Editorial

A melhor prova do pudim é comê-lo até ao fim

Se a melhor prova do pudim é comê-lo até ao fim, este ainda é o tempo de Jerónimo. O próximo secretário-geral terá vantagens estratégicas de entrar em funções num ciclo político diferente.

Jerónimo de Sousa é secretário-geral do PCP desde 2004: há 16 anos, portanto. E deverá ser reeleito no próximo congresso dos comunistas, marcado para o próximo mês, como escreve a São José Almeida nestas páginas. É possível que cumpra o mandato por inteiro, que no PCP equivale a quatro anos. Quando sair da liderança, terá 20 anos no cargo de secretário-geral — mesmo assim, bastante menos do que os 31 anos de Álvaro Cunhal (1961-1992) à frente do PCP.

É a melhor solução para os comunistas, porque não vai ser fácil substituir Jerónimo, que sempre conseguiu manusear a famosa cassete com uma autenticidade particular que o tornou uma figura carismática mesmo fora do seu partido.

Numa altura como esta — em que o número das reuniões preparatórias do congresso diminuiu por causa da covid-19 e o PCP funciona em esquema de “centralismo democrático” —, tomar a decisão de remover Jerónimo seria difícil. Já há quatro anos isso tinha sido tentado, mas Jerónimo não quis sair. Nem parece que o quisesse agora: está aí para as curvas, foi o próprio a dizê-lo.

Como disse Jerónimo no debate pré-eleitoral com António Costa, há perto de um ano, “a melhor prova do pudim é comê-lo”. Referia-se ao que tinha sido alcançado com a “geringonça” e, provavelmente, a prova do pudim continua a valer para a anunciada abstenção no Orçamento do Estado, em que o PCP já conseguiu que o Governo acolhesse algumas das suas propostas.

É verdade que o PCP foi penalizado nas eleições legislativas: perdeu cinco deputados e ficou com 6,46%, com o arqui-rival Bloco de Esquerda a conseguir 9,67%, pouco abaixo dos 10% de 2015. Em 2015, o PCP tinha obtido 8,2%. A “geringonça” foi pior para o PCP do que para o Bloco.

Mas as coisas seriam diferentes sem Jerónimo? É duvidoso. Para já, não existe um herdeiro natural e consensual. João Ferreira terá agora a sua prova dos nove na candidatura presidencial, mas é importante registar que João Ferreira não faz parte da comissão política, e até hoje nenhum secretário-geral do PCP foi “recrutado” fora dela. Talvez neste congresso João Ferreira dê entrada na comissão política e alcance o cargo institucional dentro do partido para além de candidato-a-tudo.

De qualquer forma, a melhor prova do pudim será comê-lo até ao fim. Jerónimo foi quem deu a cara pela solução das “posições conjuntas” que redundou na “geringonça”, e agora foi à Festa do Avante! dizer que “o PCP conta” nas negociações para o Orçamento do Estado e dá a cara pelos acordos em curso.

Se a melhor prova do pudim é comê-lo até ao fim, este ainda é o tempo de Jerónimo. O próximo secretário-geral terá vantagens estratégicas de entrar em funções num ciclo político diferente.

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