Dia Mundial de Combate ao Bullying

É preciso falar sobre o bullying

A vitimização continuada pode fazer com que a criança acredite que é um fracasso e, em casos graves, pode levar a que se magoe profundamente.

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"Não é fácil saber que o nosso filho é um agressor. Ele pode negar ou até mesmo referir que é a vítima" @petercalheiros

“Choramingas! Choramingas!” cantou o bully. Usou a sua voz alta, aquela que ele usava no recreio para ter a certeza de que todos os miúdos o ouviam. “João, João, bebé chorão!!! Olhem só como ele chora!” Alguns dos amigos do João ficaram só a ver. Outros fugiram. Ninguém o ajudou.

O Dia Mundial de Combate ao Bullying assinala-se hoje, 20 de Outubro. Esta data deve ser um alerta para uma problemática tão séria vivida por crianças e adolescentes nos mais variados contextos, sendo a escola o mais frequente. Desde logo, convém deixar claro que tudo o que limita a liberdade do outro, humilha ou vai contra a sua vontade deve ser encarado como abuso ou maltrato.

Bullying é um termo inglês que significa agressão, violência física ou psicológica, por exemplo, ameaças e insultos, por parte de um ou mais colegas sobre um outro colega ou grupo de colegas. Estas ameaças e agressões ocorrem de propósito e, geralmente, o agressor (o bully) é maior e mais forte do que a criança agredida. Ou seja, o bullying acontece quando uma pessoa é exposta de forma repetida e intencional, ao longo do tempo, a acções negativas por parte de outra pessoa mais forte (física ou psicologicamente).

O bullying não é uma luta de crianças nem somente uma provocação. É mais do que isso porque a criança que é vítima não se consegue defender e sente-se assustada e sozinha.

Lidar com um bully pode ser uma das situações mais difíceis que uma criança tenha de enfrentar. O uso repetido de agressões, ameaças, insultos ou contactos físicos que podem criar sentimentos de medo e de ansiedade são exemplos de bullying. Ser vítima de bullying é algo que pode marcar uma criança para o resto da sua vida. O bullying não faz parte do desenvolvimento normal das crianças e pode ter um impacto muito negativo. As vítimas podem, isolar-se e passarem a perceber o mundo como um lugar ameaçador e muito assustador.

Qualquer um pode ser vítima, mas há crianças mais vulneráveis, como aquelas com dificuldades de aprendizagem, que são mais introvertidas ou que tenham uma aparência diferente. A vitimação continuada pode fazer com que a criança acredite que é um fracasso e, em casos graves, pode levar a que se magoe profundamente.

Alguns sinais e comportamentos das vítimas incluem perda súbita de amigos, isolamento, dificuldades de concentração, dificuldades em adormecer, pesadelos, medo de sair de casa, baixa auto-estima, tristeza, diminuição do rendimento escolar, recusa em ir à escola, dores de cabeça, dores de estômago, choro sem motivo aparente, alterações súbitas de humor, ansiedade, irritabilidade, dificuldade em falar do que se passa na escola.

Os agressores são crianças com baixa tolerância à frustração que gostam de provocar, magoar e destruir para sentir que têm poder. É uma necessidade de afirmação pessoal. Comparativamente com os seus pares, são crianças com dificuldades em fazer amigos e que não gostam da escola. Envolvem-se mais em comportamentos de risco para a saúde (tabaco, consumo de álcool ou drogas e actos de delinquência) e vivem em famílias onde existe distância emocional, disciplina inconsistente ou muito punitiva, ausência de transmissão de valores e normas sociais.

Ao mesmo tempo em que a vítima deve receber a ajuda necessária para pôr fim à vitimação, o agressor também deverá encontrar quem o faça cessar e o conscientize e o sensibilize para a boa convivência em sociedade. Mas não basta que o pai ou a mãe da vítima retaliar e ameaçar o bully. Emoções extremadas conduzem a acções que podem piorar a situação e ainda, ensinar a resolver a situação com violência. É preferível reunir-se com a direcção da escola para encontrar uma forma conjunta de acção e evitar que outras crianças também sejam afectadas.

E se o seu filho for o bully?

Não é fácil saber que o nosso filho é um agressor. Ele pode negar ou até mesmo referir que é a vítima. Encoraje uma discussão franca com a criança sem a ameaçar. Poderá descobrir que ela tem um problema que os adultos desconheciam. Em muitos casos, o comportamento de bullying pode ser um sinal de mal-estar ou mesmo um pedido de ajuda. Esteja atento à forma como a criança passa o seu tempo livre e com quem. Vivências familiares agressivas, amizades com tendência a actos de malvadez, jogos e filmes violentos (que retratam situações onde as pessoas recorrem à força ou à crueldade) podem encorajar comportamentos agressivos.

Parte da solução passa pela união de esforços entre poder público e sociedade, assumindo a existência do fenómeno e assim, passando a agir para a prevenção e para o combate eficaz ao bullying.

Não menos importante será activar mecanismos no que diz respeito ao cyberbullying, tanto em casa através da supervisão parental e hábitos saudáveis no que diz respeito à utilização das redes sociais e da tecnologia, como ao nível escolar com medidas preventivas e informativas acerca dos perigos da Internet.

Criança,

  • Ser vítima de bullying não é uma vergonha, ninguém deve ser magoado ou humilhado.
  • O que te está a acontecer é injusto e não é merecido, porque a culpa não é tua.
  • Conta a alguém em quem confies, em particular a um adulto, pois assim o bully vai perceber que não estás sozinho.
  • Quando o bully ameaçar-te, se for preciso, diz alto: “Pára!”
  • Não retribuas insultos, apenas ignora.
  • Tenta andar sempre com um ou mais colegas.

Pais,

  • Informem-se sobre o que é o bullying e conversem de forma aberta com os vossos filhos, ensinando-lhes a evitar e a recusar comportamentos que prejudiquem os outros.
  • Fomentem uma relação próxima com a criança para que ela se sinta segura para contar, se necessário. Procurem passar mais tempo de qualidade com ela.
  • Deixar a criança sozinha nunca será opção, muito menos dizer coisas como: “Tens de te defender” ou “Estás a exagerar”.
  • Reúnam-se regulamente com o professor ou director de turma e tomem conhecimento da situação escolar dos vossos filhos (rendimento, comportamento, amizades, interacção social, etc.).
  • Lembrem-se que as crianças acabam por modular os comportamentos agressivos dos seus progenitores e replicam-nos com os seus pares.

Escola,

  • Não só é importante intervir com as vítimas, mas também com os agressores, não nos podemos esquecer que muitas vezes eles próprios foram vítimas de violência física e psicológica em contexto familiar.
  • Implementar programas de prevenção do bullying e assumir directrizes para a promoção de um ambiente seguro, estabelecendo regras, direitos e responsabilidades junto de toda a comunidade escolar, desde o jardim de infância. Estes programas devem envolver os encarregados de educação.
  • Quanto mais atentos e próximos os professores estiverem dos alunos, mais facilmente estes poderão confiar e pedir ajuda.

Centro Internet Segura: 800 21 90 90
Linha da Criança (Provedor de Justiça): 800 20 66 56
APAV – Associação Portuguesa de Apoio à Vítima: 707 200 077.

Sugestão de livro: Bully, um mauzão que gostava de magoar os seus colegas. Psiquilibrios Edições.

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