Pelo menos 70 obras de arte vandalizadas em três importantes museus de Berlim

Autoridades mantiveram o caso em segredo durante quase três semanas. O ataque estará ligado a estranhas teorias difundidas online nos últimos meses que associam, entre outras coisas, o Altar de Pérgamo a Satanás.

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A Ilha dos Museus vista do telhado da Catedral de Berlim ALEXANDER BECHER/LUSA

Sarcófagos egípcios, pinturas do século XIX e esculturas em pedra de três dos principais museus de Berlim – o Pergamon Museum, o Neues Museum (Museu Novo) e a Alte Nationalgalerie (Antiga Galeria Nacional) – foram atacados com uma substância líquida oleosa a 3 de Outubro, dia em que se festejaram os 30 anos da reunificação alemã. Terão sido vandalizadas pelo menos 70 obras de arte. 

De acordo com o semanário alemão Die Zeit, a polícia abriu uma investigação, não fazendo, para já, quaisquer comentários aos muitos rumores que correm sobre os motivos que estarão por trás desta acção aparentemente concertada. 

O que aconteceu ao certo, aliás, ainda não se sabe, pelo menos publicamente, mas os media alemães têm avançado a hipótese de este ataque na Ilha dos Museus da capital estar ligado a teorias da conspiração difundidas nos últimos meses através das redes sociais por diversas pessoas que negam a existência do novo coronavírus e, por arrasto, da pandemia de covid-19, contestando as medidas de prevenção e combate adoptadas.

Um dos possíveis envolvidos é Attila Hildmann, chef e autor de um livro de cozinha vegan, que é um velho conhecido das autoridades de Berlim. Hildmann, um forte apoiante da QAnon, a teoria da conspiração preferida da nova direita radical norte-americana, publicou em Agosto e Setembro uma série de mensagens na rede social Telegram em que sugere, escreve o diário britânico The Guardian, que a chanceler alemã Angela Merkel usa o Altar de Pérgamo, centro nevrálgico do museu com o mesmo nome, para fazer “sacrifícios humanos”. 

Esta “sugestão”, que poderia ter saído de uma ficção em BD para adolescentes, não anda longe de outra teoria que toma o mesmo museu como um centro da “cena satânica global”, por ali ter sido reconstruído o já referido altar a partir de fragmentos oriundos de escavações arqueológicas na antiga cidade grega de Pérgamo (actualmente na Turquia).

A polícia não comenta as alegações dos media e diz estar ainda a ser avaliada a extensão dos danos causados aos objectos em exposição nos três museus. O semanário Die Zeit já o classificou, no entanto, como o “maior atentado contra obras de arte e antiguidades da história da Alemanha desde o fim da Segunda Guerra Mundial”, cita o jornal espanhol ABC.

Ainda de acordo com este diário, as autoridades poderão estar também a investigar o possível envolvimento de activistas que têm vindo a contestar a forma como o país continua a lidar com os muitos artefactos que chegaram aos seus museus no período colonial.

Markus Farr, porta-voz dos museus citado pela radiodifusora alemã DW, acredita que os ataques se devem à actuação de “várias pessoas em simultâneo e durante mais de uma hora”. O líquido usado corroeu algumas das peças, deixando manchas noutras, detalhou. 

Lembra este porta-voz que no fim-de-semana em causa – 3 de Outubro foi um sábado – a capital alemã estava cheia de turistas nacionais e estrangeiros, mas a festa fazia-se sobretudo nas ruas. Os museus, praticamente vazios, exigiam dos visitantes uma pré-reserva e, para isso, era preciso que se registassem, deixando nome, morada, número de telefone e endereço electrónico. Estes registos estão agora a ser passados a pente fino pela polícia de investigação criminal.

Se se tratou de um acto de vandalismo concertado ou de um acto de vandalismo destinado a fazer passar uma mensagem – e que mensagem – é algo que a polícia terá ainda de apurar.

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