Está a surgir uma rede para cuidar de pessoas em “total abandono”

Projecto-piloto nas Avenidas Novas deverá culminar, em 2021, com a criação de uma bolsa de voluntários para serem cuidadores. Coordenadora diz que “o confinamento veio piorar” a situação de muitos.

Estima-se que em Lisboa vivam 30 mil idosos sozinhos
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Estima-se que em Lisboa vivam 30 mil idosos sozinhos Nelson Garrido

Na Lisboa que todos os dias se enche de gente, as paredes escondem a solidão. “Temos muitas pessoas adultas em situação de total abandono”, resume Paula Guimarães. Idosos ou pessoas com algum tipo de deficiência, multiplicam-se as histórias de quem depende do cuidado de outros para sobreviver – e há casos que permanecem ocultos.

O grupo de missão “Cuidadores das Avenidas”, que está a dar os primeiros passos, nasceu para apoiar cuidadores e cuidados. Centrado na freguesia das Avenidas Novas, o projecto surgiu por iniciativa dos vereadores do CDS na Câmara de Lisboa e pretende-se que dê origem a “um modelo disseminável a outros territórios”, explica Paula Guimarães, coordenadora do grupo.

O objectivo último é a “criação de uma rede de cuidadores informais e voluntários” capaz de acorrer a todas as situações de necessidade, afirma, mas para já a ideia é “apoiar aquilo que já existe”. Ou seja, identificar as pessoas que já prestam cuidados a familiares, tal como definido no estatuto do cuidador informal, e disponibilizar-lhes o auxílio de que precisem: jurídico, psicológico ou lúdico, por exemplo.

“Quando ajudamos os cuidadores estamos também a ajudar as pessoas cuidadas”, sublinha Paula Guimarães. Com uma carreira profissional ligada à acção social, a coordenadora refere que “as pessoas cuidadas são muito invisíveis, mas também os cuidadores se vão fechando na sua bolha” e que “o confinamento veio piorar a situação”.

Partindo do diagnóstico da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa, que com o seu projecto Radar já identificou milhares de idosos sozinhos na cidade, o grupo quer sentar à mesma mesa as instituições que já andam no terreno e pô-las em contacto com a câmara, com a Junta das Avenidas Novas e, sobretudo, umas com as outras, para optimização dos recursos. As primeiras reuniões decorreram este mês. “Tivemos um óptimo acolhimento das entidades e vamos arrancar já na próxima semana com acções de capacitação dos profissionais destas instituições”, diz Paula Guimarães.

A esta primeira fase do projecto deverá seguir-se a da identificação de pessoas em situação de isolamento social que ainda não tenham apoio. E, por fim, a identificação de cidadãos disponíveis para serem cuidadores. Em ambos os casos pretende-se que haja “um movimento voluntário”, em que é a própria pessoa a disponibilizar-se. Até porque, sublinha Paula, as situações de isolamento são muitas vezes conotadas com pobreza, mas nem sempre é essa a realidade.

Daí que, para a responsável, seja “entusiasmante” trabalhar nas Avenidas Novas, que “é uma espécie de mini-cidade em que se encontram pessoas de todos os perfis”. Com mais de 20 mil moradores, a freguesia é uma das zonas de habitação mais nobres da capital, onde reside uma grande parte da classe alta e média-alta de Lisboa, mas onde também existem bairros sociais. “É bastante diversa na sua composição social e já tem uma rede de instituições e empresas de economia social, além de uma junta bastante activa do ponto de vista social”, resume Paula Guimarães.

A identificação de voluntários disponíveis para serem cuidadores, incluindo pessoas que não são contempladas no estatuto do cuidador informal aprovado pelo Parlamento no ano passado, deverá estar concluída até ao final do primeiro trimestre de 2021. O passo seguinte vai depender da evolução da pandemia, porque com a covid-19 não é desejável expor idosos ou outras pessoas vulneráveis à presença de estranhos. Ainda assim, algum trabalho pode e vai ser feito à distância.

No final de todas as etapas, os resultados do projecto-piloto vão ser apresentados à Câmara de Lisboa e determinarão se ele se estende, ou não, ao restante concelho.

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