Opinião

Vinte anos depois, Macron interpela a nação islâmica

A estratégia de islamização da Europa enunciada há 20 anos em Doha terá saído vencedora, se o discurso de Macron tem fundamento na realidade que se vive hoje em França.

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LUDOVIC MARIN/epa

No passado dia 2 de Outubro, Emmanuel Macron, Presidente da República Francesa, apresentou aos franceses o seu “plano de accão contra o separatismo islâmico” num discurso que se afigura de grande alcance para o futuro da Europa no seu conjunto. O excesso da informação covid terá abafado a sua mensagem, pelo que parece oportuno explicitá-la e enquadrá-la, partindo bem detrás.

Em 2000 foi aprovada numa Cimeira Islâmica em Doha um documento com o título “Strategy of Islamic Cultural Action in the West”, no qual se definem os planos para tornar esta estratégia frutuosa, e onde se lamenta, e se deseja ver corrigida, a má imagem que se criou do Islão, identificando-o sempre com os seus elementos mais radicais. A verdade é que passadas duas décadas, do ataque às Torres Gémeas à luta pela instauração de um Estado Islâmico no Médio Oriente, passando por tantos atentados mortais na Europa, essa imagem dificilmente poderá ser corrigida, não se tendo verificado da parte dos responsáveis islâmicos uma denúncia pública, sistemática, desses actos, sempre que são replicados.

O documento foi divulgado pela Organização para a Educação, a Ciência e a Cultura Islâmica, ISESCO, sigla claramente inspirada pela da UNESCO, que tem os mesmos objectivos, mas à escala universal, sem exclusões. A organização reúne mais de 50 países, incluindo a Guiné-Bissau. Tem sede em Marrocos, é financiada pela Arábia Saudita, pela Jordânia e por Marrocos, e era presidida, na altura da divulgação do documento, por uma personagem proeminente da sociedade saudita, Abdulaliz Othman Altwaijri. Hoje dirige-a um outro cidadão saudita.

Em linhas gerais, a estratégia resume-se ao reforço da implantação da “nação islâmica em toda a Europa”, à oposição enérgica à integração das comunidades muçulmanas nos países europeus que as acolhem, no desejo que essas comunidades sejam autónomas, mas influentes para proveito próprio nessas sociedades, através de uma táctica que num tempo se chamava o entrismo, ou infiltração, visando uma plena inserção da “nação islâmica” nestes territórios, opondo-se frontalmente ao que denominam a dessacralização do Ocidente, que seria necessário corrigir através da acção das referidas comunidades. A educação das novas gerações é considerada a arma necessária e indispensável para atingir estes fins. A acção cultural é definida como um acto de devoção (pág. 8) com vista à preservação da superioridade espiritual e moral do Islão (pág. 9). O texto integral pode ser consultado na net, também em francês, mas algumas citações podem já elucidar sobre os seus propósitos:

– Apesar da filosofia positivista e a inclinação herética estarem enfraquecidas no Ocidente, persiste uma forte tendência para eliminar a sacralidade e para reduzir a religião a um simples “facto pessoal”. (Pág. 12)

– Embora seja difícil escapar às actuais pressões da globalização, é possível criar uma contra-corrente para enfrentar o espírito de domínio que caracteriza a globalização, oferecendo a alternativa de uma teoria, de um sistema e de uma prática capaz de enfrentar as suas repercussões. Esta via seria operacional enquanto não emerge um novo poder mundial que se oponha ao poder agora dominante, ou pelo menos um novo poder que se lhe oponha com armas iguais [O itálico é uma citação de um texto de Abdessamad Benkiran]​. (Pág. 15)

– Esta estratégia deve ser endereçada à criação das condições necessárias para que indivíduos das comunidades muçulmanas ocupem posições-chave nas sociedades que as acolhem, nos sectores económico, cultural, político e da informação. (Pág. 16)

– A actividade cultural islâmica na Europa é consentida desde que não proporcione modificações na estrutura da sociedade e somente apenas quando não proporcione a emergência de um sistema político islam-oriented [não encontro locução portuguesa que melhor exprima o sentido]; ou de um corpo religioso cuja última palavra pertencerá a quem detenha as rédeas da soberania. (Pág. 23).

Terá assim ficado ilustrado o espírito de conquista desta estratégia de islamização da Europa, ou seja, a da criação de enclaves próprios, refractários às leis de cada país em que se enraizaram comunidades islâmicas. Estratégia vencedora, se o discurso de Macron tem fundamento na realidade que se vive em França, 20 anos depois de ela ter sido enunciada.

Disse Macron: “O que devemos combater é o separatismo islamista. É um projecto consciente, teorizado, político-religioso, que se manifesta através de descaminhos repetidos dos valores da República, que se traduzem frequentemente na constituição de uma contra-sociedade e cujas manifestações são a descolarização das crianças, a promoção de práticas desportivas, culturais, comunitárias que são pretexto para o ensinamento de princípios contrários às leis da República.”

Segundo Macron, esta estratégia do islamismo radical “exprime uma vontade declarada de infringir metodicamente as leis da República e de criar uma ordem paralela, desenvolver num primeiro tempo uma sociedade separatista, mas cujo objectivo final é o controlo completo.”

Macron preconiza diversas medidas para atenuar o mal já feito, nomeadamente diminuindo ou proibindo as infiltrações estrangeiras transmitidas por imãs radicalizados, controlando a entrada de fundos provenientes de países muçulmanos para financiar os objectivos do Islão radical, etc. Em Dezembro, o Governo produzirá orientações concretas para levantar uma contra-estratégia anti-islamista.

Ao mesmo tempo que afirma os direitos e os valores democráticos do Estado laico que a França é, lembra que todas as religiões são aceites na sua expressão de crença individual, desde que não ofendam esses valores, e que todos os cidadãos são iguais perante a lei e têm os mesmos deveres. Macron ressalva que nem todos os muçulmanos são radicais, embora o seu discurso só tenha razão de ser em função de uma radicalização crescente. Do mesmo modo que o documento islâmico que se citou não explicita tudo, deixando entrelinhas que os fiéis saberão ler, também Macron, para não alarmar a população, terá deixado de fora muitas informações que os Serviços de informação lhe terão transmitido e o levaram a fazer uma intervenção enérgica.

Em imediata resposta a Macron, o principal dirigente da Irmandade Muçulmana, Ibrahim Mounir, proclamou no Cairo que as “leis de Alá são superiores às da República”. Qualquer comparação “entre o pensamento e os princípios do Islão, e a intensidade da devoção dos seus partidários, e a realidade e a história dos herdeiros da revolução francesa seria desfavorável aos herdeiros dessa revolução”. Herdeiros que, como Macron, exaltam os princípios da Liberdade, da Igualdade e da Fraternidade.

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