Birras de mãe

Dia 111: Os bons tios são quase clones dos pais

Os tios, muitas vezes, têm ainda uma vantagem espectacular: primos. E os primos são mais emocionantes do que os irmãos (porque não estão lá todos os dias), mas com uma proximidade que nunca se compara mesmo à dos melhores amigos.

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@DESIGNER.SANDRAF

Querida Ana,

PÚBLICO -
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Está um dia escuro e chuvoso, e eu tenho saudades dos teus irmãos. Não bastava um emigrante, agora são dois e Inglaterra, nesta pandemia, já não parece aqui ao lado. Abençoados telemóveis e Internet, digam o que disserem deste nosso segundo cérebro, às vezes mais primeiro do que aquele que trazemos em cima dos ombros, porque nestes momentos fazem as vezes de tapete voador e permitem-nos continuar presentes no dia-a-dia de quem está longe. Ou mais ou menos.

Mas para além de carpir as minhas lágrimas, e fazer (mais) uma birra contra o raio do coronavírus, venho falar de tios e de tias. Os avós que me desculpem, mas hoje até me atrevo a dizer que os tios fazem mais falta às crianças do que nós. Os bons tios são quase clones dos pais, aliás se calhar são até a melhor versão dos pais porque não se sentem tão oprimidos pela obrigação de “educar”, e porque não andam tão privados de sono — ou seja, são mais transgressores e divertidos.

Somam outra vantagem, conhecem os irmãos por dentro e por fora, nomeadamente as suas histórias secretas, que aliás partilham com gozo com os sobrinhos, divertindo-se com a ideia de que vão ser usadas como munições poderosas para conquistar território e reivindicar liberdades que os irmãos/pais aparentemente amnésicos em relação ao seu passado (ou porque se lembram bem!), insistem em não conceder.

Além disso, confrontam os pais de igual para igual, como se fossem todos miúdos de regresso a um quarto de brinquedos, e há qualquer coisa de espantosamente didáctico neste “espectáculo” que lhes revela um pai ou uma mãe da sua idade, provavelmente muito parecido com eles — tímido, inseguro, de pavio curto ou, pelo contrário, a deixar-se ficar mais do que devia, trocista, generoso, às vezes cruel.

Acima de tudo, sabem-se amados e protegidos por eles, porque sabem que a cola que os une aos seus pais não é coisa deste mundo.

Ana, de primeira vez que a tua irmã partiu para Inglaterra, escreveste para ela o Take My Coat, a história do teu adorado casaco quentinho que lhe emprestaste, as mangas a fazerem as vezes dos teus braços à volta dela, para a manter quentinha. Preciso de a voltar a ouvir (ou melhor dito de chorar um bocadinho), na certeza e um dia os filhos dela vão perceber que ninguém pode ser uma melhor segunda mãe do que tu. https://www.youtube.com/watch?v=HxA4jjRsWVQ&feature=youtu.be&autoplay=1

Desculpa, hoje estou muito lamecha.


Querida Mãe,

PÚBLICO -
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Ohhhhh nããooo, agora tenho ainda mais saudades dos meus irmãos! E os miúdos então não se fala. Refilam todos os dias porque “o tio disse que ia só uns meses e depois ficou lá a trabalhar”, e querem saber porque é que a tia “não podia arranjar cá um trabalho??!”. A mãe tem toda a razão há poucas coisas melhores do que os tios/tias.

Lembra-se quando fui viver para Inglaterra uns meses? Na altura fui visitar uma tia sua que, por viver em Inglaterra, nunca tinha conhecido e quando entrei em casa dela e ela me recebeu com um abraço apertado, fiquei com os olhos a picar. Como é que alguém que vivia há tantos anos tão longe da minha avó conseguia ser tão parecida com ela? Como é que aquela casa me era tão familiar, embora nunca lá tivesse entrado? Senti-me nesse momento no melhor dos dois mundos, entre a familiaridade total e a novidade, a magia que os tios operam sempre.

Não é por acaso que os ‘betos’ chamam de ‘tios’ aos melhores amigos dos pais, é que, quando é bem usado, ressalve-se, é mesmo um título de honra que, no fundo, diz às crianças: “Podes confiar a 100% nesta pessoa que pode não ser do nosso ‘sangue’, mas é da nossa ‘tribo’.”

Os tios, muitas vezes, têm ainda uma vantagem espectacular: primos. E os primos são mais emocionantes do que os irmãos (porque não estão lá todos os dias), mas com uma proximidade que nunca se compara mesmo à dos melhores amigos.

Ohh não, agora além das saudades dos meus irmãos, tenho saudades dos meus primos e dos meus tios. Raios partam a covid-19!

Bjs!

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