Deixe de limpar as compras e concentre-se nos grandes riscos, dizem peritos

“É como estar no meio de uma auto-estrada movimentada com tráfego em redor e questionar: ‘Qual é a hipótese de eu ser atingido por um meteorito?’ Há uma hipótese, mas é bastante baixa”, afirmou o conselheiro de Anthony Fauci.

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“Não creio que seja necessariamente sensato estar a limpar as compras” ampueroleonardo/getty images

Apesar de estudos continuarem a mostrar que o novo coronavírus pode ser detectado em objectos contaminados após dias ou semanas, surgiu um consenso entre os cientistas de que o vírus raramente é transmitido através do contacto com essas superfícies — e que será seguro deixar de tomar medidas tão extremas, como colocar as encomendas de quarentena ou limpar as compras do supermercado com desinfectante.

“Tanto quanto sei, na vida real, cientistas como eu — epidemiologista e médico — e virologistas não se preocupam muito com estas coisas”, disse David Morens, conselheiro do director do Instituto Nacional de Alergias e Doenças Infecciosas dos Estados Unidos, Anthony Fauci.

A recomendação segue os conselhos do Centro de Controlo e Prevenção de Doenças (CDC) norte-americano, que actualizou o seu site para esclarecer que a “propagação a partir de contacto com superfícies não é uma forma comum” de transmissão.

Embora a investigação em curso pareça alarmante — tal como um estudo australiano, publicado a 7 de Outubro, que concluiu que o SARS-Cov-2 pode ser detectado em superfícies, como o vidro e o aço inoxidável, após 28 dias —, Morens disse que as pessoas não se devem preocupar.

Tais estudos “tendem a mostrar que, em condições experimentais, que não são condições do mundo real, o vírus pode persistir e nós podemos detectar essa persistência”, afirmou. Porém, acrescentou, isso não significa que o vírus poderá infectar qualquer pessoa. “A quantidade de vírus que pode persistir pode não ser a quantidade de vírus que o pode afectar num ambiente real.” No mundo real, o fluxo de ar, a luz solar e o calor actuam rapidamente para enfraquecer o novo coronavírus.

Stefan Baral, professor associado no Departamento de Epidemiologia da Escola de Saúde Pública Johns Hopkins Bloomberg, indicou que há uma grande diferença entre uma partícula viral ser capaz de sobreviver numa determinada superfície e a capacidade que um vírus tem de entrar numa membrana mucosa, atravessar essa membrana mucosa e ter sucesso a infectar alguém. “Uma única partícula viral tem uma ínfima probabilidade de provocar consequências graves”, disse.

Contudo, a confusão sobre o coronavírus em superfícies é compreensível, disse Angela Rasmussen, virologista do Centro de Infecção e Imunidade da Escola de Saúde Pública da Universidade de Colúmbia. “Os cientistas não têm feito um bom trabalho a explicar como se obtêm provas para diferentes tipos de transmissão ou diferentes vias de transmissão.”

A virologista disse que os epidemiologistas podem ter dificuldade em encontrar palavras comuns para descrever a transmissão de um vírus através de objectos ou superfícies contaminados, que são chamados fómites. No caso do novo coronavírus, isto deve-se em parte ao facto de a transmissão ocorrer frequentemente no contexto de grandes eventos, deixando os investigadores com dificuldades em determinar quem falou com quem e quem tocou em que superfície. “Não é de todo invulgar não ter fortes provas epidemiológicas de transmissão de fómites”, explicou, “mas isso não significa que a transmissão não aconteça”.

Na verdade, acrescentou, como sabemos que outros vírus respiratórios que são transmitidos por inalação, como a gripe e o rinovírus, também são transmitidos por fómites, é provável que o novo coronavírus também o seja. “Pode ser que esse não seja necessariamente o modo de transmissão dominante”, referiu. E embora possa ser importante para os investigadores determinar quanto tempo o vírus permanece com capacidade infecciosa em vários ambientes, quando se trata da vida quotidiana, Angela Rasmussen sublinhou: “Não creio que seja necessariamente sensato estar a limpar as compras.”

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Há uma grande diferença entre uma partícula viral ser capaz de sobreviver numa superfície e a capacidade que tem de nos infectar Kathrin Ziegler/Getty Images

David Morens concorda. “Há muita preocupação desnecessária com estas coisas”, afirmou. “É como estar no meio de uma auto-estrada movimentada com tráfego em redor e questionar: ‘Qual é a hipótese de eu ser atingido por um meteorito?’ Há uma hipótese, mas é bastante baixa, não tem outras coisas melhores com que se preocupar?”

Embora nenhum ambiente possa ser determinado como totalmente seguro, o conselheiro de Fauci diz que precisamos de pensar nas acções como sendo baixas, de médio ou de alto risco. O momento para se preocupar com superfícies contaminadas deverá ser num local com um número elevado de pessoas, todas a tocar nas mesmas superfícies. Como ilustração de uma área que representa um risco elevado, citou uma casa de banho pública ao lado de uma sala de espera de um aeroporto cheio de gente, onde, possivelmente, pessoas contaminadas possam ter tocado na maçaneta da porta, no interruptor de luz, no distribuidor de toalhas e na torneira. É uma situação em que se deve estar alerta, por exemplo, se ao lavar as mãos tocar novamente na torneira ou maçaneta da porta. Assim, de facto, pode acabar por contaminar-se.

A protecção não se ganha lavando tudo, indicou. “São os comportamentos que se adoptam para se certificar que nada no ambiente, incluindo as próprias mãos, entra na boca, nariz ou olhos.”

Esses comportamentos incluem nunca tocar em zonas acima do pescoço, usar máscara (o que também ajuda a lembrar que é fundamental não tocar no rosto), distanciamento social e higiene das mãos. Nesse caso, poderia até entrar num restaurante e tocar nos objectos — a cadeira, o menu — sem os limpar primeiro. E “se a última coisa em que toca é sabão e água ou desinfectante, está bem”, explicou Morens.

Stefan Baral, que tem insistido na reabertura dos parques infantis, disse que um dos factores que considera ao decidir se uma situação é de alto risco é o ambiente em que o vírus se pode encontrar. “Estes vírus não sobrevivem bem ao ar livre”, disse. O coronavírus gosta de estar rodeado de fluidos para o proteger, e os fluidos evaporam-se rapidamente no exterior — deixando o vírus vulnerável aos elementos. O professor observou que os parques infantis ao ar livre — historicamente não identificados como espaços de alto risco para outros vírus — não foram identificados como áreas de exposição comum para o novo coronavírus, meses após a pandemia, o que considera “impressionante”.

No entanto, Baral não sente o mesmo sobre espaços fechados. Pode haver ambientes interiores onde o vírus vive nas superfícies. Por essa razão, as pessoas devem lavar imediatamente as suas mãos assim que entram em casas vindas do exterior e desinfectar frequentemente superfícies comuns, tais como maçanetas de porta e torneiras.

Mas será que todos os desinfectantes utilizados para limpar as mãos e superfícies poderão estar a abrir caminho para vírus mais resistentes? Não, se estiver a usar sabão e água ou os produtos recomendados pela Organização Mundial de Saúde e pelo CDC, à base de álcool ou de lixívia — e não aqueles rotulados como antibacterianos, indicou Rasmussen. Os produtos antibacterianos são os que podem encorajar o desenvolvimento de micróbios resistentes — e não matam os vírus.

Sabão e água, álcool e lixívia, por outro lado, funcionam positivamente e matam muitas bactérias e vírus, referiu a virologista. Segundo Rasmussen, não há necessidade de ter produtos de limpeza antibacterianos em casa. “É lamentável que durante algum tempo tenham sido populares no mercado de consumo”, disse. “Pode usar sabão e outros tipos de desinfectantes que são mais gerais e que não estimulam a resistência.”

Para a virologista, é importante lembrar que “os vírus têm de ter um hospedeiro e não se podem replicar sem um”. “Portanto, o principal local que será a fonte de vírus em casa de qualquer pessoa serão as pessoas que nela vivem e não as superfícies ou o ambiente físico.”

“Mesmo que haja vírus em certas coisas (…), esse risco pode realmente ser mitigado ao lavar as mãos”, acrescentou.

Exclusivo PÚBLICO/The Washington Post

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