá não afectar a eficácia das vacinas contra a covid-19 actualmente em ensaios clínicos: “Uma boa vacina pode até ser melhor do que a imunidade obtida de forma natural.”

Texto editado por Teresa Firmino

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