Reportagem

Fórmula 1: o balão de ensaio que pôs à prova uma “organização desorganizada”

Duas centenas de espectadores, com bilhete na mão, perderam mais de meia hora de prova. Segurança sanitária nas bancadas também não ficou isenta de falhas.

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Mais bilhetes vendidos do que lugares disponíveis, esta poderá ser uma das explicações para a confusão ocorrida ontem, na porta de entrada n.º 2 do Autódromo Internacional do Algarve. “Tenham calma”, pedia o agente da GNR. As pessoas começavam a aglutinar-se, queixando-se: “Se venderam mais bilhetes do que lugares disponíveis, a organização tem de ser responsabilizada”, atirava Nuno Almeida, reclamando o reembolso dos 500 euros pagos por três ingressos. Outros espectadores, impedidos de entrar, exigiam explicações.

O Grande Prémio de Portugal em Fórmula 1 já decorria há um quarto de hora. Cerca de duas centenas de pessoas, de bilhete na mão, esperavam para entrar. Lá do alto, no helicóptero da Protecção Civil a sobrevoar a pista, a directora regional de saúde pública, Ana Cristina Guerreiro - acompanhada do comandante Vaz Pinto -, dava instruções para que fossem cumpridas as regras de segurança da Direcção-Geral da Saúde, mas, aparentemente, não havia condições. 

Nas bancadas, logo que a prova começou, pelas 13h10, instalou-se a confusão. Em muitos casos, o distanciamento social não foi respeitado e muitos espectadores estavam de pé. Um dos militares da GNR, de serviço na entrada nascente, questionado pelo PÚBLICO, justificava o impasse: “A senhora ministra da Saúde [leia-se directora regional da saúde] pediu para aguardar.”  Nuno Almeida, de Lisboa, protesta: “No mínimo, vou exigir a devolução do valor dos bilhetes, já para não falar das despesas do hotel e da deslocação.”

O grupo agita-se à medida que o eco do “roncar” dos motores se faz ouvir no exterior do circuito. A autoridade renova o pedido de compreensão: “Tenham calma, a porta vai abrir-se.” Decorrida mais de meia hora desde o início da corrida, pelas 13h33, abre-se, finalmente, a cancela. Entra toda a gente, ao molho e fé na sorte, com ou sem bilhete. 

“Agora, até se podia entrar aqui com armas”, comenta um espectador, dirigindo-se a um elemento da GNR, de cabelos grisalhos. O guarda não respondeu, mas a seguir desabafou: “Nunca vi, na minha vida, uma organização tão desorganizada”. Por fim, a explicação dada ao PÚBLICO pela GNR foi que, no princípio da prova, havia muita gente de pé nas bancadas, mas à medida que se foram sentando, a coisa ficou mais ou menos arrumada e chegou ordem da DGS para abrir a porta. 

“Quatro quilómetros a pé”

Do lado do topo Norte da autódromo, no exterior, outra trapalhada para a polícia resolver. Uma  carrinha da Unidade de Intervenção da GNR estava destacada para garantir a ordem, mas outras ocorrências sucederam que obrigaram à sua deslocação para outro local. Um dos elementos deste corpo policial foi mobilizado para controlar os “mirones”,  empoleirados no morro ali mesmo ao lado, com vista geral para a prova. “Eh, pá, daqui, até se vê melhor que lá dentro, e é de borla!”, exclama um dos privilegiados. 

Aproxima-se Vítor Moura, passando a mão pela careca. O guarda barra-lhe a entrada, alegando que estava esgotada a capacidade do lugar, porque já lá se encontrava mais de uma centena de pessoas, quase coladas umas às outras. Quando se perguntava porque estavam tão próximos, a resposta era automática: “Somos da mesma família.”  
Vítor Moura, residente em Albufeira, não desiste. “Vou tentar noutro sítio”, confidencia, dizendo conhecer as escapatórias da zona. “Cheguei cá pelas estradas do interior, mesmo assim apanhei uma fila com seis quilómetros. Andei três ou quatro quilómetros, a pé, para aqui chegar.” 

Cândida Dias recorda tempos passados, quando o autódromo do Estoril marcava presença nas provas de motociclismo. Chegou de Braga, viu no sábado o sol a brilhar, mas acordou no dia seguinte em Albufeira, com o céu carregado de nuvens. O que não estava à espera, conta, era dos engarrafamentos de trânsito. “No sábado levámos duas horas para sair do autódromo”, recorda. Por isso, ontem a família optou por se deslocar de autocarro.

Quem ficou a ver o espectáculo fora das bancadas foi Carla Brás, de Portalegre. “Não sou muito adepta da modalidade”, confessa. A deslocação ao Algarve foi mais um pretexto para umas “férias cá dentro”. Ontem de manhã, quando  saiu com os familiares da praia do Vau, pelas 9h, perguntou:  “Porque é que vão tão cedo?” Por fim, acabaria de concluir que eles tinham razão: “O trânsito está um caos”, criticou, adiantando que para fazer um percurso de cerca de oito quilómetros gastou duas horas. Ao final do dia, em comunicado, a GNR reconheceu terem-se registado “alguns constrangimentos no acesso ao autódromo”.  

“Onde está o meu carro?”

A corrida de Ricardo Silva começou logo pela madrugada -  partiu de Sesimbra às 5h30 para tentar assistir ao Grande Prémio de Portugal, montado numa moto de 600 centímetros cúbicos. “Terminada a prova, regresso a casa”, diz o funcionário público,  47 anos,  declarando-se “fã dos desportos motorizados e futebol”. Sentado nos degraus da escadaria de acesso ao restaurante do autódromo, toma “um pequeno-almoço reforçado” para que o estômago “não comece a dar horas” no auge da prova. Na mochila, trazia a refeição completa, mas não pôde entrar com comida e bebida. “Só uma garrafa de água, desde que fosse com a tampa aberta”, informaram. Por outro lado, também surgiu no posto local da GNR uma jovem a queixar-se dos preços no interior do autódromo: “Por duas sandes e duas águas, paguei 20 euros.” 

Fora do circuito, as viaturas ficam estacionadas a umas boas centenas de metros, mas não se ouvem queixas. À saída, porém, não faltaram automobilistas de pescoço esticado, a perguntar: “Onde está o meu carro?”. Os parques de estacionamento com milhares de viaturas não estavam sinalizados.  

A realização deste evento internacional tinha, também, como pretexto ajudar a minimizar o impacto da covid-19 no turismo algarvio. E havia opções para todas as bolsas: o casal Ricardo e Madly Flores optou pelo hotel Conrad, na Quinta do Lago, e pagou 800 euros por três noites; António Cruz optou por ficar em Alvor, desembolsando 73 euros/dia, em regime de tudo incluído. Que tipo de efeitos terá esta competição num sector que, dizem os empresários, “passa por uma das maiores crises de sempre”? Nos próximos dias haverá tempo para um balanço.

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