Todos são Caim na terra de Ka

Um dos raros autores rompedores, singulares, do hip-hop americano.

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Artista que ainda sabe que o conservar de uma distância em relação ao público é o que separa a arte da vulgaridade

Como qualquer outro género transformado em consumo de massas, também o hip-hop tem conhecido profunda saturação de intérpretes e ideias, circunstância visível na última década e que, favorecida pela produção e o consumo “em série” propiciados pela democratização da net, dificulta o surgimento de propostas novas e singulares. E, com efeito, pelo meio do entulho em que se traduz a maioria do trap e seus casamentos por conveniência, têm rareado rupturas ou inovações estéticas dignas desse nome. Uma delas, porém, tem nos nomes de Ka e de Roc Marciano, nova-iorquinos e amigos próximos (e ambos músicos já nos quarentas cujo culto em seu redor só começou a sugir nos últimos anos), os seus grandes alicerces: rappers e produtores de altíssimo nível, têm erguido uma estética a que já se chamou de “drumless beat” (e que entretanto fez escola, dos Griselda, Boldy James ou Eto, nos EUA, a Blasph e Beware Jack, cá no burgo), instrumentais onde as baterias, as percussões, enfim, a “batida” rareia (descontando os efeitos percussivos de instrumentos não-percussivos) ou de onde está ausente, e em que a abordagem do rapper, laboriosa porque desapoiada da referência rítmica primordial, se faz em fundos minimalistas, loops hipnóticos, inóspitos, pincelados por ostinatos e pormenores de grande aprumo harmónico.

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