Sob juramento, Ghislaine Maxwell recusou a ideia de Epstein ter tido sexo com menores

“Nunca vi qualquer actividade imprópria do Jeffrey com menores, nunca”, afirmou Ghislaine Maxwell, em 2016, num depoimento, feito sob juramento, que durou quase dez horas.

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Ghislaine Maxwell esteve escondida durante meses em Bradford, New Hampshire REUTERS/Lucas Jackson

A socialite britânica Ghislaine Maxwell disse, em 2016, sob juramento, que nunca tinha visto o falecido financeiro Jeffrey Epstein em “actividades inadequadas com menores de idade”. O depoimento, que a mulher procurou arduamente manter em segredo, foi divulgado esta quinta-feira.

Ghislaine Maxwell, de 58 anos, que, durante muito tempo, foi apontada como a discreta (e eterna) namorada de Epstein, declarou-se inocente nas acusações de ter ajudado o magnata a recrutar raparigas com menos de 14 anos para actos sexuais, em meados da década de 1990, e também inocente na acusação de perjúrio, por, sob juramento, ter negado o seu envolvimento em qualquer esquema desse tipo.

E, esta quinta-feira, foi conhecido o conteúdo desse depoimento, datado de Abril de 2016, obtido no decorrer de uma acção judicial interposta por Virginia Giuffre, que acusava Epstein de a ter mantido como “escrava sexual” com a ajuda de Ghislaine Maxwell.

De acordo com a transcrição, a filha do falecido editor britânico Robert Maxwell foi questionada sobre a sua relação com Epstein, que a empregou para ajudar a gerir as suas propriedades, e sobre as alegações de Virginia Giuffre. “Nunca vi ninguém a ter relações sexuais com o Jeffrey, nunca”, disse, acrescentando mais tarde: “Nunca vi qualquer actividade imprópria do Jeffrey com menores, nunca.” Sobre as acusações de Virginia Giuffre, que, entretanto, se formou em Direito e fundou a organização sem fins lucrativos Victims Refuse Silence, Ghislaine foi peremptória: “Ela é uma mentirosa.” “Nunca, em nenhum momento, em nenhum momento, participei em nada com a Virginia e o Jeffrey.”

A divulgação da transcrição do testemunho de Ghislaine Maxwell e de outros documentos, entretanto já conhecidos, foi ordenada pela juíza distrital norte-americana de Manhattan, Loretta Preska, não havendo, para já, quaisquer reacções por parte dos advogados de Virginia Giuffre.

Políticos norte-americanos na mira

Desde o início do escândalo, em Julho do ano passado, que a queda de Jeffrey Epstein — que foi encontrado morto na prisão, em Agosto de 2019, tendo a autópsia concluído a tese de suicídio — parecia querer levar consigo nomes sonantes, nomeadamente da política norte-americana. E a morte do magnata não acalmou a ânsia de justiça, com as autoridades a prometerem, na altura, a mudar o foco para os seus cúmplices.

O problema são os nomes que povoam a lista de amizades de Epstein: o actual Presidente dos EUA, Donald Trump, o ex-Presidente Bill Clinton e o príncipe André do Reino Unido são apenas três exemplos. No entanto, nenhum foi até agora acusado formalmente, ainda que no caso do monarca britânico, que Virginia Giuffre acusa de ter tido relações sexuais consigo quando ainda era menor de idade, já tenha havido consequências, com o abandono de todos os deveres reais (e perda de consequentes regalias).

No testemunho que agora é conhecido, Ghislaine Maxwell confirma, por exemplo, que voou nos aviões de Epstein com Clinton a bordo, mas não caracterizou os dois homens como amigos. Além disso, a mulher afirmou nunca ter estado numa das ilhas privadas de Epstein com o ex-governante. “Uma das mentiras que ela (Virginia) contou foi que o Presidente Clinton estava na ilha onde eu estava presente. Isso é 1000% inventado e mentira”, afirmou a britânica, sob juramento, num depoimento que durou quase dez horas.

A negação de qualquer envolvimento é repetida até à exaustão, mas os advogados de Ghislaine Maxwell consideram que tornar público este depoimento foi um primeiro passo para um julgamento injusto. Isto porque os jurados, que farão parte do julgamento agendado para Julho de 2021, poderão focar-se mais nas perguntas acusatórias do que nas respostas de Ghislaine, alegam.

Ghislaine Maxwell foi detida a 2 de Julho, em Bradford, New Hampshire, onde as autoridades disseram que ela estava escondida numa propriedade que comprou em Dezembro, numa transacção feita em dinheiro e com a sua identidade protegida. A mulher encontra-se numa prisão de Brooklyn depois de o juiz ter considerado existir um “inaceitável risco de fuga”.

Jeffrey Epstein, que morreu com 66 anos, na prisão de Manhattan, aguardava julgamento por acusações de tráfico sexual e abuso de mulheres e raparigas, em Manhattan e na Florida, entre 2002 e 2005. O homem tinha-se declarado inocente.

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