Mobilidade do futuro: uma oportunidade de tornarmos o mundo mais sustentável

A BMW Portugal promoveu recentemente um debate virtual, com especialistas de diferentes áreas, para discutir a forma como já hoje se estão a propor soluções rumo a uma mobilidade mais sustentável.

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Num momento particularmente exigente na história da humanidade, em que um vírus pandémico obrigou a mudanças de hábitos e costumes, torna-se ainda mais evidente a necessidade da sociedade envolver-se numa alteração de paradigma da mobilidade. As ruas das cidades mostraram-se despidas, com menos carros a circular, revelando uma atmosfera mais limpa e mais agradável. E, mais importante, mostraram que esse é o caminho para o qual a sociedade tem de convergir.

A urgência da acção climática e a forma como, em particular, as camadas mais jovens entendem as necessidades de mobilidade, vão obrigar a repensar as cidades. Há um caminho tecnológico, há uma necessidade de melhor informação e há uma premência de acções imediatas com planeamento integrado dos decisores políticos e sociedade civil.

Para responder a estes desafios a BMW Portugal lançou o debate e promoveu a discussão entre especialistas. A primeira edição da BMW e-Drive Talk: Mobilidade do Futuro, transmitido em live streaming, decorreu durante uma hora e com a promessa de que assim que possível haverá continuidade em modo presencial.

A BMW e-Drive Talk contou com a presença de Massimo Senatore (Director-geral da BMW Portugal), Pedro Silva (CTO da Critical TechWorks), Nicolas Keutgen (CIO da Schréder e criador da Schréder-Hyperion), Henrique Sánchez (Presidente do Conselho Directivo da UVE) e Luís Natal Marques (Presidente do Conselho de Administração da EMEL), num debate moderado pela jornalista Maria João Vieira Pinto.

Veja, ou reveja, a primeira edição da BMW e-Drive Talk: Mobilidade do Futuro.

Um em cada 10 veículos vendidos em Portugal já são eléctricos

Dados fornecidos pela UVE (Associação de Utilizadores de Veículos Eléctricos), indicam que o mercado português de veículos eléctricos e híbridos plug-in (com motor de combustão e eléctrico), apresenta até Setembro deste ano uma variação positiva nas vendas de 39,5% face a 2019. Tal representa uma quota de mercado de 11,5% para os veículos electrificados no nosso país.

A BMW fechou o ano de 2019 na liderança de vendas, entre as marcas premium, no segmento de veículos electrificados em Portugal. Com mais de 2500 unidades vendidas, o que corresponde a 18% do total de vendas da marca, representa um valor superior à média global da própria marca que se situou nos 10%. Até Setembro deste ano, o mix de vendas nacional da marca alemã é já de 25% de veículos electrificados, uma das maiores quotas de mercado de veículos electrificados em Portugal.

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A crise mundial veio aumentar a consciencialização dos consumidores para as questões ambientais. (…) Poderá ser uma oportunidade histórica para a electrificação de todo o tipo de mobilidade. Massimo Senatore, Director-Geral da BMW Portugal

Ao PÚBLICO/Estúdio P, Massimo Senatore, salienta que “temos vindo a apostar na electrificação dos nossos veículos, de forma a conseguir corresponder às necessidades dos clientes, bem como às necessidades do sector”. E mesmo o contexto de pandemia, com todas as restrições e novas exigências, revelou alterações importantes na forma como o consumidor interpreta as suas necessidades. O Director-geral da BMW em Portugal demonstra confiança que a “crise mundial veio aumentar a consciencialização dos consumidores para as questões ambientais, e que a mesma irá sair reforçada, pelo que poderá ser uma oportunidade histórica para a electrificação de todo o tipo de mobilidade, até porque o nosso mercado tem demonstrado uma grande apetência para a mobilidade eléctrica.”

A importância dos apoios estatais

Os dados de vendas revelam também um importante contributo de acções legislativas de apoio ao consumidor, como é o caso do apoio à aquisição de veículos eléctricos promovido pelo governo nos últimos anos.

Henrique Sánchez destaca, no entanto, que “o actual incentivo à Introdução no Consumo de Veículos de Baixas Emissões, que está disponível para particulares e para empresas, já se encontra praticamente esgotado para o ano em curso e abrangia Automóveis Ligeiros de Passageiros e Comerciais, Ciclomotores e Velocípedes convencionais ou eléctricos”. Para o ano de 2021, o governo anuncia o mesmo valor deste ano: uma verba de 4 milhões de euros, e, de acordo com o Presidente da UVE, este valor terá “um aumento da verba destinada aos particulares, por igual diminuição da verba destinada às empresas, que já usufruem de outros benefícios como sejam a Dedução do IVA e a Isenção de Tributação Autónoma em sede de IRC”.

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O actual incentivo à Introdução no Consumo de Veículos de Baixas Emissões já se encontra praticamente esgotado para o ano em curso. Henrique Sánchez, Presidente do Conselho Directivo UVE

A vertente de apoio às empresas e aos consumidores, sob a forma de incentivos tem sido uma alavanca para o crescimento deste mercado, mas, ainda assim há que reduzir o valor final de venda destes veículos, onerado devido à necessidade de desenvolvimento de novas tecnologias.

Para Massimo Senatore, “os custos de produção destas motorizações são superiores aos das motorizações ‘clássicas’, pelo que os apoios governamentais podem ser decisivos para que as fabricantes consigam suportar a sua potencial massificação. Se todos os consumidores tiverem acesso a esses incentivos, acreditamos que os veículos electrificados podem crescer ainda mais no nosso mercado”, assegura. E este é um ponto-chave partilhado pelos oradores do evento. Há margem para progressão do mercado. Mas é preciso investimento e desenvolvimento tecnológico para surgirem novos produtos.

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A infra-estrutura [relacionada com mobilidade eléctrica] está em grande aceleração, mas é necessário incentivar a procura. Pedro Silva, CTO da Critical TechWorks

Portugal na liderança tecnológica

O nosso país tem um capital humano de grande valor nas áreas da engenharia, entre outras, e várias empresas reconhecem isso, instalando-se ou realizando parcerias no nosso país. É o caso da Critical Techworks, criada há dois anos através da parceria entre a BMW e a Critical Software. Com quase mil funcionários, entre recém-graduados e profissionais seniores a empresa pretende juntar competências técnicas e pessoais que permitirão desenvolver mais e melhores soluções digitais, necessárias para todo o futuro da mobilidade do futuro.

Pedro Silva, CTO da empresa, explica que há um trabalho a fazer não apenas no desenvolvimento tecnológico das soluções de mobilidade, mas também, na forma como elas se vão interligar nas cidades do futuro, as Smart City.”A infra-estrutura [relacionada com mobilidade eléctrica] está em grande aceleração, mas é necessário incentivar a procura”, alerta.

De acordo com Massimo Senatore, para a BMW Portugal esta parceria representa “o caminho que delineámos para o futuro que é baseado no desenvolvimento de soluções para a mobilidade, com tecnologia suportada na conectividade que irá mudar a relação entre as pessoas e os seus veículos.”

O futuro da mobilidade está não apenas no automóvel, mas em todas as novas formas das pessoas interagirem para se deslocarem dentro das cidades. E o comportamento dos cidadãos é parte fundamental da equação, mas é necessário criar mais condições para permitir a alteração de hábitos.

As cidades inteligentes são o futuro

As Smart City, ou cidades inteligentes, são um conceito de cidade digitalizada, onde tudo trabalha em função de factores de sustentabilidade, ecologia e melhor mobilidade. É uma estrutura que permite aproveitar os recursos naturais para poupança de dependência energética e melhor gestão desses mesmos recursos.

Sistemas inteligentes irão controlar os sinais luminosos, gerir os espaços de estacionamento, a iluminação das ruas e controlar os diferentes fluxos de circulação. O objectivo de uma Smart City é permitir melhor mobilidade, mas acima de tudo, garantir um aproximar de metas de descarbonização, cada vez mais necessárias à saúde do planeta.

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Em Portugal os institutos públicos são mais sensíveis à inovação e isso é bom para planear uma Smart City”. Nicolas Keutgen, CIO da Schréder

São uma realidade em alguns países europeus, e, Portugal, devido à sua menor dimensão poderá a breve prazo ter um papel a desempenhar nesse campo. É Nicolas Keutgen que aponta as vantagens: “Na Bélgica, por exemplo, os cidadãos convivem com várias línguas e tem muitas diferenças nos diferentes sistemas de governação. Em Portugal os institutos públicos são mais sensíveis à inovação e isso é bom para planear uma Smart City”. O criador da Schréder-Hyperion acrescenta, ainda, a ideia de que as políticas públicas e privadas holísticas, quando capazes de trocar experiências entre si, poderão ser a peça chave para o desenvolvimento deste tipo de cidades.

Em Lisboa, uma das faces visíveis da transformação que a cidade está a viver é a EMEL, que actua em mais do que apenas a gestão dos espaços de estacionamento, como recorda Luís Natal Marques: “a nossa aposta na mobilidade eléctrica data já de 2017, quando montámos a rede de bicicletas partilhadas GIRA”. A empresa constitui-se também em 2019 como Operadora de Pontos de Carregamento (OPC) de Veículos Eléctricos, reforçando o seu compromisso na oferta de soluções de mobilidade urbana. “Actualmente, já dispomos de 26 Postos de Carregamento de Veículos Eléctricos (correspondendo a 52 tomadas) em cinco dos nossos Parques de Estacionamento, e dois Pontos na via pública. Estamos, ainda, a finalizar um concurso público para a aquisição de mais de 180 Postos de Carregamento de Veículos Eléctricos, dos quais 18 de Carregamento Rápido, 108 de Carregamento Normal e Semirrápido, para instalação e ampliação da rede nos nossos Parques de Estacionamento, e cerca de 60 de Carregamento Lento e Semirrápido, para colocar em locais estratégicos das ruas de Lisboa e reforçar, assim, a oferta na via pública”, revela. 

O futuro é responsabilidade de todos

A criação de um sistema sustentável só é possível com o esforço de toda a sociedade. Portugal ainda é um país assimétrico na oferta de postos de carregamento eléctrico, embora, de acordo com os dados fornecidos pela UVE a evolução tem sido notória. Em 2011 existiam 5 PCR (Postos de Carregamento Rápido) e cerca de 1.000 PCN (Postos de Carregamento Normal), hoje temos 400 PCR e mais de 3.000 PCN, estes com uma potência muito superior aos de 2011. Ainda assim é preciso perceber que se cada pessoa tivesse um carro eléctrico e o quisesse colocar à carga, neste momento, nenhuma rede iria suportar essa demanda.

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Qualquer processo de mudança exige a participação de todos, neste caso, um compromisso sério com o futuro e com o planeta que deixamos aos nossos filhos e netos. Luís Natal Marques, Presidente do Conselho de Administração da EMEL

Além disso, há a questão do negócio. É certo que marcas como a BMW estão a desenvolver um esforço significativo, monetário e de meios, mas sem apoios à produção e desenvolvimento não será fácil tornar as tecnologias mais acessíveis. Além disso o planeta não é todo igual. Há regiões, por exemplo em África e partes da Ásia, onde apenas será possível, durante muitos anos, existirem veículos de combustão, por inexistência de redes e fornecimento eléctrico condigno.

A responsabilidade de tornar um planeta mais sustentável depende das políticas governamentais e da acção de cada pessoa. No entanto, o Presidente do Conselho de Administração da EMEL Luís Natal Marques, lembra a importância do colectivo :"qualquer processo de mudança exige a participação de todos, neste caso, um compromisso sério com o futuro e com o planeta que deixamos aos nossos filhos e netos”. Sobre esta cooperação, Henrique Sánchez acredita que as próprias Escolas de Condução, que ainda utilizam quase exclusivamente veículos com motores de combustão interna, podem ser parte da solução ao ponderarem temáticas como poupança energética nos seus conteúdos programáticos. 

Os jovens estão na linha da frente em termos de adesão às novas ofertas de mobilidade. Mais do que a posse do automóvel, alguns apenas pretendem a melhor forma de se deslocar no momento. Será com certeza da criatividade de muitos deles que a mobilidade do futuro poderá ser uma realidade acessível a todos.

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