Opinião

Sensibilidade e bom senso

São frágeis os argumentos usados tanto pelos que defendem a obrigatoriedade do uso do StayAway Covid como pelos que temem os riscos para a privacidade. Como em tantos outros casos, estamos perante uma situação onde não existe nem a desejada sensibilidade (do sistema) nem o esperado bom senso (das pessoas).

Ao contrário do que se possa pensar, a sensibilidade não é uma característica unicamente humana. Pelo contrário, a sensibilidade é uma das características mais importantes de diversos testes, equipamentos e processos e define-se como a fracção de casos positivos que são devidamente identificados. Para usar um caso concreto, a sensibilidade de um teste RT-PCR para covid-19 situar-se-á entre os 70 e os 98%, dependendo de várias circunstâncias. A sensibilidade é uma característica chave de qualquer teste porque a diferença entre esta métrica e 100% corresponde à fracção de falsos negativos, neste caso a percentagem de pessoas que, tendo covid-19, não são devidamente identificadas. Existem várias razões para que este teste falhe quando aplicado a um portador da doença: baixa concentração de RNA do vírus na amostra, erros no processo de recolha e problemas no processo de amplificação do DNA, entre outras.

No mundo real, nenhum teste é perfeito, pelo que a sensibilidade de um teste é, na prática, sempre inferior a 100%. Não será possível aumentar a sensibilidade de um dado teste, por forma a aproximá-la do valor ideal de 100%? A resposta é que, em princípio, sim. Uma solução trivial, mas inútil, seria assinalar todos os casos como positivos, obtendo assim uma sensibilidade de 100%. Mas o aumento da sensibilidade tem quase sempre um custo, que é a redução de uma outra característica muito importante do teste, a sua especificidade. Em qualquer teste, quando se aumenta a sensibilidade, existe tendência para reduzir a especificidade, que é definida como a fracção de casos negativos que testam negativo. Em geral, um teste menos específico produz de facto menos falsos negativos (tem maior sensibilidade) mas gera mais falsos positivos (menor especificidade). No caso do covid-19, a especificidade do teste de RT-PCR aproxima-se dos 99%, mas problemas de contaminação ou outras falhas no processo podem reduzir este valor.

Os conceitos de sensibilidade e especificidade são relevantes em diversas escolhas que indivíduos e instituições fazem todos os dias. Tomemos o exemplo da tecnologia Bluetooth Low Energy (BLE), usada na aplicação StayAway Covid, para monitorizar, continuamente, pares de telemóveis que estão próximos, identificando assim possíveis vias de contágio por covid-19. A acesa discussão que se levantou à volta desta tecnologia centrou-se, essencialmente, em variantes do seguinte dilema: deve-se tornar obrigatória a utilização de uma aplicação que permite parar a propagação do vírus, mas compromete a privacidade das pessoas que a usam? A verdade é que a tecnologia não é nem uma panaceia nem uma ameaça relevante à privacidade.

A tecnologia não é uma panaceia porque, embora útil, não pode identificar todas as ocorrências de propagação do vírus, mesmo que devida e extensivamente usada. Para além de outras razões de ordem prática, o já referido compromisso entre sensibilidade e especificidade impede na prática que a aplicação seja 100% eficaz. Neste caso, a sensibilidade define-se como a fracção de transmissões (do vírus) que são identificadas como tal pela aplicação. Esta percentagem está, necessariamente, muito abaixo dos 100%, porque a aplicação não sabe se duas pessoas têm ou não máscaras, porque pode existir um vidro entre elas, porque mesmo em idênticas condições a transmissão pode ou não acontecer, e também porque a tecnologia BLE permite determinar apenas aproximadamente a distância entre dois aparelhos. Na prática, não é possível determinar o real valor da sensibilidade do sistema porque não é possível realizar testes laboratoriais, concludentes, que a determinem. Os investigadores do INESC-TEC, a unidade do grupo INESC que desenvolveu esta aplicação, afinaram o algoritmo de detecção por forma a conseguirem a máxima sensibilidade sem, no entanto, ficarem com uma especificidade tão baixa que levasse o sistema a emitir muitos falsos alarmes, que tornariam o sistema inútil (falsos positivos). A escolha de um adequado compromisso entre a sensibilidade e a especificidade ajuda a tornar a aplicação útil na redução da taxa de propagação, mas não garante eficácia total.

Também é exagerada a preocupação com a privacidade. A referência internacional que foi usada para desenvolver a aplicação (DP-3T – Decentralized Privacy-Preserving Proximity Tracing) foi desenvolvida exactamente com o objectivo de garantir que não é possível construir uma base de dados centralizada com a informação recolhida pelos telemóveis. Toda a informação de proximidade entre telemóveis é mantida apenas nos dispositivos, e não é guardada em qualquer base de dados central, o que torna praticamente impossível qualquer invasão da privacidade. Escusado será dizer que existem riscos muito maiores para a privacidade quando se usam outros serviços ou aplicações, tais como a via verde, as redes sociais, a navegação automática ou os mapas nos telemóveis.

São assim frágeis ambos os argumentos usados nesta acesa discussão, tanto pelos que defendem a obrigatoriedade do uso do StayAway Covid como pelos que temem os riscos para a privacidade. Como em tantos outros casos, estamos perante uma situação onde não existe nem a desejada sensibilidade (do sistema) nem o esperado bom senso (das pessoas).

Curiosamente, o conceito de sensibilidade é também útil quando aplicado a processos mais complexos. Qual é a sensibilidade da metodologia global que tem sido usada para identificar os portadores de covid-19? Quantos casos foram detectados, do total existente? Não sabemos, mas existem indicadores que foi, nos primeiros meses da pandemia, muito baixa. Um estudo publicado pelo Economist, no passado mês de Setembro, estimou o número total de pessoas infectadas por covid-19 em todo o mundo, extrapolando os resultados de 279 estudos de seropositividade, realizados em diversos países. O estudo do Economist concluiu que, à data de 15 de Setembro, o número total, cumulativo, de infectados no mundo inteiro se situava entre os 500 e os 730 milhões de pessoas. Este valor surpreende porque é muito maior que o número oficial de 32 milhões de casos reportados pela Organização Mundial da saúde a essa data, mas é coerente com a estimativa recente desta organização de que já existem globalmente mais de 700 milhões de infectados.

O Economist tornou públicos os dados e o código usados, o que permitiu determinar que, de acordo com o modelo, Portugal teria em 15 de Setembro mais de 800.000 infectados, um valor mais de dez vezes superior à estatística oficial, que, à data, incluía apenas cerca de 65.000 casos. Isso representa, na prática, uma sensibilidade muito baixa do processo de teste, de cerca de 7%. O modelo estima, embora com margens de erro significativas, que na Primavera, no pico da primeira vaga, tenham ocorrido em Portugal mais de 28.000 novos casos por dia, dos quais foram contabilizados oficialmente menos de 10%.

Felizmente, a muito maior capacidade de teste instalada permite que a sensibilidade do processo seja, agora, muito superior, o que significa também que, por comparação com a vaga que ocorreu na Primavera, a situação poderá não ser ainda tão dramática como os números parecem indicar. É fundamental aliar a sensibilidade para as limitações dos sistemas hospitalares a uma grande dose de bom senso, que permita manter os hospitais e a sociedade em geral a operar com alguma normalidade.

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