Apoiantes da proposta de emenda dizem que produtos vegetarianos com nomes de produtos com carne confundem consumidores
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Apoiantes da proposta de emenda dizem que produtos vegetarianos com nomes de produtos com carne confundem consumidores Nelson Garrido

Hambúrguer vegetariano mantém-se como hambúrguer, mas alternativas a lacticínios precisam de novos nomes

Parlamento Europeu aprovou esta sexta-feira proposta que proíbe designações como “alternativa 100% vegetal ao iogurte” ou “alternativa vegetal ao queijo”. Associação Vegetariana Portuguesa diz que medida é “supérflua” e prejudica empresas e consumidores. Proposta ainda pode ser alterada pelo Conselho da União Europeia.

Há diferenças óbvias entre produtos animais e produtos vegetarianos, mas o debate sobre se um hambúrguer vegetariano é mesmo um hambúrguer tem-se pronunciado entre quem come carne e quem decidiu tornar-se vegetariano, com os produtos à base vegetal a tornarem-se cada vez mais populares. Na manhã desta sexta-feira, 23 de Outubro, o Parlamento Europeu pôs o assunto em cima da mesa.

A proposta de emenda de uma das disposições do regulamento da Política Agrícola Comum (PAC) que procurava substituir nomes de produtos como “hambúrgueres vegetarianos” e “salsichas vegetarianas” foi chumbada.

No entanto, outra proposta sobre produtos que substituem lacticínios, como “estilo iogurte”, “alternativa ao queijo” e “substituto da manteiga”, foi aprovada, o que significa que estes produtos podem ter de deixar de usar esses termos em embalagens, rótulos e menus de restaurante, precisando de ser denominados como alternativas completamente distintas dos produtos com origem animal.

Ao P3, a Associação Vegetariana Portuguesa (AVP) disse que tem contactado as empresas portuguesas que comercializam produtos vegetarianos e considera que esta alteração “tem um impacto muito negativo nas empresas e nos consumidores”.

“As empresas têm uma série de produtos que têm de ser alterados, tanto na sua rotulagem como também todo em todo o marketing que é feito. Os produtos já eram suficientemente claros porque, sempre que os produtos estavam rotulados como ‘manteigas’ ou ‘queijos’, tinham a indicação de que eram produtos 100% vegetais ou alternativas vegetarianas ao produto convencional. Acabamos por considerar que é uma medida supérflua e uma regulamentação excessiva que prejudica um mercado que está em crescimento significativo”, afirmou Nuno Alvim, presidente da AVP, ao P3.

Há algumas designações que já estão a ser utilizadas, refere Nuno Alvim, como “bebidas vegetais” e “creme vegetal” para substituir “leite” e “natas”, respectivamente. No entanto, as empresas podem vir a ter de se adaptar para substituir designações para manteigas e queijos, já que não podem sequer designar um produto como “manteiga 100% vegetal”.

Caso a proposta sobre hambúrgueres e salsichas vegetarianos tivesse sido aprovada, hambúrgueres vegetarianos poderiam passar a ser “discos” e salsichas “tubos” — assim, argumentam os defensores, o consumidor não seria enganado ou confundido pelos nomes dos produtos de origem vegetal.

Este resultado é visto por Nuno Alvim como uma “vitória”. Antes da votação, uma petição assinada por mais de 150 mil pessoas apelava a que os eurodeputados votassem contra a “burger ban” (como a medida foi chamada pelos grupos vegetarianos) e várias organizações e empresas europeias entregaram aos eurodeputados uma carta aberta com recomendações de voto.

O presidente da AVP também refere que a rejeição desta proposta “reflecte as expectativas dos consumidores europeus”. Segundo um inquérito de 2020 da Organização Europeia de Consumidores, apenas 25% dos inquiridos acreditam que termos como “hambúrguer vegetariano” são confusos ou enganosos.

A votação foi renhida e as propostas de emenda legislativa foram apenas duas num vasto pacote de medidas para a indústria agro-pecuária. Há ainda a possibilidade de as propostas à PAC serem novamente emendadas, já que ainda terão de ser negociadas no Conselho da União Europeia.

Empresas como a Beyond Meat, a Unilever e a IKEA, assim como a Associação Médica Europeia, também se opuseram às propostas, argumentando que designar os produtos vegetarianos como alternativas aos produtos originais, e não com nomes completamente diferentes, ajuda o consumidor a perceber o sabor e a textura desse produto.

Actualizado com o resultado da votação

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