Opinião

I SEE YOU

Desde março até agora devíamos ter aprendido uma lição: respeitar o medo dos outros. Pôr uma máscara na cara quando duvidamos da sua utilidade só para lhes significar a nossa consciência de que a vida deles não está fácil e que queremos estar juntos

Agora que o governo parece ter atirado a questão da obrigatoriedade para as calendas gregas, só nos resta discutir o princípio. E João Miguel Tavares coloca-o de forma límpida: “pode o governo obrigar os seus cidadãos a instalar uma determinada aplicação num contexto de pandemia, mesmo que ela seja um ganho extraordinário em termos de proteção da saúde pública?”

Está um bocado desconcertado em encontrar-se ao lado de António Costa e de Rui Rio e a favor da compressão de certas liberdades individuais – diz-nos que tal é inédito; não tenho tanta certeza que o seja, mas isso é outra história. Também não me sinto lá muito confortável tão colada ao Pacheco Pereira, que “nunca, jamais, em tempo algum”, usará “a dita aplicação, nem que isso signifique ter de deixar de andar de telemóvel”. Mesmo se, quando vi a proposta de lei, voltei a ter aquele pesadelo recorrente - à porta do supermercado de braço esticado para entrar, toda contente porque hoje acordei com direito à luz verde, mas nervosa porque, como sempre, já só tenho 1% de bateria.

Agora já percebo a acusação de “libertarianismo fácil”. Temos liberalismo clássico, diretamente descendente de John Stuart Mill. Nada de misturas com essa clique pouco recomendável para quem o imposto é roubo e um bocado de tecido a tapar a cara um atentado ao seu direito fundamental a respirar.

Faz bem. Nunca li Sobre a Liberdade, o que me impede liminarmente o acesso ao clube dos verdadeiros liberais, mas não vejo melhor maneira de viver em sociedade do que fazer uma reflexão constante acerca do “ajuste adequado entre a independência individual e o controlo social”.

Se esta pandemia teve uma consequência positiva, é tal não ser mais assunto exclusivo de tertúlias intelectuais pseudo-liberais. Passou a ser um tema que toca a toda a gente: do casal de intelectuais que tinha combinado um jantar no Chiado com quatro amigos onde iriam discutir a app do dia, aos miúdos que andam a cogitar se conseguem juntar dinheiro suficiente para alugar um espaço na zona ribeirinha agora que o tempo não está de feição para descampados. E até passa pela vizinha do António Costa, que não sabe se vai conseguir ir à terra no dia 1 de novembro e como vai ser o Natal. O ponto passou a estar por baixo de cada pedra do nosso caminho.

O risco está em clamarmos o nosso amor à liberdade perante cada uma dessas pedras, quando estamos na realidade a defender egoisticamente os nossos pequenos prazeres individuais. Andamos a educar os nossos filhos dizendo-lhes que o mais importante na vida é serem felizes. Provavelmente estão convencidos serem detentores de um direito inalienável a fazer tudo o que lhes dá gozo e não vai ser o Estado, nem os outros, que se vão agora interpor-se nessa senda.

Para ilustrar este risco, não consigo encontrar melhores palavras do que as que me foram ditas ontem por um “espírito livre” de Lousado, Famalicão, onde, à frente de um lar, vive em cada gesto e momento “a espessura da atmosfera pesada da linha da frente”. “Numa crise que abala a existência humana, a liberdade não pode ser o individualismo. Numa crise como esta, a liberdade são os outros. Todos os que são velhos, todos os que não todos os que não têm o privilégio de ficar em teletrabalho, não trabalham para o Estado, nem têm vencimento garantido. Todos os que trabalham na construção, que andam na hora de ponta nos transportes, todos os que estão na linha da frente, num lar ou num hospital. Esta app mesmo que não funcione bem, é uma tentativa de ajudar. Num momento em que a pandemia tem ar de estar descontrolada, não é a avaliação técnica da app que releva para a análise, mas a arrogância combativa dos urbanitas. ‘Ainda não sou eu’ parece ser o seu lema de ação. Até lá, vestem-se de ‘princípios’”. Não sei se leu Mill, mas resume-o bem quando diz “daqui vemos individualismo, onde porventura daí se fala em liberdade”.

Esta “urbanita” – como ele nos chama – declara-se guilty as charged. Daqui é fácil.

Podia ter-lhe respondido com a Constituição: por mais dura que seja a vida nos lares, esta compressão da liberdade não passa no teste constitucional. Talvez devesse ter-lhe chamado a atenção para a possibilidade de ser difícil ver tudo o resto no meio do fumo da linha da frente e como isto tem sido um problema recorrente.

Não fui capaz. Era demasiado frio e racional. Onde ele está não é em qualquer linha da frente. É no lugar onde a pandemia transformou a vida, literalmente, num inferno. Desde março até agora devíamos ter aprendido uma lição: respeitar o medo dos outros. Pôr uma máscara na cara quando duvidamos da sua utilidade só para lhes significar a nossa consciência de que a vida deles não está fácil e que queremos estar juntos.

Como me disse alguém há pouco tempo, solidariedade também é I see you. Descarreguem a app se conseguirem. Voluntariamente. Mesmo se não serve para nada. Mesmo se estão a abrir uma porta incómoda que ninguém sabe lá muito bem como a fechar depois contra o apetite voraz do Estado nestas matérias. Só para dizerem ao vosso vizinho do lado que estão com ele. John Stuart Mill vai ficar orgulhoso de vocês.

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