Poder, dinheiro e abusos sexuais: a luta entre dois cardeais no Vaticano

O cardeal Becciu, afastado pelo Papa Francisco, terá enviado 700 mil euros para financiar a acusação de abusos sexuais contra o cardeal Pell na Austrália, o homem que o Papa Francisco foi buscar para pôr na ordem das finanças do Vaticano. Pell acabou condenado, mas depois de 13 meses na prisão foi ilibado pelo Supremo.

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O cardeal australiano George Pell Reuters/Alessandro Bianchi

A polícia australiana confirmou que está a investigar um possível envio de verbas do Vaticano para a Austrália e que parte do caso está a ser analisado pela unidade responsável pela luta anticorrupção na polícia, depois de relatos, nos media italianos, que poderia ter havido subornos a acusadores do cardeal George Pell, vindos da Santa Sé — ou melhor, de um rival de Pell na instituição.

O cardeal Pell, na altura o número três na hierarquia do Vaticano, foi acusado de vários crimes relacionados com abuso sexual de crianças pela polícia no estado de Vitória, que teriam ocorrido nos anos 1990, mas apenas um caso foi a julgamento em 2018: Pell foi condenado pelo abuso de dois rapazes de 13 anos do coro da Catedral de Melbourne. Mas em Abril, depois de ter cumprido 13 meses de prisão, foi ilibado pelo Supremo e libertado.

Em Itália, foi entretanto relatado pelos media que Angelo Becciu, rival de Pell na Santa Sé, tinha enviado 700 mil euros para a Austrália, para ajudar os “inimigos” do cardeal. O advogado de Becciu negou a acusação.

Becciu, que foi afastado pelo Papa Francisco em Setembro por acusações de fraude e nepotismo, teve problemas com Pell quando o papa o encarregou das finanças do Vaticano, com a missão de reformar um sistema há muito alvo de suspeitas de corrupção e negócios questionáveis.

Reagindo às notícias, o advogado de Pell na Austrália sublinhou a importância de “se levarem a cabo todos os exercícios de rastreamento de dinheiro”. Apenas um dos homens que acusou Pell está vivo, e através do seu advogado, negou ter conhecimento “de quaisquer pagamentos alegadamente feitos pelo Vaticano à Austrália”.

Além do caso judicial, o cardeal Pell, que chegou a ser o chefe da Igreja Católica na Austrália, sabia dos abusos sexuais cometidos por padres no país e não fez nada para os impedir, segundo um relatório de uma comissão de inquérito criada em 2012, e cuja parte relativa à conduta de Pell  foi divulgada em Maio deste ano. Aquando da divulgação, a polícia não excluíu abrir uma investigação.

Pell voltou ao Vaticano no final de Setembro e teve uma audiência com o Papa a 12 de Outubro. 

Depois do afastamento de Becciu, Pell declarou que “o Santo Padre foi eleito para limpar as finanças do Vaticano” e que “é preciso agradecer-lhe pelos recentes desenvolvimentos”.