Primeiro dia do julgamento das casas de Pedrógão marcado por atrasos e por mais uma mudança de instalações

Primeira sessão sobre o processo de reconstrução das casas de Pedrógão ficou marcada por atrasos. Julgamento prossegue em Novembro, na Batalha.

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Valdemar Alves é um dos 28 arguidos Sergio Azenha

Pelas 9h30 desta segunda-feira, hora marcada para o início da sessão, o presidente da autarquia de Pedrógão Grande, Valdemar Alves, chegou a passo lento ao estacionamento em frente do auditório municipal de Pombal, espaço que serviu de palco à primeira sessão do julgamento das irregularidades na reconstrução das casas de Pedrógão. Neste processo, o autarca está acusado de 60 crimes, entre eles 20 de prevaricação de titular de cargo político, 20 de falsificação de documentos e outros 20 de burla. O seu ex-vice-presidente, Bruno Gomes, é outro dos arguidos de uma lista composta por 28 pessoas, desde acusados que terão beneficiado ilegitimamente de apoios para reconstruir casas a construtores civis.

Vestido de gabardine azul-escura comprida e de chapéu impermeável na cabeça, o autarca não quis falar lá dentro, mas falou à entrada, aos jornalistas. “É triste ver as pessoas que ficaram sem as suas casas estarem aqui sentadas como arguidas”, disse Valdemar Alves, seguindo uma linha que já tinha adoptado quando se tornaram públicas as primeiras denúncias sobre as irregularidades na reconstrução de casas. Excluindo as mortes deste cálculo, “aquele aparato todo da Polícia Judiciária (PJ) e do Ministério Público (MP)” em Pedrógão “foi mais aterrorizante do que propriamente os fogos”, disse o presidente. “Não tenho dúvidas disso”, fez questão de acrescentar.

Convicto de que se fará justiça, Valdemar Alves disse ter sido uma “péssima investigação feita pelo MP e pela PJ” e que “o tribunal vai ter ocasião de observar isso”. Este foi só “o primeiro dia de muitos dias” do julgamento, notou o autarca, e foi um primeiro dia em que os trabalhos não avançaram para lá da identificação dos arguidos. 

A pequena multidão que se reunia em Pombal, em frente do auditório que substituiu a sala de audiências por força do número de pessoas envolvidas no processo, teria ainda de esperar duas horas para que a presidente do colectivo de juízes, Cristiana Almeida, desse início à sessão. Nesse compasso, houve mesmo um agente da PSP a abordar arguidos e advogados para que mantivessem a devida distância.

A entrada no auditório, cujas condições se revelariam insuficientes para albergar tamanho julgamento, fez-se a conta-gotas: era preciso chamar e medir a temperatura a cada um dos 28 arguidos e dos mais de 20 advogados e ainda organizar a entrada de uma dúzia de jornalistas. 

Iniciada a sessão, sendo o primeiro arguido chamado para se identificar, Valdemar Alves levanta-se e dirige-se para a frente do palco. Mais um compasso de espera para os serviços do tribunal ajustarem o volume e, perante um certo desacerto do autarca, a juíza recomenda: “Não tire a máscara e vou pedir-lhe que não mexa no microfone.” 

“Pretende prestar declarações?”, questionou Cristiana Almeida. “Guardava para mais tarde”, responde Valdemar Alves. Como ele, também o seu antigo “vice” quis permanecer em silêncio. A maioria dos restantes arguidos — com a excepção de dois — viria a repetir a fórmula com maiores ou menores variáveis. 

Os dois únicos arguidos que se disponibilizaram para prestar declarações acabaram por não ser ouvidos nesta segunda-feira. Aproximavam-se as 13h e a sessão foi interrompida para almoço. De tarde também não haveria espaço para ouvir os arguidos. A comitiva judicial iria dirigir-se ao Expo-Salão da Batalha, outra localização que os serviços do tribunal tinham identificado como tendo “área maior e melhores condições de trabalho”, informou a presidente do colectivo de juízes. Este é um dos três espaços (juntamente com os auditórios municipais de Pombal e da Batalha) identificados pelo Tribunal da Comarca de Leiria para acolher sessões que envolvam grande número de intervenientes e é lá que vai continuar o julgamento, a 16 de Novembro. 

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